Como os avós e a ilha do Fogo moldaram a música de June Freedom

September 27, 2026
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©BANTUMEN/Nuno Silva

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A conversa ainda mal tinha começado quando June Freedom recebeu uma descrição de si próprio feita por inteligência artificial: "afro-minimalista", "cosmopolita", entre a alta-costura e o streetwear urbano, com silhuetas largas, conjuntos monocromáticos e acessórios arrojados. "Eles perceberam tudo", reagiu, divertido, antes de reconhecer que aquela descrição até lhe estava a revelar coisas em que nunca tinha pensado muito. Naquele dia usava calções compridos e botas de cowboy; noutra manhã, podia escolher qualquer coisa completamente diferente. Há dias em que sai de casa com vontade de ser visto e outros em que prefere uma "vibe calma".


É uma explicação útil para quem tenta arrumar June Freedom em categorias demasiado estanques. Pedro Fontes Veiga Jr., nome de registo, nasceu em Boston, cresceu na ilha do Fogo, em Cabo Verde, e voltou aos Estados Unidos por volta dos 15 anos. Pelo caminho ficaram a coladeira que ouvia em casa, o restaurante da mãe, onde a música ao vivo fazia parte da rotina, e uma adolescência americana em que o R&B, o hip-hop e a pop se juntaram ao que já trazia consigo. Numa entrevista anterior à BANTUMEN, contou que, enquanto outros jovens queriam imitar Michael Jackson, ele queria cantar como Ildo Lobo.


Hoje canta em inglês, crioulo, português e espanhol, por vezes dentro da mesma música. Quando lhe perguntamos em que língua pensa no estúdio, a resposta acaba por estar diante de nós: a própria entrevista salta de uma língua para outra sem grande aviso. Pessoas da equipa já lhe sugeriram que experimentasse gravar canções só em inglês, uma forma aparentemente simples de facilitar a circulação internacional do trabalho. June conhece o argumento, mas para ele a música começa noutro lugar. "Não faço música para agradar aos outros. Faço música para mim e sobre aquilo que estou a viver", garante.


Nos últimos cinco anos, essa maneira de ignorar as fronteiras entre línguas produziu precisamente o tipo de números que o conselho comercial procurava. Em junho deste ano, a imprensa cabo-verdiana dava conta de mais de 335 milhões de streams acumulados e apresentava-o como um dos músicos de Cabo Verde mais ouvidos nas plataformas digitais. Em setembro, o comunicado de lançamento do novo single já falava em mais de 447 milhões. Anchor Baby, lançado em 2021, abriu essa discografia. 7 SEAS chegou em 2023 e, em julho de 2025, Casa Mira Mar acrescentou 12 faixas a um catálogo que já tinha levado June em digressão pela Europa e pelos Estados Unidos. Em 2026, Casa Mira Mar venceu o prémio de Álbum do Ano nos Cabo Verde Music Awards, numa gala de onde June saiu com três troféus.

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 ©BANTUMEN/Nuno Silva

Entretanto, a 18 de setembro, chegou "Dance Again", novo encontro com a cantora e atriz canária Eva Ruiz, três anos depois de "Guava Rose". A faixa põe em prática a mistura de que falava na entrevista: inglês, espanhol e crioulo cabo-verdiano dividem a mesma canção, sobre uma produção que aproxima o afro-pop, a pop contemporânea e referências latinas.


Os números, e as métricas comuns a qualquer artista, aparecem na entrevista quase sempre acompanhados de alguma tentativa de os pôr no devido tamanho. Quando lhe dizemos que é apontado como o artista cabo-verdiano com mais streams no mundo, deixa escapar primeiro a reação mais humana: "Damn, sou o artista cabo-verdiano com mais streams do mundo. Isso é uma loucura." Depois vêm a gratidão, a pressão e a ressalva. "São números que sobem e descem", lembra. Servem para abrir portas, aumentar o público e chegar a palcos maiores, e ele quer tudo isso, mas diz não conseguir usá-los para decidir que música deve fazer.


E Basta recuar até Casa Mira Mar para perceber o contraste. O terceiro álbum nasceu de uma casa e de uma história familiar que June só veio a compreender por inteiro já adulto. O avô foi comerciante em São Filipe, na ilha do Fogo, e tinha ali uma loja chamada Casa Mira Mar, de onde se via o oceano e, ao longe, a ilha Brava. June tinha crescido naquele espaço, mas foi a mãe quem mais tarde lhe contou pormenores sobre os avós e sobre uma história que ele nunca tinha parado para reconstruir. "Deu-me cabo da cabeça de tantas maneiras diferentes, porque não conhecia a história por detrás daquilo", recorda.


Quando voltou à casa depois da digressão de 7 SEAS, estava cansado e pensava fazer apenas um EP. A estadia no Fogo mudou os planos. O projeto passou de seis para 12 músicas e demorou quase dois anos a ganhar forma, entre a procura de certas texturas, arranjos e memórias. O disco acabou por juntar coladeira, funaná, batuku e outras referências cabo-verdianas ao R&B e à pop contemporânea, com participações de artistas de diferentes geografias.


Mas nesta entrevista June vai mais atrás. Lembra-se de sair de casa durante horas quando era criança, da liberdade com que percorria a ilha e de cantar com uma banda no restaurante da mãe por volta dos 10 anos. Lembra-se também das canções que sabia de cor sem ter idade para compreender o que diziam. Agora volta a esses repertórios interessado precisamente no que lhe escapava: as histórias, as letras, as escolhas melódicas e a maneira como diferentes movimentos musicais chegaram a Cabo Verde.


