Janeth Tavares fotografou 99 rappers e agora, no MIA, quer que ouças a música com outros olhos

November 6, 2026
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Janeth Tavares | DR

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Janeth Tavares inaugura a 13 de novembro, às 18h30, em Lisboa, Ba Da Bu Mind Béntu, a exposição com que assinala quinze anos de fotografia de concertos. A mostra integra o Mês da Identidade Africana (MIA), programa criado pela BANTUMEN em 2022, tem curadoria de Ivanova Araújo e a colaboração do produtor musical Lince, e reúne retratos de músicos com quem a fotojornalista e mediadora cultural cabo-verdiana construiu relações que se prolongam para lá do palco.


Há alguns anos, a fotojornalista fez uma contagem e percebeu que já tinha fotografado 99 rappers. Quando começou a pensar nesta exposição, uma lista rápida dos artistas que gostaria de incluir passou dos cinquenta nomes, e a primeira versão previa cerca de setenta fotografias, número entretanto ajustado às condições do espaço. O que decidiu o recorte foi, muitas vezes, a história que existia por trás de cada retrato. “Escolhi artistas cujas histórias se cruzaram com a minha ou com quem vivi momentos que considero importantes”, conta a fotógrafa, que vê no conjunto final “uma seleção de encontros, afetos, referências e momentos” que a trouxeram até ao trabalho que faz hoje.


A relação de Janeth com a fotografia começou em casa, com uma mãe que guardava imagens dos filhos desde bebés e que os vestia com esmero para os levar ao fotógrafo, ou o chamava a casa. Tem retratos de estúdio desde muito pequena e lembra-se de que, numa época sem câmaras nos telemóveis, ir ao fotógrafo era uma ocasião especial, com atenção à roupa, à apresentação e à imagem que se queria preservar, e é por isso que associa essa primeira relação ao amor, ao cuidado e à memória familiar. Das máquinas de rolo que havia em casa, uma ainda hoje a acompanha e foi um dos seus brinquedos favoritos, e quando deixou de funcionar Janeth continuou a encostar o olho ao visor e a fingir que fotografava.


Aos seis ou sete anos, ofereceu à avó, no dia de anos dela, uma pequena caixa de Ferrero Rocher com uma fotografia sua lá dentro e um desenho no verso. A avó foi uma das pessoas que mais amou, e Janeth percebe hoje que, naquela idade, a fotografia já era uma maneira de materializar o afeto e de o tornar duradouro. Na infância e na adolescência tornou-se a pequena repórter da família, a fotografar os pais, os irmãos, as primas e a sobrinha, os intervalos com os colegas da escola, sessões “de moda” caseiras e muitos autorretratos, um arquivo a que reconhece agora outro valor. Pelo caminho, a imagem começou a cruzar-se com a escrita, porque fotografava para dar imagem aos textos que escrevia e escrevia a partir das fotografias que fazia, duas linguagens que, nas suas palavras, “se alimentam mutuamente”.

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Lisboa fazia parte do seu quotidiano quando, por volta de 2007, fez com um Nokia N95 uma fotografia no Elevador de Santa Justa em que apareciam parte do seu rosto e a paisagem da cidade. A imagem foi selecionada entre as 100 melhores de Portugal no Metro Photo Challenge, promovido pelo jornal Metro, que Janeth costumava apanhar nas deslocações pela cidade para acompanhar as notícias. Lembra-se da alegria de partilhar a novidade com os amigos, numa época em que ainda se usava o Hi5 e o Facebook começava a ganhar espaço, e situa nesse reconhecimento um dos primeiros momentos em que olhou para a fotografia com uma perspetiva de futuro, ao perceber que uma imagem captada com um telemóvel podia comunicar alguma coisa e encontrar lugar fora do seu círculo pessoal.


A partir daí passou a andar sempre com uma câmara, ao ponto de ter perdido a conta às máquinas a pilhas que teve. Saía por Lisboa para observar a cidade e conhecer pessoas e, por vezes, abordava desconhecidos com uma pergunta simples, “Posso tirar-te uma fotografia?”, e a câmara aproximava-a de gente que, de outra maneira, talvez nunca tivesse conhecido. Janeth vê nesta fase o segundo momento fundador da sua relação com a imagem, o da fotografia como instrumento de descoberta e de ligação ao mundo, construído por iniciativa própria, a somar-se ao que recebeu da família, a fotografia como expressão de amor e preservação da memória. Estudou depois fotografia e jornalismo e explorou, como autodidata, a fotografia de rua.


