Antes do primeiro concerto a solo no LAV, MDO abre o livro sobre 10 anos de carreira

September 21, 2026

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Menino de Ouro leva o seu tempo a escolher a palavra que resume 10 anos de carreira, como quem pesa cada hipótese antes de deixá-la cair. Chega a resiliência depois de descartar outras e fá-lo com a convicção de quem já testou essa palavra na prática, como figura de estilo e como descrição literal do caminho que percorreu. Peça-se-lhe, no entanto, que se apresente a quem nunca ouviu falar dele e a definição muda de registo: "Sonhador, batalhador e, acima de tudo, alguém que gosta do contacto com o público, com os fãs."


Nasceu em Benguela, Angola e vive em Portugal desde 2000, o que faz da infância em Odivelas o verdadeiro ponto de partida desta história. Foi ali, entre a escola Pedro Alexandrino e a Póvoa de Santo Adrião, que participou num programa de talentos, quase a brincar, mais para se divertir com os colegas do que a acreditar em si próprio. Não cantava, por assim dizer, mas tinha um trato fácil com o microfone e gostava do contacto com as pessoas. Acabou por ser apresentador porque era isso que lhe saía naturalmente: a vontade de estar perto do público e de falar com ele. A música só chegou depois, por acidente de calendário: farto de ouvir sempre as mesmas canções de Natal, decidiu escrever a sua própria versão, um remix sobre uma base de Rihanna. Foi essa a primeira letra que escreveu na vida.


O resto seguiu-se com a lentidão própria de quem constrói algo de raiz. Não sabia dançar, ao contrário de outros nomes da kizomba que via a "arrebentar" nos palcos, como Anselmo Ralph, e por isso encontrou outro caminho, o da proximidade emocional com quem ouvia. O primeiro vídeo teve 300 visualizações. MDO é categórico ao recordar esse número: foi o dia mais feliz da sua vida, mais do que qualquer marco alcançado depois. Havia ali algo de genuíno, a sensação de que aquelas 300 pessoas partilhavam a música não porque cantasse bem, mas porque gostavam de si.


O momento de viragem aconteceu nas festas de Odivelas, para onde foi convidado a cantar por um contacto de nome Faria. Atuou perante duas mil pessoas e sentiu, ali, que não havia outra vida possível para ele. Nessa noite disse aos pais que deixava os estudos para se dedicar à música. A reação inicial foi de resistência, típica de quem vê um filho trocar a certeza de um percurso escolar pela incerteza de uma carreira artística, mas o apoio veio depois, à medida que os resultados começaram a aparecer. Os vídeos das atuações em Odivelas espalharam-se e os convites multiplicaram-se, do Porto ao Algarve, de Inglaterra a França. MDO descreve esse período com a imagem de uma máquina que começa a girar. É esse o arranque de um percurso que soma hoje centenas de atuações em vários países.

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©BANTUMEN/NunoSilva

Foi por essa altura que surgiu o nome que o define até hoje. Menino de Ouro era demasiado longo para as pessoas pesquisarem e por isso ficou apenas o acrónimo MDO. O próprio explica a origem do "menino de ouro" original pelo modo como sempre se comportou: nunca bebeu, nunca fumou, era, nas suas palavras, um "bom moço". Essa imagem de rapaz certinho colou-se ao nome artístico e acompanha-o desde então.


"Nunca tive apoio da indústria em si", conta-nos a propósito do início da carreira. Ninguém abriu corredores para que chegasse mais longe. As portas que atravessou, atravessou-as a insistir, com os números das plataformas a falar por si. Essa persistência tem, para MDO, um efeito que vai além da própria carreira. Conta a história de uma pessoa que lhe escreveu a dizer que estava a tirar a carta de condução, num processo que achava tão difícil que só pensava em desistir e que pensar em MDO e no que ele fazia pela música a ajudava a continuar. É este o registo em que o artista situa o seu papel, o de alguém que, sem se dar conta, incentiva outros a não desistir.


De "Maluco" ao primeiro álbum a solo

 

Os anos seguintes foram de consolidação. Ao tema "Maluco", um dos seus primeiros êxitos, juntaram-se "Até Quando", "Me Perdoa" e "Chama a Polícia", faixas que foram fixando o seu lugar no panorama da música africana contemporânea em Portugal. MDO recorda o período de "Maluco" como uma febre, um mês inteiro em que só se ouvia aquele tema, uma entrada no top nacional que chegou ao número seis. As ruas passaram a parar para lhe pedir fotografias, contas de restaurante apareciam pagas sem que soubesse por quem, filas de cinema abriam-lhe caminho. Foi, admite, a sensação de ter "chegado". Mas há nesta parte da conversa uma nuance que o próprio artista introduz sem que lhe seja pedida: tentou sempre manter os pés na terra, precisamente porque sabia que o dia em que se sentisse instalado seria o dia em que as coisas começariam a correr mal. Há, ainda assim, um momento de fragilidade que admite sem rodeios.


