O que leva uma atriz a pedir ajuda? A história de Muna Baldé

October 30, 2026
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Muna Baldé | DR

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Em Portugal, quem quer fazer a primeira curta-metragem de ficção encontra no Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) a principal via de financiamento público. Nos concursos para curtas de ficção, pelo menos metade da verba fica reservada a novos talentos e primeiras obras, e o instituto pode ainda separar uma parte para os chamados “novíssimos”, autores com até 30 anos que nunca realizaram um filme ou que só o fizeram em contexto escolar. O realizador pode candidatar-se, mas o dinheiro não lhe é entregue. Vai para produtoras independentes ou, no caso dos novíssimos, também para escolas de cinema inscritas no registo do instituto, e cobre no máximo 80% do custo total do projeto.

No papel, é o perfil de Muna Baldé, atriz de 27 anos, que quer realizar e protagonizar Sem ti, a sua primeira curta-metragem. Procurou apoio no ICA e na Fundação Calouste Gulbenkian, mas diz não ter encontrado bolsas que se ajustassem ao que pretendia. Abriu, por isso, uma campanha de financiamento coletivo para cobrir deslocações, alojamento, alimentação, imprevistos e a produção. Foi também por isso que contactou a BANTUMEN a pedir ajuda para divulgar a campanha. Segundo Muna, o projeto já ultrapassou a fase da ideia. A canção que lhe dá nome está terminada, mas o casting ainda está em curso, também por questões de orçamento, e a equipa ainda não está fechada.

Até aqui, quase todo o trabalho que antecede a rodagem tem recaído sobre ela, dos storyboards às apresentações e dos contactos com associações à cara da campanha, ainda que reconheça ter contado com alguns apoios. “O mais difícil neste projeto tem sido fazer tudo maioritariamente sozinha”, admite. Ciente das dificuldades do meio, faz questão de pagar de forma justa a quem trabalhar no filme e decidiu ser transparente sobre o que cada contributo vai financiar. Pedir dinheiro, porém, não lhe foi fácil. “Sempre tive na cabeça: se não conseguir fazer sozinha, não faço. Mas esse pensamento já me custou algumas coisas na vida”, diz, ao descrever a vergonha que sentiu. “Deus deu-nos a todos recursos diferentes e, se mais pessoas conseguissem pedir ajuda, ficariam surpreendidas com quem pode estar do outro lado da moeda”, acrescenta. Hoje vê o pedido de outra forma. “Qualquer pessoa pode pedir ajuda. No meu trabalho, por vezes sinto-me sobrecarregada e isso leva-me a pedir uma mãozinha. O mesmo se passa no mundo das artes”, explica.

A ideia de Sem ti acompanha-a desde 2020, quando imaginava uma curta a que chegou a chamar Where Do We Go From Here?, e cruzou-se mais tarde com a letra da canção, que tinha escrito algum tempo antes. A canção já está disponível no SoundCloud e chega ao Spotify depois da estreia do filme. A história parte de uma relação que viveu aos 18 anos, com um companheiro de 20, quando eram, nas suas palavras, “jovens inocentes”. Chega ao ecrã através de Nella e Roman, que Muna vê como a imagem dos dois, mas também de muitas outras pessoas que passaram pelo mesmo. O filme abre com Nella em criança, ao lado do avô, o primeiro grande amor da sua vida, e acompanha-a até à adolescência e a Roman, o segundo grande amor e também uma grande deceção.

“Amar alguém não deve significar perder a ligação a quem somos”

Muna Baldé

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Sem ti trata de relações tóxicas, de sofrimento psicológico e de recuperação, e assenta numa ideia que a realizadora resume assim: “Amar alguém não deve significar perder a ligação a quem somos.” Tem como referência “Insecure”, a série de Issa Rae, pela atenção à narrativa e às paisagens, e a canção só entra na segunda metade. Muna quer que o público simpatize com as duas personagens, mesmo com a que lhe pareça mais tóxica. “No final do dia, tiveram vidas diferentes, experiências diferentes, a cultura, a sociedade fez delas como são, mas no final estão só à procura de felicidade”, explica. O filme terá avisos para imagens que podem ser sensíveis, mas a realizadora promete um final feliz para ambas e insiste que o tema principal será sempre o amor-próprio.


O sofrimento psicológico que Sem ti retrata não lhe é estranho. Muna passou por depressão e ansiedade e conta que, de início, não reconheceu que precisava de ajuda. Aos 16 anos, quando a procurou junto de uma psicóloga, sentiu os seus sentimentos desvalorizados. Hoje fala abertamente do que viveu e defende mais apoio à saúde mental dos jovens, em particular dos jovens artistas. Diz que a sua história “deixou de ser minha há muito tempo” e é por isso que a quer partilhar, com respeito por todos os que dela fazem parte.


Maimuna Raquel Reis Baldé cresceu em Armação de Pêra, no Algarve, filha de mãe portuguesa e de pai natural da Guiné-Bissau. A relação dos pais foi recebida como uma controvérsia pela família materna, que não aceitava ver a filha ao lado de um homem negro. Cresceu numa vila onde todos se conheciam e se ajudavam com o que podiam. “Sempre tive o sentido de comunidade dentro de mim e quis poder ajudar os outros da forma como me ajudaram enquanto cresci”, recorda. Quer ser atriz desde que entrou numa peça da escola, aos seis anos.


Em 2016, depois de um concerto de The Weeknd, decidiu que queria viver no Reino Unido. Sem dinheiro para Londres, aceitou a ajuda do irmão mais velho e, em setembro de 2017, mudou-se para Manchester, onde estudou representação no Manchester College, na UCEN Manchester e na Identity School of Acting. O regresso a Portugal foi vivido como uma derrota. “Foi muito difícil regressar a Portugal sem ‘nada para mostrar’”, conta. “Saí com um sonho e voltar foi como se fosse um falhanço”, admite. Foi a mãe quem a fez continuar, com uma frase simples: “Vai para a ACT, que eu ajudo.” Muna acredita que, sem esse apoio, teria deixado a representação. Entrou então na ACT, Escola de Atores, em Lisboa. Fez o primeiro casting para o papel de Cleópatra numa produção de Jada Pinkett Smith e o seu trabalho como atriz resume-se, até agora, a projetos escolares. Em Sem ti assume a interpretação, a realização e a letra da canção. A poucas semanas da data prevista para a rodagem, o casting e a equipa ainda estão por fechar.


A campanha de financiamento coletivo de Sem ti está aberta na plataforma GoFundMe, sem prazo definido e com contribuições de qualquer valor. A rodagem está prevista para o final de novembro ou o início de dezembro, com o objetivo de apresentar o filme em festivais nacionais e internacionais em 2027. A equipa procura também atores, figurantes, luzes e câmaras. O contacto é mrreisbalde@gmail.com.

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