Hoje, Janeth prefere apresentar-se como fotojornalista. Durante muito tempo disse apenas que era fotógrafa, mas sente que a profissão se banalizou num contexto em que a facilidade de acesso aos equipamentos cria a perceção de que bastam uma câmara e alguns disparos. “Existe estudo, conhecimento técnico, observação, sensibilidade e uma construção de linguagem”, defende, e confessa que a entristece ver algumas profissões criativas desvalorizadas. O fotojornalismo junta as duas áreas que mais lhe interessam, e a sua abordagem procura ficar próxima daquilo que os olhos observam, com ferramentas de edição, mas preservando, tanto quanto possível, a verdade do que fotografou.

“Existe estudo, conhecimento técnico, observação, sensibilidade e uma construção de linguagem”

Janeth Tavares

Nos casamentos que fotografa, os retratos do casal e as fotografias de grupo fazem parte do serviço, mas o que a entusiasma são as demonstrações de afeto, os olhares e os pequenos gestos que acontecem quando as pessoas deixam de ter consciência da câmara. Gosta de estar no meio delas, quase invisível, como uma ghost photographer, e leva a mesma atenção para os concertos, à procura de detalhes e expressões que à primeira vista passariam despercebidos e de imagens em que quem as vê quase não consiga distinguir o que foi dirigido do que aconteceu naturalmente. Tem uma relação particular com o céu e com as nuvens, mas são as pessoas que ocupam o centro do seu trabalho. “Existem cerca de oito mil milhões de pessoas no mundo e nenhuma é exatamente igual à outra”, lembra, e em cada uma vê uma possibilidade diferente de contar uma história e de revelar uma beleza que inclui a personalidade, a forma de estar e a maneira como alguém se expressa. Quando junta tudo isto, a palavra que encontra para resumir o que procura através da câmara é verdade.


Mesmo nas sessões de moda ou com direção artística, em que sugere poses e orienta movimentos, quer que a pessoa se sinta confortável e se reconheça naquilo que estão a construir juntas. Grande parte do trabalho acontece, diz, antes de carregar no obturador, na escuta, na confiança e na capacidade de transmitir a quem é fotografado que aquele momento lhe pertence, e considera que fazer alguém sentir-se verdadeiramente visto pesa tanto como o domínio técnico do equipamento.


Depois de fotografar, Janeth tem dificuldade em apagar imagens, mesmo as que falharam, porque pensa que “aquele segundo já não vai voltar a acontecer”, e admite acumular gigabytes de fotografias que provavelmente nunca voltará a usar. Na hora de selecionar, procura olhar com espírito crítico e perceber se cada imagem comunica o que pretendia. Descreve a curadoria como um exercício de escultura da própria linguagem visual, feito de escolhas, exclusões e experiências, e é nesse trabalho contínuo que tem procurado uma identidade reconhecível. Cria os próprios filtros, coloca objetos diante da lente e chega a usar os dedos para interferir na imagem, à procura de fotografias com personalidade, distantes de uma representação convencional, e diz começar a reconhecer-se numa estética própria sobretudo na fotografia conceptual. Quando volta a imagens que fez há vinte anos, nota a evolução dos equipamentos, mas o que lhe interessa é perceber como o seu olhar mudou, com outras referências, outras preocupações e uma consciência maior do que quer comunicar.


Janeth nasceu em Cabo Verde e fala de um amor imenso pelo arquipélago e pela circulação que mantém entre as ilhas e Portugal. Foram a fotografia, os contactos que foi fazendo e a disponibilidade para colaborar em projetos que lhe abriram portas na vida cultural cabo-verdiana. Integra desde a primeira edição a organização de um festival de cinema no país, onde colabora na curadoria e na formação, e foi da Praia, com o festival a caminho da sexta edição consecutiva, que partiu agora para Lisboa. Nas fotografias que faz em mercados, nas ruas e noutros espaços públicos de Cabo Verde, procura estabelecer contacto com as pessoas, explicar como vai usar as imagens e pedir consentimento, sobretudo quando o retrato as torna identificáveis, mesmo sabendo que na fotografia de rua isso nem sempre é possível com todos os que aparecem no enquadramento. Tem também o hábito de imprimir algumas dessas fotografias e, numa viagem seguinte, voltar aos mesmos lugares para as entregar aos retratados ou às famílias, como forma de retribuir a confiança que lhe deram. “Interessa-me que exista uma relação humana, uma troca e, sempre que possível, uma devolução simbólica daquilo que recebi”, diz.


