Helena Theodora, primeira mulher negra a doutorar-se em Filosofia no Brasil lança livro sobre memória e resistência

September 8, 2026
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Helena Theodora | DR

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No dia 31 de agosto, a Biblioteca Comunitária Maju Coutinho, instalada na sede do CEAP (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Periferia), na região da Pequena África, no Rio de Janeiro, recebeu o seu primeiro lançamento literário desde que abriu portas. Em cima da mesa esteve Saias Rodadas: Pensares de Ontem, Hoje e Sempre, novo livro de Helena Theodoro, professora, escritora e uma das intelectuais mais incontornáveis da filosofia afro-brasileira.


O título integra, segundo a apresentação da obra, a Coleção Encruzilhadas, e usa a imagem da saia que roda como metáfora para um pensamento que também dança: o conhecimento nasce, defende a autora, dos corpos, dos afetos, das experiências e das lutas que atravessam gerações. Como as saias que rodam, o seu pensamento transforma o ontem em caminho para o hoje e faz do presente uma semente de permanência e resistência, honrando a trajetória das mulheres negras que sustentam a vida, guardam a memória e seguem abrindo caminhos.


"As saias rodadas de Helena Theodoro não são apenas vestimentas, imagens ou lembranças. Elas são a própria figura de um pensamento que dança. Um pensamento atravessado pela força das mulheres negras que sustentam a vida, guardam a memória e fazem girar o mundo. Em suas voltas, ontem, hoje e sempre deixam de ser momentos separados para se tornarem movimentos de uma mesma gira", escreve Rafael Haddock-Lobo, professor da UFRJ e da UERJ, no texto de apresentação da obra.

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O lançamento reuniu à mesa, além da autora, Ele Semog, presidente do CEAP, Ivanir dos Santos, professor e babalaô ligado à UFRJ, e Mariana Gino, diretora executiva do CEAP. A sessão prestou também homenagem à jornalista Maju Coutinho, que dá nome à biblioteca, e serviu para anunciar o FLIPA, Festival Literário da Pequena África, previsto para novembro, que deverá reforçar a ocupação cultural do território em torno de autores e do pensamento negro.


Nascida em 1943, na Tijuca, no Rio de Janeiro, Helena Theodoro é, no candomblé, filha de Iansã, o orixá dos ventos e das tempestades, uma ligação que atravessa boa parte da sua obra. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Pedagogia, seguiu-se um mestrado em Educação e, em 1985, um doutoramento em Filosofia pela Universidade Gama Filho, com uma tese sobre as implicações da moral nagô na moral judaico-cristã. É considerada a primeira mulher negra a doutorar-se em Filosofia no Brasil, e a primeira intelectual brasileira a desenvolver uma tese centrada na filosofia africana.


Antes da vida académica, Helena Theodoro passou pela Rádio MEC, onde foi produtora, redatora e apresentadora, criando programas como "Com o Samba na Palma da Mão" e "Origens". Já como docente, integrou o programa de pós-graduação em História Comparada da UFRJ e coordenou experiências religiosas tradicionais africanas e afro-brasileiras na mesma universidade, além de ter orientado dezenas de dissertações e teses ao longo da carreira.


A par da vida académica, é autora de livros como Mito e Espiritualidade: Mulheres Negras (1996), Iansã: Rainha dos Ventos e da Tempestade e Os Ibejis e o Carnaval, este último dedicado ao público infantil, além de Martinho da Vila: Reflexos no Espelho (2018), biografia do sambista que resultou de trinta anos de pesquisa. A ligação de Helena Theodoro ao samba é também familiar: a autora está ligada à Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, fundada em 1953, e assina o samba-enredo "Resistência", apresentado pela agremiação no carnaval de 2022. É também casada com o sambista e historiador Nei Lopes.


Em 2022, o Sesc Pompeia prestou-lhe homenagem com a mostra "Massembas de Ialdês". Com Saias Rodadas: Pensares de Ontem, Hoje e Sempre, Helena Theodoro soma agora um novo capítulo a uma obra que atravessa a educação, a religião, o samba e a filosofia, com o pensamento das mulheres negras sempre no centro.

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