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Gizela Gonçalves Guimarães fez a sua formação de Coach há dezasseis anos, reconhecida pela Federação Internacional de Coaching (ICF), um curso caro, que exigiu mais de 300 horas de estudo para obter uma certificação profissional reconhecida internacionalmente, isto, antes de o termo "Coach" se tornar moeda corrente em qualquer biografia de Instagram. Hoje, acumula mais de trinta anos de experiência em gestão de recursos humanos, incluindo recrutamento & selecção, formação & desenvolvimento de talento, mentoria e coaching entre o Reino Unido, Portugal, Moçambique e Angola. Em conversa com a BANTUMEN, a Gizela detalhou o percurso técnico que a levou a essa certificação, a forma como distingue as duas práticas, Mentoria e Coaching, e a leitura humanista que constrói sobre os clientes com quem trabalha há décadas, especialmente os mais jovens.
A história profissional da Gizela começa longe do mundo do coaching. Nascida em Moçambique, mudou-se para Portugal com os pais nos anos oitenta e com 18 anos, foi para Londres através de um programa de Au-Pair que a colocou a viver com uma família acolhedora. A experiência não correu bem. "A família onde eu estava não era muito boa comigo e como eu queria estudar, decidi sair", recorda.
Sem rede de contatos e à procura de trabalho, Gizela recorreu às páginas amarelas, na altura, para localizar embaixadas de países lusófonos em Londres. Apresentou-se na Embaixada de Moçambique, com os cursos de secretariado e de inglês concluídos, sem qualquer indicação prévia. "Ninguém me indicou. Olhei para as páginas amarelas, procurei as embaixadas e fui bater às portas por iniciativa própria, pois queria manter a língua portuguesa", explica. Foi, entretanto, contratada como rececionista, com base nos seus certificados. "Na altura o Embaixador queria saber quem me tinha indicado", recorda, entre risos.
“Quando vamos fazer alguma coisa, temos de a fazer bem, e para a fazer bem, precisamos de conhecer as nossas limitações e as nossas capacidades”
Gizela Guimarães
Três anos depois, houve uma visita oficial de uma delegação da presidência de Moçambique e de homens de negócios ao Reino Unido, em conjunto com uma equipa de jornalistas. Na embaixada, um deles, o Sulemane Cabir, reconheceu-a de uma colaboração antiga na Rádio Moçambique, ainda na infância, para o programa da criança e sugeriu-lhe que se candidatasse a uma vaga aberta no Serviço de Língua Portuguesa para África da BBC World Service. "Ele disse-me que estavam à procura de uma assistente, que havia um concurso naquela mesma semana, mas que eu tinha de concorrer formalmente, que as contratações eram por mérito próprio", conta. Gizela concorreu, respondeu às perguntas de forma extensa e detalhada, e foi escolhida, com 23 anos, entre candidatos com mais experiência. "Disseram-me que me escolheram porque respondi às perguntas de forma completa, e que tinha demonstrado mais conhecimentos de cultura geral do que os outros candidatos. Aquele feedback ensinou-me uma lição: "quando vamos fazer alguma coisa, temos de a fazer bem, e para a fazer bem, precisamos de conhecer as nossas limitações e as nossas capacidades, empenhando-nos na preparação, pois a preparação é chave para o sucesso” afirma.
Ficou seis anos na BBC. Foi aí, ao fazer parte da equipa de coordenação do programa de estágios do serviço, que a sua carreira mudou de direção, da comunicação para a gestão de pessoas. "As pessoas são imprevisíveis, e é precisamente por serem imprevisíveis que eu não só me tornei profissional de gestão e desenvolvimento de pessoas, como depois tive curiosidade em me tornar analista comportamental, fazendo uma certificação em Clarity4D. Às vezes fazemos uma análise de alguém e depois essa pessoa age de forma completamente diferente do que esperávamos. Isso criava-me muita confusão, e foi isso que me levou a querer perceber melhor o comportamento humano", explica.
Quando o departamento de língua portuguesa para África da BBC fechou, por deixar de cobrir países já em paz, Gizela usou a indemnização recebida para se mudar com a família para Moçambique. A estadia durou apenas ano e meio: as grandes cheias do ano 2000 contaminaram a água, os filhos adoeceram e as escolas fecharam durante muitos meses. "A minha filha entrou em depressão, tinha oito anos e a referência dela era Londres, um ambiente totalmente diferente. Tomei a decisão de regressarmos para a Inglaterra, pelos meus filhos", recorda.
De volta a Londres, uma nova oportunidade surgiu através de um projeto de recrutamento especializado para Angola, criado para identificar jovens angolanos na diáspora, licenciados, interessados em regressar ao país com um emprego garantido em empresas multinacionais. Fez parte do grupo fundador de uma empresa dedicada a este trabalho, a Elite International Careers, que ocupou os seis anos seguintes da sua carreira. Foi aí que desenvolveu um critério de seleção que viria a marcar todo o seu trabalho posterior como mentora. "Quando os jovens não têm experiência de trabalho, o que procuro é perceber a motivação e o comportamento", explica.