Foi na região de Lisboa que desenvolveu grande parte da prática fotográfica, e é aos dois países que associa o crescimento, a aprendizagem e a pertença. Reconhece em ambos referências, afetos e códigos culturais com que se sente “inteiramente eu”, a par de desafios e contradições com que nem sempre concorda. Emigrou em 2017 e vive nos Países Baixos, onde convive com pessoas de origens muito diferentes, e desde então tem procurado regressar com regularidade a Portugal e a Cabo Verde. Cada regresso traz a alegria de reencontrar a família, a gastronomia e os lugares que, à distância, ganham outro significado, e é também, para Janeth, uma homenagem aos pais e à história que a trouxe até aqui. Admite que podia usar esse tempo e esses recursos para conhecer outros países, coisa de que também gosta, mas sente que há ainda muito por descobrir de norte a sul de Portugal e nos lugares de Cabo Verde onde nunca esteve. Chegar a Lisboa depois da Praia é, diz, “dope”, e é trazer consigo um bocadinho da alegria e da energia de Cabo Verde.


O título da exposição nasce de uma expressão crioula, “bada bu odju béntu”, que à letra significa “vai dar vento aos teus olhos” e que convida a espairecer, a arejar as ideias, a mudar de perspetiva e a deixar os pensamentos respirar. Em 2024, no contexto de um festival de cinema em Cabo Verde, Janeth produziu na Praia uma conversa aberta entre profissionais da música, do cinema e da saúde sobre o impacto da música nas nossas vidas, incluindo a sua dimensão biológica. Por se tratar de um país com uma ligação tão profunda à música, chamou ao encontro “Bada Odju e Obido Béntu”, “vai dar vento aos teus olhos e aos teus ouvidos”, com a ideia de convidar as pessoas a olhar, a escutar e a refletir sobre o que a música transmite. Na exposição de Lisboa juntou-lhes a mente, com uma palavra inglesa que reflete uma mistura comum no quotidiano cabo-verdiano, sobretudo em São Vicente, onde o crioulo se mistura com o inglês, e que a própria Janeth pratica mesmo quando fala português. Queria um título ligado às suas raízes africanas e à sua crioulidade, e encontrou nesta combinação o retrato de uma identidade que incorpora diferentes influências e se expressa de formas diversas.


Entre 2021 e 2022, Janeth atravessou um problema de saúde sério, que afetou bastante a sua componente psicológica, e foi sobretudo durante a recuperação que percebeu de forma concreta o impacto da música no seu estado emocional. Recorda a alegria de voltar a sentir a mente organizada, os pensamentos mais leves e o equilíbrio recuperado, e recorda também ter reconhecido, nos momentos mais difíceis, que algumas das canções que ouvia continham mensagens que nem sempre eram positivas. “Às vezes, gostamos de uma música pelo ritmo, pelo instrumental ou pelo artista, decoramos a letra e cantamo-la sem prestar muita atenção ao seu conteúdo”, observa. Daí nasceram as perguntas que ainda a acompanham, sobre as palavras que escolhemos ouvir repetidamente, as mensagens que interiorizamos e a influência que têm na forma como pensamos, sentimos e nos relacionamos com o mundo.


Passou a ver documentários e filmes e a ler sobre a relação entre música, frequência, energia e o efeito das ondas sonoras no organismo, retomando uma curiosidade antiga. No ensino secundário seguira a área de ciências, com particular interesse pela biologia, chegou a imaginar um futuro na saúde e, anos mais tarde, estudou medicina chinesa. Hoje escolhe com muito cuidado o que ouve. “Costumo dizer que os meus ouvidos são sagrados”, conta, e explica a palavra pelo seu sentido de separado, reservado, merecedor de cuidado, numa dimensão que considera também espiritual. Guarda essa escolha para si, como responsabilidade sobre aquilo a que se expõe, e deixa em aberto ao público a pergunta que atravessa a exposição, “que lugar ocupa a música na construção de quem somos?”. O mind do título refere-se, assim, à saúde mental e à consciência, porque, como sublinha, são os ouvidos que escutam, mas é a mente que interpreta, assimila e dá significado ao que ouvimos.

