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Existem profissionais qualificados que perdem oportunidades não por falta de experiência, talento ou capacidade técnica, mas porque o currículo não consegue traduzir o verdadeiro valor do seu percurso. Num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, digital e mediado por plataformas, esse documento deixou de ser apenas uma formalidade e tornou-se numa das primeiras fronteiras entre quem procura uma oportunidade e quem decide se vale a pena avançar para uma entrevista.
Foi precisamente nesse intervalo, entre o que uma pessoa sabe fazer e a forma como consegue comunicar esse valor, que Helena Pedro encontrou o ponto de partida para criar a Resume Feedback Platform, uma ferramenta baseada em inteligência artificial, pensada para ajudar candidatos a melhorarem os seus currículos, acompanharem diferentes versões e perceberem se cada alteração torna a candidatura mais forte.
Em entrevista à BANTUMEN, a engenheira angolana explica que a ideia nasceu de conversas com pessoas “extremamente talentosas e qualificadas” que lhe pediam apoio no planeamento das suas carreiras. Ao olhar para os currículos, percebeu que muitos documentos ficavam aquém das competências reais de quem os apresentava. “Muitas vezes, a empresa está mesmo à procura daquele perfil. O candidato tem experiência, capacidade técnica, potencial e vontade de crescer. Mas o recrutador não tem como adivinhar isso; ele depende do currículo como ponto de entrada”, afirma.
“O futuro pertence a quem consegue combinar inteligência humana, contexto local e tecnologia para criar soluções realmente úteis”
Helena Pedro

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Para Helena, escrever um bom currículo é também uma competência. Não basta reunir cargos, datas e responsabilidades. É preciso organizar a trajetória, dar clareza ao percurso, destacar resultados e tornar visível aquilo que diferencia um candidato dos restantes. A Resume Feedback Platform surge, assim, para reduzir essa barreira. A ferramenta não substitui a experiência nem o esforço dos profissionais, mas ajuda-os a comunicar melhor aquilo que já sabem fazer. “Se alguém já tem talento, conhecimento e potencial, a plataforma pode ajudar a tornar isso mais visível através de um processo de melhoria contínua do currículo”, defende.
A experiência pessoal de Helena com processos de candidatura, sobretudo nos Estados Unidos, também ajudou a moldar a solução. Ao candidatar-se a oportunidades internacionais, percebeu que o currículo funcionava quase como um “produto vivo”, em constante ajuste consoante a vaga, o mercado e o feedback recebido. O problema é que esse processo raramente acontece de forma organizada. Criam-se várias versões, recebem-se opiniões diferentes, fazem-se pequenas alterações, mas nem sempre existe uma forma clara de perceber se o documento está realmente a evoluir.
Foi a partir dessa dificuldade que começou a olhar para o desafio de forma técnica. O problema, explica, não era apenas gerar feedback com IA, mas criar um sistema capaz de preservar contexto, comparar versões e ajudar o utilizador a melhorar o currículo de forma consciente ao longo do tempo. Na prática, o “mentor digital” da plataforma funciona como um revisor que acompanha a evolução entre versões. Quando o utilizador carrega um currículo, a ferramenta cria uma nova versão do ficheiro, agenda a análise da inteligência artificial em segundo plano e devolve um feedback estruturado, com um resumo geral da qualidade do documento, os pontos fortes da candidatura e as melhorias prioritárias.
Quando é enviada uma nova versão, a plataforma compara o documento atual com o anterior. A partir daí, o feedback deixa de ser uma análise isolada e passa a funcionar como acompanhamento de progresso. O sistema indica o que melhorou, o que ainda precisa de trabalho, que novos problemas surgiram e qual é a avaliação geral da evolução. É esta lógica que distingue a Resume Feedback Platform de outras ferramentas de análise de currículos: a plataforma é “version-aware”, ou seja, consciente de versões.
Além da análise feita por IA, a plataforma permite que o utilizador partilhe o currículo com pessoas específicas para receber comentários. Ainda assim, o documento permanece privado por defeito. Outras pessoas só têm acesso se receberem um link de partilha criado pelo dono do currículo. Para Helena, esta combinação entre análise, comparação, partilha controlada e acompanhamento transforma o currículo num processo contínuo de desenvolvimento profissional.
A construção da plataforma começou antes do código. Helena procurou primeiro definir a dor principal que queria resolver e pensou o produto como um fluxo de melhoria contínua, não apenas como uma ferramenta para analisar currículos uma única vez. Depois avançou para um protótipo centrado no carregamento do currículo, criação de versões, visualização do ficheiro e geração de feedback com IA, etapa que lhe permitiu validar se a experiência fazia sentido para o utilizador.
“Os holofotes estão sempre voltados para os mesmos países e ecossistemas, mas há jovens angolanos extremamente talentosos a construir e evoluir”
Helena Pedro
No desenho técnico, a engenheira separou a aplicação em diferentes componentes. Uma API trata das ações diretas do utilizador, como login, upload, partilha e comentários, enquanto um worker em segundo plano fica responsável pelas tarefas mais demoradas, como extração de texto, chamada ao modelo de IA, repetição de tentativas em caso de falha e armazenamento do feedback. A plataforma usa SQL para informações estruturadas, como utilizadores, versões, permissões e comentários, MongoDB para os documentos de feedback gerados pela IA e uma camada própria de armazenamento para os ficheiros de currículo. Uma das decisões mais importantes foi tornar o processamento de IA assíncrono, para que o utilizador não tenha de ficar à espera no ecrã enquanto a análise é gerada.
