Usujo, o jovem pintor angolano que quer mostrar a crueza dos bairros sem filtros

October 23, 2026
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©BANTUMEN/Nuno Silva

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Manuel Henrique Venâncio assina Usujo, um nome artístico inspirado no seu processo criativo e nos pintores com quem se foi cruzando. Não se lembra de, nos últimos anos, ter visto algum artista plástico de bata branca e também não a usa, porque prefere que a roupa fique manchada de tinta e que cada traço conte um pedaço da sua história. Apresenta-se como “um puto angolano de vinte e três anos de idade”, vive em Lisboa e está a consolidar uma pintura a acrílico e a óleo com que pretende chegar às galerias.


Pinta desde criança, “desde puto mesmo”, e recorda que sempre teve vontade de “pegar num caderno, rabiscar, fazer rascunhos, desenhos”. As primeiras influências vieram do graffiti e da cultura urbana que marcaram a sua infância em Angola, e da música que ainda hoje acompanha o seu processo criativo. O kuduro, nascido nos musseques, os bairros periféricos de Luanda, e associado a Tony Amado, foi durante muito tempo marginalizado e ligado à pobreza, à criminalidade e à vida dos jovens das zonas mais desfavorecidas da capital angolana. Usujo reconhece no percurso do género aquilo que procura com a pintura. “Tal como o kuduro, faço arte no intuito de descriminalizar, de mostrar a nossa cultura e a nossa realidade”, explica. “Mostrar a crueza sem filtros dos nossos bairros, do nosso quotidiano e tudo mais. É essa a ligação que tenho”, acrescenta.


As telas servem-lhe para documentar as vivências e memórias do seu percurso, e a parte mais recente desse percurso começou com a chegada a Lisboa. A primeira mudança que sentiu teve que ver com a forma como passou a ser visto. “Primeiro, apercebi-me de que esta mudança, de sair de um lugar onde sou uma pessoa e passar para um outro lugar em que sou um homem preto, já impacta. E depois os costumes diferentes”, conta. “Temos que nos adaptar à vivência do que encontramos, porque não podemos simplesmente estar a transportar tudo o que é nosso para o lugar do outro. Temos que aprender a respeitar e a diminuir um pouco do nosso para aceitar o que é do outro”, defende.

“Quero fazer alguma coisa em que exprima o que estou a sentir e as outras pessoas também possam identificar-se, mas com a sua perceção.”

Usujo

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©BANTUMEN/Nuno Silva

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©BANTUMEN/Nuno Silva

Nos quadros, os dois lugares aparecem lado a lado. “Algumas vezes opto por retratar o trajeto de um jovem negro, mas também as lembranças do Usujo, que era de Luanda, agora está em Lisboa, e o quotidiano cá em Lisboa”, descreve. “Então isso tudo vai tendo uma conexão que influencia muito na mudança e na construção do sujeito que está aqui agora”, continua.


A vivência entre Angola e Portugal mudou também a forma como olha para o minimalismo, que passou a aplicar à pintura e à maneira como vive. Do país de onde vem, e do continente no seu todo, traz a memória de uma intensidade feita de cor, de energia e de excesso visual. A pintura serve-lhe para fazer o caminho inverso, filtrando essa corrente de informação até a reduzir a traços e formas essenciais. Considera que uma mensagem marcante se manifesta naturalmente na obra, sem precisar de uma codificação complexa.


Por isso recusa as paletas hipersaturadas, os laranjas quentes do pôr do sol, o imbondeiro e a figura do pensador, inspirada na escultura tradicional cokwe e tornada símbolo da cultura angolana, que tantas vezes se colam à arte feita no continente africano. Para Usujo, essa estética esgotou-se e deu origem a uma visão quase caricatural e redutora da criação contemporânea. Prefere uma linguagem moderna e minimalista que, sublinha, também pertence à cultura africana, apesar de ser muitas vezes ignorada.


A identidade enquanto homem negro é o ponto de partida de tudo o que pinta, mas retrata-a em fases, dinâmicas e estados de espírito diferentes. Evita os rostos e o detalhe das feições, porque pintar uma cara específica fecharia a obra num só indivíduo e numa narrativa pessoal. Sem expressões faciais, as figuras ficam disponíveis para que cada pessoa tire as suas conclusões, e o preto e o espaço abstrato passam a funcionar como ponto de identificação, pensado sobretudo para os jovens negros. “Isso é o poder do abstrato. É por isso que estou nesse lado”, afirma. “Então quero fazer alguma coisa em que exprima o que estou a sentir e as outras pessoas também possam identificar-se, mas com a sua perceção”, explica.


Na infância, chegou a deixar de pintar. “Houve uma altura, quando pequeno, que parei de fazer arte por falta de representatividade. E quando tinha algumas referências, não conseguiam viver da arte que faziam e, por vezes, o consumo de drogas era o único caminho ou escape dessa mesma realidade artística, mas precária”, recorda. Lembra-se de crescer a ver desenhos animados da Disney em que as personagens negras eram raras e, quando apareciam, ficavam remetidas para papéis secundários ou caricaturais. Em “Phineas e Ferb”, a sua série favorita, recorda uma única figura negra.


Hoje descreve a ligação à criação como uma “necessidade quase divina”, acompanhada pelo desejo de deixar uma marca no mundo e no universo. Projeta a mesma ambição na arquitetura, outra das suas paixões, que associa à ideia de erguer algo duradouro, como uma casa que fica para a posteridade. Na pintura, quer que a obra crie ligação por si, independentemente de quem a assinou, e que a nova geração encontre nela motivação e um reflexo de si própria. Os espaços vazios que deixa nos quadros apontam também para quem vem depois, porque Usujo quer que outros jovens artistas possam, mais tarde, dialogar com o seu trabalho, intervir nele ou criar por cima dele.


Quer ainda que cada quadro funcione como registo da época em que foi pintado, à semelhança do que encontra na pintura de outros séculos. “Quero que vejam as minhas pinturas como o movimento do realismo. Por exemplo, algumas pinturas do Miguel Ângelo, só de olhar para a pintura, remetem logo aos acontecimentos daquela época ou daquela altura. E quero passar isso com a minha arte”, diz. “Quero que as pessoas, quando olharem, possam ter um flashback dos anos passados. Mesmo que não tenham vivido, consigam sentir”, conclui.

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