“Costumo dizer que os meus ouvidos são sagrados”

Janeth Tavares

Gostava que cada visitante saísse com vontade de assumir um papel mais crítico e ativo na curadoria da sua própria experiência musical, tal como faz escolhas noutras dimensões da vida. Compara a música a um alimento para a alma e para os pensamentos, cuja qualidade importa, e lembra que ela está presente em momentos de celebração, de tristeza, de resistência, de pertença e de transformação pessoal, atravessando gerações, culturas e comunidades. Quer, ainda assim, que o espaço fique aberto à interpretação, à conversa e até à discordância, e mostra-se disponível para ouvir outras perspetivas e saber o que cada pessoa leva consigo depois da visita.


Na seleção dos retratados pesaram também a música de cada artista, as mensagens que transmitem e a forma como a inspiram. Em alguns casos há uma história que Janeth quer contar sobre o artista ou sobre a maneira como se conheceram, noutros é a obra que dialoga com os seus valores, e por isso acredita que, através deles, se conhecem também as suas referências e relações. Princezito, músico que se dedica também à investigação e à preservação da cultura cabo-verdiana, é para Janeth um mentor, e foi através das conversas e das histórias que partilhou com ela que se aproximou de expressões como o finason e o batuque. Sara Tavares marcou-a desde muito cedo e, para a fotógrafa, representou várias gerações de pessoas negras, africanas e portuguesas. Chegou a conhecê-la pessoalmente e gostava de brincar com a ideia de que eram primas, por partilharem o apelido, e a cantora morreu em novembro de 2023, aos 45 anos. A norte-americana Akua Naru e o brasileiro Rapadura, cuja escrita e força lírica Janeth admira em particular, entram por uma via que lhe é cara, a do poder da palavra. Com eles, com o mexicano Bocafloja e com Dino D’Santiago foi construindo amizades que a música e a cultura hip-hop lhe trouxeram e que continuaram muito depois de os ter fotografado em palco.


Na sala, algumas fotografias estarão impressas em tecido leve e translúcido, suspensas de forma intercalada, deixando passar a luz e entrever o que está por trás. A disposição convida o público a circular entre as imagens, a descobri-las a partir de diferentes ângulos e a estabelecer relações entre o que vê, um movimento que, para Janeth, remete para o do pensamento e para o da dança, para aquilo que a música desperta no corpo e na mente mesmo quando se está parado. A escolha do material tem também que ver com a sua sensibilidade. Foi bailarina de hip-hop, gosta muito de dançar e de materiais leves e transparentes, pela liberdade que transmitem, e quis que essa dimensão estivesse presente na própria materialidade da montagem, dentro das condicionantes físicas e logísticas do espaço. As fotografias das paredes foram organizadas com Ivanova Araújo, de modo a criar pontos de contacto entre os artistas, as imagens e a narrativa da exposição.


Além da playlist que acompanha a mostra, Janeth gravou a própria voz para cada fotografia, com uma memória, uma história ou um pensamento que sirva ao visitante de ponto de partida para a sua interpretação. A relação com a voz vem do curso de jornalismo, em que a rádio foi uma das áreas de que mais gostou, muito por causa de um professor com uma voz que a fez apreciar o potencial da comunicação através do som. Continua a ouvir muitos podcasts e chegou a ter o seu na BANTUMEN, o “Janecast”, para o qual criou um jingle gravado com a própria voz e uma frase que ainda hoje lhe faz sentido, “Janecast, mais do que música a fluir. Alma na fala, fala na alma.” Juntar áudio à fotografia pareceu-lhe uma extensão natural de uma exposição sobre música, identidade e aquilo que ouvimos, e acredita que uma voz é capaz de despertar memórias, criar intimidade e levar alguém a lugares onde não está fisicamente. Gosta de pensar na voz como uma assinatura, algo singular que permite reconhecer e ser reconhecido, e o exemplo que lhe ocorre é o de Nha Balila, que sabe que é ela mal a ouve falar à porta de casa ou do outro lado do telefone.


Isidora Semedo Correia, a Nha Balila, é natural de Serra Malagueta, no interior da ilha de Santiago, e uma das grandes referências do batuque e do finason. A sua memória atravessa a história de Cabo Verde antes e depois da independência e inclui ter conhecido Amílcar Cabral. Em maio deste ano, o documentário Nha Balila – Dentu D’Algem, de Inês T. Alves e André Xina, que a acompanha aos 92 anos numa viagem a Portugal para celebrar o Dia Internacional da Mulher, teve ante-estreia no Centro Cultural Português, na Praia. Foi uma das primeiras pessoas que Janeth conheceu através da sua ligação a Cabo Verde, apresentada por uma amiga, e tornou-se para ela “uma espécie de avó que o meu contacto com Cabo Verde me ofereceu”.


