Soya Marega e a arte de habitar vários mundos sem pertencer completamente a nenhum

June 18, 2026

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Saiu de Carnaxide com sete ou oito anos, cresceu na Mauritânia, mudou-se para Marrocos e voltou a Portugal aos dezasseis. Trinta e um anos depois do nascimento em Lisboa, Soya Marega é cabeleireira editorial, produtora e booker na Dengo Club e uma das vozes mais consistentes de uma geração que aprendeu a transformar o deslocamento em linguagem própria. Sentámo-nos para uma conversa com Soya sobre identidade, pertença, e o que significa ocupar espaços onde raramente se vê pessoas como ela.


Quando Marega fala da sua estética, fala de memória. As cantoras egípcias e libanesas que via em criança nos canais árabes de casa, as artistas da Costa do Marfim e do Senegal com quem cresceu na Mauritânia, os filmes nigerianos que passavam na televisão, as joias que usava desde pequena, tudo isso foi sedimentando uma gramática visual construída muito antes de existir um vocabulário para nomeá-la. "A maioria dos meus trabalhos, as pessoas quando veem, sabem que fui eu que fiz", diz. É como se a estética fosse ela própria um autobiografia em que cada escolha é um arquivo.


Sob o nome artístico Local Hair Fairy, agenciada pela Solve Agency, tem um portfólio que inclui trabalhos editoriais para a Prada e para a Jean Paul Gaultier, além de colaborações com artistas como Dino d'Santiago. Entre os projetos que mais a marcaram, destaca a capa do último álbum de Jong, onde a abertura criativa foi total. "Conversámos muito, houve ali muita troca de ideias. Pude realmente inventar on the spot." Essa liberdade - sem moodboard fechado, sem diretrizes rígidas - é o que procura em cada trabalho e, admite, o que a fez perceber que era ali que queria estar.

“Acho que sempre me deu aquela urgência de me expressar”

Soya Marega

Soya Marega entrevista

©BANTUMEN/Nuno Silva

A trajetória geográfica de Soya Marega seria, por si só, material suficiente para um artigo. Saiu de Carnaxide com sete ou oito anos, viveu na Mauritânia durante cerca de seis anos, mudou-se depois para Marrocos - país de origem da mãe -, e regressou a Portugal em 2010. Voltou adolescente, a lidar com outros adolescentes, e sentiu de imediato o peso de pertencer a várias categorias ao mesmo tempo: filha de imigrantes, muçulmana, uma das poucas raparigas negras na turma. "Já me sentia excluída", diz, sem dramatismo. "Acho que sempre me deu aquela urgência de me expressar."


Foi na faculdade, já adulta, ao estudar Relações Internacionais, que encontrou pela primeira vez um círculo de pessoas com quem se identificava: estudantes de origem chinesa e africana, muitos deles da diáspora dos PALOP. "Foi aí que eu criei os meus grupos de amigos." Mas mesmo dentro dessa comunidade, a sua posição era oblíqua: não era PALOP, e isso significava, por vezes, ser afastada de certas conversas, de certos espaços de cumplicidade. "Há pessoas que me acolhem bem, mas por vezes sinto que há exclusão por eu não ser PALOP", admite, com a serenidade de quem aprendeu a cartografar as suas próprias fronteiras.


Em 2021, Saint Caboclo - nome artístico do brasileiro Eudes Junior, fundador do coletivo - convidou-a para participar numa festa de aniversário. Era o período pós-confinamento, todos "um bocado sedentos de sair, ouvir música, estar com pessoas". Soya aceitou. O que começou como uma presença pontual transformou-se numa integração progressiva numa das estruturas mais singulares da cena cultural lisboeta: a Dengo Club.


Fundada em outubro de 2021 e autodefinida como "black queer-owned", a Dengo Club é uma plataforma de cultura afro-latina e queer que opera em Lisboa como espaço de encontro e como ato político. O seu objetivo declarado é criar noites onde pessoas negras, queer e imigrantes se sintam ao centro não como convidadas toleradas, mas como o próprio público para quem a festa é pensada. Em poucos anos, cresceu de festa mensal temática a plataforma multidisciplinar com agência de DJs própria, tendo já marcado presença no Sónar Lisboa e em parceria com a BoCA – Bienal de Artes Contemporâneas.

“Acho que há um mercado a ser preenchido no que toca à sonoridade aqui em Lisboa e que as pessoas podem permitir-se mais”

Soya Marega

Soya Marega entrevista

©BANTUMEN/Nuno Silva

Soya entrou pela porta das relações públicas, "era só uma das caras", diz, e foi descobrindo, já dentro do projeto, outras capacidades. Hoje é produtora, booker e parte da curadoria de programação. "Tentamos ao máximo que todas as sonoridades sejam abrangidas", explica, descrevendo a passagem de ano da Dengo Club que reuniu cerca de vinte estilos musicais diferentes. "Acho que há um mercado a ser preenchido no que toca à sonoridade aqui em Lisboa e que as pessoas podem permitir-se mais."


A influência que traz para a programação é específica: cresceu num mundo francófono, com a musicalidade do Marrocos, da Mauritânia, do Senegal, da Costa do Marfim e do Congo. Traduz isso em convites a DJs marroquinos e argelinos que, numa festa lisboeta de cultura negra, representam também uma definição mais larga do que essa cultura pode ser. "São sons de casa para mim, que também mereço", diz, com um humor que não esconde a seriedade da reivindicação.

O que distingue o trabalho de Soya Marega - e, de certa forma, o que o torna difícil de classificar - é a recusa em compartimentar. O cabelo é moda. A moda é música. A música é vida noturna. A vida noturna é política. Cada domínio alimenta os outros, e o fio condutor é sempre a expressão de uma identidade que se construiu por camadas, em vários países, em várias línguas.


A questão da identidade visual para mulheres africanas em Lisboa é algo que aborda com cautela. Não reivindica para si o papel de criadora de uma nova estética nem de porta-voz de uma comunidade. O que faz, é mais simples e mais íntimo: usa o cabelo, as jóias, as fragrâncias, os panos, a maquilhagem como forma de se manter "leal às minhas raízes e trazer sempre um pouco de casa para Portugal".


A mãe surge várias vezes na conversa como referência central. Chegou a Portugal sem falar uma palavra de português - apenas francês, dariia e inglês -, aprendeu a língua sozinha, e tornou-se gestora numa das maiores firmas do país. Para Soya, essa trajetória foi a prova mais concreta de que os limites que o mundo impõe são, muitas vezes, mais estreitos do que aqueles que uma pessoa é capaz de contornar. "Realmente não há limites", afirma e a frase não soa a cliché porque vem de uma observação direta, não de uma convicção abstrata.


Quanto ao futuro, o que quer é continuidade e coerência: que as gerações seguintes vejam no seu percurso a evidência de que é possível ocupar espaços onde pessoas como ela raramente aparecem. Espaços dominados por homens, ou onde a sua presença é estatisticamente improvável. "As opções e oportunidades são ilimitadas, se realmente formos ali atrás delas", diz, ciente de que o "ir atrás" exige, muitas vezes, muito mais do que o esforço que se vê.

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