Antes de desenvolver a Resume Feedback Platform, Helena Pedro começou a sua relação com a tecnologia ainda em Angola, durante a licenciatura em Engenharia de Petróleos. No primeiro ano do curso, ao entrar em contato com disciplinas como Informática, Programação e Algoritmos, percebeu que havia uma dimensão da engenharia que a atraía de forma particular: a possibilidade de resolver problemas através da tecnologia. Com o apoio de um mentor, que a incentivou a estudar para além da universidade, fazer cursos e aprofundar conhecimentos, foi consolidando competências na área da programação.
Essa dedicação abriu-lhe caminho para trabalhar como engenheira de software numa instituição financeira em Angola, onde ganhou experiência em sistemas reais, dados e desenvolvimento de software. Hoje, está nos Estados Unidos, onde aprofunda o seu percurso em Computer Science e desenvolve soluções tecnológicas com impacto internacional. A base construída em Angola, segundo a própria, deu-lhe resiliência e confiança para participar em espaços globais de tecnologia.
O projeto Resume Feedback: AI Resume Review with Version Tracking foi submetido ao OpenAI Developers x Handshake Codex Creator Challenge e destacado no AI Showcase do Handshake. Helena vê esse reconhecimento como uma validação do caminho que tem vindo a construir. “O fato de o projeto ter sido destacado no contexto do Handshake AI Showcase ligado ao OpenAI Developers Codex Creator Challenge deu-me mais confiança para continuar a investir na plataforma e aprofundar a visão por trás dela”, afirma.
O destaque também reforçou uma ideia que atravessa o seu percurso: a inovação em inteligência artificial não acontece apenas em grandes empresas ou nos centros tecnológicos mais visíveis. Para a engenheira, há profissionais africanos e angolanos a construir soluções relevantes a partir de problemas reais, mesmo quando estão fora dos circuitos tradicionalmente associados à inovação global. Ao mesmo tempo, sublinha que a inteligência artificial, sozinha, não resolve problemas automaticamente. O desafio está em transformar tecnologia em processos úteis, confiáveis e centrados nas necessidades das pessoas.
“Existe naturalmente uma pressão constante para acompanhar um ritmo muito acelerado de evolução tecnológica e provar capacidade técnica”
Helena Pedro
Ser uma mulher angolana a desenvolver tecnologia em inteligência artificial nos Estados Unidos tem sido, para Helena, uma experiência desafiante e transformadora. Estar num ambiente altamente competitivo dá-lhe acesso a novas ferramentas, discussões técnicas e práticas globais, mas também a confronta com a necessidade constante de provar capacidade técnica num espaço ainda pouco diverso. “Como mulher angolana num ambiente altamente competitivo, existe naturalmente uma pressão constante para acompanhar um ritmo muito acelerado de evolução tecnológica e provar capacidade técnica num espaço ainda pouco diverso”, reconhece.
Ao mesmo tempo, vê na sua trajetória uma vantagem. Crescer e estudar em Angola ensinou-lhe resiliência e criatividade, duas características que hoje procura combinar com o acesso a tecnologias e metodologias globais. Uma das suas motivações é mostrar que o talento tecnológico angolano pode participar ativamente nas conversas internacionais sobre inteligência artificial e engenharia de software. “Ainda somos pouco representados nesses espaços, e espero que a minha trajetória também possa incentivar mais jovens, especialmente mulheres, a acreditarem que conseguem chegar lá”, afirma.
Essa preocupação com representação liga-se também à forma como olha para o ecossistema tecnológico angolano. Helena gostava que mais pessoas reconhecessem a capacidade de aprendizagem, a vontade de construir e o interesse crescente de jovens angolanos por programação, inteligência artificial, startups e produtos digitais. “Muitas vezes, quando se fala sobre tecnologia e inovação, os holofotes estão sempre voltados para os mesmos países e ecossistemas, mas há jovens angolanos extremamente talentosos a aprender, construir e evoluir”, sublinha.
Na sua visão, Angola não deve ser vista apenas como um mercado consumidor de tecnologia. Existe espaço para criar soluções próprias, adaptadas às realidades locais e também aos contextos africanos e lusófonos mais amplos. Para Helena, muitas plataformas globais ainda não compreendem totalmente as nuances culturais, linguísticas e sociais desses mercados, e é precisamente aí que podem surgir oportunidades para inovação com impacto real.
Sobre os próximos anos, a engenheira não olha para a inteligência artificial como uma ameaça de substituição de empregos. Vê, antes, uma reconfiguração das funções existentes. Muitas profissões continuarão a existir, mas a forma como se trabalha, produz e toma decisões deverá mudar. A IA tende a assumir um papel de “co-piloto” profissional, automatizando tarefas repetitivas, acelerando análises e aumentando a produtividade, enquanto competências humanas como pensamento crítico, criatividade, comunicação, adaptação e resolução de problemas complexos ganham ainda mais importância.
Para países emergentes e comunidades africanas, Helena vê também uma oportunidade, desde que sejam desenvolvidas soluções mais contextualizadas às realidades locais, às línguas e aos desafios concretos das pessoas. “No fundo, acredito que o futuro não pertence apenas a quem usa IA, mas a quem consegue combinar inteligência humana, contexto local e tecnologia para criar soluções realmente úteis para as pessoas”, afirma.
O objetivo é que a Resume Feedback Platform se torne mais do que uma ferramenta de feedback de currículos. Helena quer que a plataforma evolua para um ecossistema de apoio ao desenvolvimento profissional, capaz de ajudar pessoas a prepararem-se melhor para oportunidades, acompanharem a própria evolução e tomarem decisões de carreira de forma mais consciente. A longo prazo, espera que a tecnologia ajude mais profissionais, sobretudo jovens e pessoas em mercados emergentes, a apresentarem melhor o seu potencial e a competirem com mais confiança num mercado de trabalho global.
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