É dela o retrato que Janeth destaca entre todos os da exposição. Mostra Nha Balila em casa, sem os óculos escuros que habitualmente usa, num ambiente em que se sente confortável, e é o resultado de visitas, conversas e histórias partilhadas ao longo do tempo. Nha Balila, que é invisual, trata-a por Janeth Janota, diz-lhe que é bonita e, por vezes, percorre-lhe o rosto com os dedos e repete que é muito linda. “É uma forma diferente de conhecer alguém, de reconhecer a sua presença e de estabelecer intimidade”, descreve Janeth, que encontra nessa sensorialidade aquilo que procura com a câmara, fotografar sentimentos, sensações, gestos e relações que nem sempre são evidentes numa imagem, mas que podem ser sentidos por quem a observa. Vê nela um símbolo de resiliência e de resistência cultural, alguém que mantém vivos o batuque e o finason e continua a partilhar o que sabe, e escolher esta fotografia é também uma forma de lhe prestar uma homenagem pública em vida. “Uma mulher que não vê através dos olhos, mas que me ensina tanto sobre o que significa verdadeiramente ver”, resume.

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Na parede principal da casa de Nha Balila estão várias fotografias que Janeth lhe tirou, imprimiu e emoldurou, e é a essa imagem que regressa quando pensa nas edições limitadas e assinadas que estarão à venda na exposição. Compara-o ao que sentirá um pintor ao saber que uma obra sua passou a fazer parte da vida de alguém. Uma fotografia na parede de uma casa acompanha a pessoa nos momentos em que recebe a família e os amigos, descansa e partilha o quotidiano, e num escritório acompanha-a enquanto trabalha e pensa, o que para Janeth significa ser acolhida na intimidade de outra pessoa e dar continuidade ao trabalho. Para decidir que imagens ganham uma edição, pergunta primeiro o que cada uma quer dizer e que história carrega, e só depois considera a composição e a força visual. “No fundo, escolho uma imagem porque acredito naquilo que ela tem para dizer. A forma como essa imagem vai chegar às pessoas vem depois”, explica.


“Dá valor e faz valer cada frame da tua vida” é uma frase que a acompanha há muitos anos. Dar valor, para Janeth, é reconhecer a importância de um momento e, muitas vezes, registá-lo, e fazer valer é procurar que esse momento seja vivido de forma a merecer ser lembrado. Guarda em discos, CDs e cartões de memória fotografias com mais de uma década, e há antigos colegas da dança que a procuram para recuperar imagens desse tempo, ensaios, encontros e atuações que ganharam outra dimensão com os anos. Ao recuperar recentemente um site com fotografias suas de 2015, 2016 e 2017, deparou-se com imagens em que quase não reconhecia a própria aparência, uma transformação que o espelho diário esconde e que uma sequência de fotografias torna evidente. É o mesmo que espera de uma comunidade quando olha para o seu arquivo visual, que perceba como mudou, que caminhos percorreu, o que preservou e o que pode fazer de outra forma. Acrescenta a fotografia aos livros, à palavra escrita e à transmissão oral como mais uma forma de contar histórias, capaz de mostrar rostos e detalhes de realidades que de outro modo talvez nunca se conhecessem, e acredita que uma comunidade que se reconhece nas suas imagens está mais preparada para compreender a sua trajetória e transmitir essa memória às gerações seguintes.


Janeth fala da sua africanidade como algo que se manifesta de forma espontânea no que é e no que faz. “Se o meu trabalho fala sobre mim e eu sou africana, então essa ligação está necessariamente presente”, diz. Acredita que não se escolhe o lugar onde se nasce, mas que se pode escolher a que lugares, culturas e comunidades se quer pertencer, ou pelo menos fortalecer esses laços ao longo da vida. Vê no Mês da Identidade Africana um ato de afirmação, pertença, expressão e resiliência, e espera que a exposição sirva para conversar sobre a música para lá do entretenimento, sobre o que comunica, o que desperta e o papel que tem na forma como as comunidades africanas e afrodescendentes se expressam, se reconhecem e preservam as suas memórias.