Depois do sucesso de "Maluco", chegou a compor não pelo prazer de compor, mas pela vontade de sentir de novo aquele carinho todo, perseguindo números em vez de sentimento. Foi um desvio breve, mas suficiente para lhe ensinar que o público reconhece quando uma música nasce do coração e quando nasce apenas da vontade de estar no topo.


Em 2021 essa procura de identidade ganhou forma no EP "Love", cinco faixas originais que abordam o amor e as relações a partir de uma sensibilidade contemporânea, sem perder a raiz africana e que contam com a participação de Edgar Domingos, nome que volta a surgir mais adiante nesta história como um dos pilares do percurso de MDO. Seguiu-se, em 2022, um ano de expansão sonora: aos singles "Tou Nem Aí" e "Say Yeah" juntou-se "Não Pára", até culminar no EP "Summer Vibes", trabalho que evidenciou a versatilidade do artista e a vontade de alcançar públicos para lá do espaço lusófono.

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©BANTUMEN/NunoSilva

Foi nesse período de procura por novos públicos que surgiu a ideia de tentar Angola, movida pela sensação de já ter percorrido tudo o que havia para percorrer em Portugal e pela vontade natural de experimentar a terra de onde vem. Alguém lhe garantiu, antes da viagem, que estava tudo tratado, televisão e rádio incluídos, bastava chegar com as malas. Não estava. Ao pisar solo angolano, percebeu que nada daquilo se tinha concretizado e nenhuma televisão ou rádio o recebeu. A ajuda veio de Kastro Songz, que estava a fazer alguns espetáculos e o levou consigo, permitindo-lhe abrir alguns concertos. Foi aí que sentiu, pela primeira vez, aquele calor humano de um público que não o conhecia, mas que recebeu a música de forma genuína. Apesar de tudo não ter corrido como esperava, MDO recusa a palavra "desilusão": "Não foi uma desilusão, porque consegui fazer amigos, consegui ter contacto com o público." Ficou, sobretudo, a lição de que, da próxima vez, teria de chegar com tudo estruturado, a saber, ao certo, em que televisão entraria e em que rádio tocaria.


Em 2024, o percurso ganhou um novo patamar de maturidade artística com o EP "Menino de Ouro", seguido de "Dores d'um Malandro", dois trabalhos que MDO parece ler, à luz desta conversa, como o momento em que finalmente se sentiu preparado para dar o passo que sempre adiou: um álbum a solo. É desta soma de quedas e recomeços que nasce o momento presente, o que MDO chama de finalmente ter maturidade suficiente para dar aquilo que considera merecido ao seu público. A 4 de outubro realiza o primeiro concerto em nome próprio no Lisboa Ao Vivo e este ano vai lançar também o primeiro álbum a solo em 10 anos, previsto para sair dois a três meses depois do espetáculo. Adiantou, em primeira mão, o título: Autêntico. O nome é o resumo de tudo o que pretende mostrar em palco, a versão mais próxima de si mesmo, incluindo o MDO que, há anos, evitava dançar e que, este ano, vai dançar. Entre as referências que assume estão nomes do afrobeat como Rema, sobretudo pela forma como constroem a dança e a apresentação em palco. O espetáculo terá coreografia própria e um corpo de bailarinas, um "modelo" que MDO prefere não detalhar por completo, insistindo que quem quiser perceber do que se trata terá de vê-lo ao vivo.


O alinhamento vai misturar os temas que já marcaram a carreira do artista com faixas novas, uma forma de testar a reação do público a este momento antes da estreia oficial do álbum. Prevê ainda participações de artistas que já gravaram com ele e, garante, algumas surpresas que prefere manter em segredo até estar mais próximo da data, descrevendo-as apenas como nomes fortes do mercado português. Entre os convidados, confirma um laço próximo com Edgar Domingos, presença habitual do seu percurso desde o EP "Love", relação que enquadra numa geração de artistas que sente como interligada, a mesma leva que foi crescendo em conjunto e da qual Edgar Domingos fez o seu próprio espetáculo no ano passado.


Para quem nunca o viu ao vivo, MDO tem um convite: que veja nesta estreia a oportunidade de passar a fazer parte da sua história, tal como ele sente que a música desses fãs faz parte da dele há seis, dez anos, ou mesmo há apenas um ou dois. Para quem já tem bilhete, a promessa é mais categórica, a de um espetáculo que qualifica, sem hesitar, como o espetáculo do século, com uma produção que descreve, entre risos, como digna de um tapete voador saído de Aladdin, preparada há mais de dois anos.


O concerto realiza-se a 4 de outubro, no Lisboa Ao Vivo, com bilhetes disponíveis na Ticketline. Existe também uma categoria criada especialmente para esta data, que inclui acompanhar os bastidores e jantar com o artista e os restantes convidados depois do espetáculo.

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