Tem passado tempo a ouvir gravações cabo-verdianas das décadas de 1960, 70, 80 e 90 e admite que parte desse catálogo só lhe chegou verdadeiramente nos últimos anos. "Agora que sou mais velho, ouço estas coisas e penso na perspetiva e naquilo que significava para aqueles artistas estarem a cantar estas músicas", explica. A pesquisa inclui a estrutura das próprias composições e June fala-nos dos acordes, das melodias, das aproximações a Cuba, a África e às diásporas. Compara essa riqueza com uma parte da pop contemporânea construída sobre progressões muito semelhantes, quase sempre assentes em quatro acordes. Não se poupa na comparação e admite que várias das suas músicas seguem a mesma estrutura. É justamente por isso que anda à procura de outras soluções.


O interesse pelos arquivos e a dimensão internacional da carreira convivem sem que pareça sentir necessidade de resolver a aparente contradição. Cabo Verde é ao mesmo tempo memória familiar, matéria musical e um país cuja produção considera ainda subvalorizada na circulação internacional. Quando fala da posição do arquipélago no Atlântico e das sucessivas circulações de pessoas, culturas e sons, está também a tentar perceber como se formou aquilo que ouviu desde criança. "Se puder ter as plataformas, seja qual for o caso, estou sempre a tentar levar mais longe as histórias, as melodias, aquilo por que passámos enquanto povo e a cultura", afirma.


Durante o Mundial de 2026, essa relação com o país apareceu noutro palco. June diz ter acompanhado todos os jogos de Cabo Verde na estreia da seleção num Campeonato do Mundo, mas é ao recordar o jogo com a Argentina, nos 16 avos de final, que perde por um momento a serenidade que domina grande parte da conversa. Fala da arbitragem, do ambiente no estádio e da sensação de que Cabo Verde podia ter conseguido outro resultado. A frustração é dele, mas o dado mais interessante está talvez no lugar de onde fala. Um músico habituado a explicar que vem de "uma nação pequena" estava nas bancadas a ver essa mesma seleção levar a campeã mundial até ao prolongamento. Pouco antes, já tinha usado outra medida: "Somos uma nação pequena, um povo pequeno, com um coração enorme."

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Wilds Gomes e June Freedon | ©BANTUMEN/Nuno Silva

A passagem de um país pequeno para públicos maiores é também a história que os seus streams contam, embora June desconfie da velocidade com que hoje se exige que essa história aconteça. Nenhum dos seus primeiros lançamentos, recorda, se tornou viral no dia seguinte. "Tudo precisou de tempo para respirar", diz. As músicas foram crescendo depois de publicadas, algumas sem o tipo de estratégia de conteúdo que hoje acompanha praticamente qualquer single.


O TikTok e o Instagram não lhe são indiferentes. Reconhece que ajudam uma música a circular, já ouviu propostas das equipas com quem trabalha e admite que quer experimentar mais. Não há uma condenação moral do formato nem a pose de quem se considera acima da promoção, mas há alguma resistência à ideia de que a lógica da plataforma venha antes da canção. "Não quero chamar-me purista. Simplesmente concentro-me sobretudo na música", resume.


Curiosamente, é quando fala de uma indústria em que qualquer pessoa pode publicar música, e em que a inteligência artificial deverá aumentar ainda mais a quantidade disponível, que June chega aos concertos. Espera que a abundância torne a qualidade mais importante e que o palco ganhe peso num mercado saturado de ficheiros e conteúdos. Os seus espetáculos duram cerca de hora e meia e, segundo ele, há quem chegue enganado pela suavidade de algumas gravações. "Pensam que vão passar um momento tranquilo. Saem de lá a suar, bro", conta.


Chegar aí implicou, contudo, fazer crescer precisamente os números de que procura manter alguma distância e June não foge à contradição. Quer mais oportunidades e palcos maiores, só não quer que sejam eles a escolher a próxima música. "A intenção, a razão pela qual estás a fazer isto, é mais importante do que os números e as métricas", defende. A distinção fica mais clara quando fala do que tem feito desde Casa Mira Mar: há música suficiente guardada para "dois ou três álbuns", uma colaboração com um artista espanhol ainda por editar e nenhum formato decidido para o próximo projeto. Pode ser um álbum, um EP ou uma sequência de singles.


Pelo meio, 2026 mexeu noutras coisas. June fala de mudanças de equipa, de pessoas que decidiu manter por perto e de outras que deixou de querer na sua vida. Tem viajado e passou tempo entre Los Angeles e Nova Iorque, cidades onde diz ter sentido um ambiente particularmente pesado. Quando tenta dar exemplos, as palavras saem sem grande elaboração: Donald Trump, América, Palestina. Não apresenta um manifesto nem desenvolve uma posição política durante a entrevista. Diz apenas que algumas das canções em que trabalha estão a absorver aquilo que vê e que um artista também pode registar o tempo em que vive. "Às vezes tens de ir fundo, na direção do fogo", diz.


Talvez seja por isso que tem pouca vontade de fechar já o próximo capítulo. Depois de três álbuns, centenas de milhões de streams, digressões internacionais e um regresso a Cabo Verde que acabou transformado em disco, June está a tentar deixar espaço para não saber exatamente o que vem a seguir. "Estou concentrado em não ter pressa. Claro que estou focado em produzir, mas quero ter a certeza de que aquilo soa a mim naquele momento", explica.


Insistimos nas datas, nas colaborações, no formato. Não nos adiantou muito e fez questão de repetir o que já tinha dito: cada coisa a seu tempo. "Deixem-me em paz, estou a cozinhar", conclui entre risos. A quem possa estar "com fome", garante que vai ser servido. Resta saber quando.

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