O contacto direto e prolongado com o mercado angolano levou-a a repensar o próprio conceito de coaching. "Percebi que o coaching sozinho não ia trazer resultados no meu trabalho, porque muitos jovens não tinham referências, era um mercado ainda pouco experiente, precisavam de muito mais orientação. O coaching é uma técnica que se baseia em perguntas estratégicas como principal ferramenta para estimular a reflexão e o auto-conhecimento. O Coach só faz perguntas, não dá opinião e não pode trazer exemplos próprios, é a própria pessoa que tem de se descobrir", explica Gizela, distinguindo com precisão a técnica em que se certificou.
Foi essa constatação, feita em terreno, que a levou a desenhar um modelo próprio. "Quando comecei a trabalhar com pessoas nas empresas e nas universidades, a maior parte, jovens, criei um programa específico onde uso as técnicas de coaching mas também de mentoria, porque isso dá-me mais liberdade para não fazer só perguntas, mas também para fazer sugestões, pedindo sempre permissão, mostrar duas ou três opções, contar histórias de pessoas que viveram situações parecidas e como as resolveram. Mas isto tem de estar claro para quem está do outro lado", sublinha. A sua filosofia de trabalho é procurar que cada pessoa consiga perceber com clareza o ponto em que está, aquilo que pretende alcançar e de que apoio precisa para avançar. Para tal usa a como base a ferramenta de desenvolvimento pessoal Clarity4D, que passa pelo cliente responder a um questionário e a plataforma gera um relatório, com suporte científico, que indica, entre outros, os pontos fortes, os pontos a desenvolver e o estilo de comunicação preferido.
Essa escolha profissional, aliás, não foi acidental. Apesar de ser licenciada em sociologia com cadeiras de psicologia, nunca quis seguir psicologia clínica. "Eu queria ser Coach. Queria olhar do presente para o futuro", diz, explicando que sempre teve clareza sobre o tipo de ajuda que queria dar às pessoas, orientada para a ação futura.
E se, hoje, é difícil identificar a linha que separa o coaching da mentoria, para Gizela, a diferença não está apenas na semântica e essa confusão, considera, é o centro do problema que vê alastrar-se na esfera digital e não só. "Parece-me haver escolas a vender formações de coaching que não são credenciadas", sublinhando também a necessidade de formação contínua porque o seu trabalho depende de ter sempre conhecimento actualizado para transmitir a quem acompanha.
É a partir da sua observação prolongada, em recrutamento, formação e mentoria, em dois continentes diferentes, que Gizela aponta uma mudança de expetativas entre gerações, que relaciona com um mundo que hoje oferece menos tempo de espera e menos margem para o erro. "Há trinta anos as pessoas sabiam que havia um caminho a fazer, havia esforço, havia dedicação para trabalhar, crescer e chegar a uma posição. Hoje, encontro alguns jovens que querem ser CEO amanhã", diz entre risos.
Essa mudança está, para Gizela, também ligada à ausência dos pais, mesmo quando fisicamente presentes em casa. "Antigamente os pais não estavam em casa porque trabalhavam muito mas havia mais acompanhamento aos filhos, como, fazer os TPCs", explica. Hoje, o cenário mudou radicalmente. Na era do scroll infinito e do “working from home”, da comunicação ultrarrápida e da sobrecarga mental e profissional, é cada vez mais difícil preservar espaços de presença real dentro das próprias famílias. Não necessariamente por falta de afeto, mas porque estar fisicamente presente deixou de significar, por si só, estar verdadeiramente disponível.
Recorda assim o caso de um jovem que lhe confidenciou precisamente essa distância: "A minha mãe está em casa, mas está sempre ao telemóvel, ela não me ouve, eu não conto nada à minha mãe porque ela não me dá tempo para contar", cita, explicando que este tipo de quebra na comunicação familiar, a redução de escuta ativa, pode provocar uma fragmentação dos vínculos com impacto direto no bem-estar e no desenvolvimento dos jovens. “Eu consigo perceber na primeira conversa com um jovem se ele tem acompanhamento em casa ou não, porque essas bases fazem a diferença no desenvolvimento do jovem”, conta.
Para além desta distância dentro de casa, Gizela Guimarães aponta ainda outro problema que vê crescer na geração mais nova, que é a falta de perseverança perante a dificuldade, a tendência para desistir assim que o caminho deixa de ser fácil. Esta é também uma reflexão que aplica à sua própria vida familiar, como mãe e como tia, madrinha. "Digo sempre aos meus filhos, sobrinhos e afilhados que podem fazer aquilo que decidirem fazer, mas têm de aplicar-se, adquirir skills porque mesmo alguém com talento tem de ser disciplinado, estar preparado, senão não consegue concluir o processo", diz, sublinhando que a vontade sozinha, sem disciplina, raramente chega a algum lado.
A especialista recorda ainda a diferença entre a comunidade em que cresceu e a fragmentação social que observa hoje. “Antigamente, tinhamos uma rede de apoio e de vigilância coletiva que já não se reconhece na sociedade atual”, confidencia. Essa observação, feita ao longo de décadas de trabalho direto com jovens em contextos tão diferentes como Portugal, Inglaterra, Moçambique e Angola, é a base que orienta tudo o resto. Porque, para Gizela Guimarães o que realmente importa é “ser útil, passar conhecimento e ajudar sem olhar a quem”. Este é o seu propósito de vida e legado que quer deixar - impactar vidas sendo útil e generosa.
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