A viagem a Lisboa tem, para ela, várias etapas. Antes da inauguração passa pela Web Summit, onde apresenta publicamente, pela primeira vez, a KUXINTIDU Art Hub, a startup cultural-tech que tem vindo a construir desde o início do ano com o apoio da Djassi Africa, organização sediada no Reino Unido que acompanha empreendedores africanos e afrodescendentes e que tem levado ao evento startups lusófonas lideradas por pessoas negras. A plataforma quer funcionar como espaço de mediação entre artistas, organizações, instituições e outros profissionais do setor, e reúne muito do que Janeth tem feito nas diferentes áreas criativas. Entre as funções que lhe atribuem, é com a de mediadora cultural que mais se identifica, e diz desempenhá-la há anos, desde antes de lhe dar esse nome. Basta-lhe, muitas vezes, conhecer duas pessoas e perceber os seus interesses para pensar que deviam conhecer-se e talvez construir alguma coisa juntas. Vê uma afinidade entre esse papel e a fotografia, porque em ambos se observa, se antecipa e se reconhece aquilo que merece ser visto, e se trabalha para lhe dar luz.


Recentemente, um artista mexicano, um dos pioneiros do rap latino, com cerca de cinquenta anos e uma longa experiência na indústria, perguntou-lhe se já tinha pensado em assumir formalmente o papel de music selector. Segundo ele, Janeth faz uma boa curadoria musical, e a indústria e as comunidades criativas precisam de mais pessoas capazes de selecionar, ligar e criar relações entre sonoridades e artistas. A observação tocou-lhe numa dimensão que, diz, atravessa o seu percurso e esta exposição. Cantou num coro gospel, gostava de rimar quando era mais nova e tem participado nos bastidores de produções, encontros e colaborações entre artistas, a identificar afinidades entre pessoas e sonoridades. “No fundo, acho que aquilo de que realmente gosto são as palavras”, conclui, e é por isso que, se tiver de escolher como quer ser reconhecida, se apresenta como fotojornalista e mediadora cultural, “duas dimensões diferentes, mas profundamente complementares”.


A última exposição que fez foi em 2019 ou 2020. Desde então dinamizou outros projetos, entre eles um workshop em Cabo Verde, em 2021, que recorda como particularmente importante, e acumulou fotografias e projetos que guardou em discos rígidos, à espera de um contexto em que pudessem ser vistos com tempo. Valoriza uma primeira experiência presencial diante de uma imagem, com a possibilidade de conversar sobre a sua história, ouvir uma interpretação ou receber um comentário pessoal, e acredita que essa experiência pode anteceder e enriquecer a que acontece depois nas plataformas digitais.


Em Cabo Verde, prepara com mais três pessoas uma agência de artistas dedicada a booking e management, com responsabilidades já distribuídas e apresentação pública prevista para o próximo ano. A relação com os dois países tem-na levado também a pensar em regressar a casa e deixar de viver como imigrante, com a sensação de que poderia ser mais útil a trabalhar e a construir no lugar a que sente pertencer. “A experiência de viver num país que não é o nosso implica uma luta quotidiana de adaptação, de construção de referências e de procura de espaço”, reflete, e parte dessa energia acaba, por vezes, por afastá-la do que quer desenvolver. Quando imagina trabalhar a partir de Cabo Verde, pensa em dedicar mais tempo à fotografia e à mediação cultural e em contribuir diretamente para as comunidades e para o ecossistema cultural de onde vem, uma reflexão que descreve como muito pessoal e que tem crescido nela.


Para a noite de 13 de novembro, imagina um momento de celebração e de convívio, com os seus, boa música, boas conversas e pessoas livres de circular, de se conhecerem e de trocarem ideias. “Às vezes, não damos o devido valor a estes encontros porque parecem momentos comuns, sem nada de extraordinário”, observa, lembrando que muitas vezes só se reconhece a importância de estar juntos em comunidade quando isso deixa de acontecer. Se lhe pedirem para resumir a exposição numa frase, responde em crioulo, “BA DA BU MIND BÉNTU: E ba nutri bu alma ku palavras e sons di valor”, um convite a alimentar a alma com palavras e sons de valor.


Ba Da Bu Mind Béntu, de Janeth Tavares, inaugura a 13 de novembro, às 18h30, no espaço da Batoto Yetu, na Rua António Gedeão, 8, R/C Direito (Loja Bloco B3), no Bairro dos Alfinetes, em Marvila, Lisboa, com curadoria de Ivanova Araújo e colaboração musical de Lince, no âmbito do MIA, Mês da Identidade Africana. A entrada é livre, mediante inscrição neste formulário.

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