“Kanpamentu”, o filme de terror cabo-verdiano falado em crioulo

October 21, 2026
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Still do filme "Kanpamentu"

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A Prisma Vídeos estreia na sexta-feira, 23 de outubro, às 19h00, na Assembleia Nacional, na cidade da Praia, Kanpamentu, uma longa-metragem de terror falada em crioulo. No filme, Belomy Xavier e Che Gonçalves acompanham um grupo de jovens cuja noite de acampamento na praia de São Francisco, na ilha de Santiago, se transforma numa luta pela sobrevivência a partir do momento em que uma entidade misteriosa começa a persegui-los.


O que ameaça o grupo vai sendo revelado ao longo do filme, que se apoia nas crenças e superstições do arquipélago. Foi a esse imaginário que Belomy Xavier recorreu para explicar a escolha do género na apresentação à imprensa, a 14 de outubro. Lembrou as histórias do finado e da feiticeira, que diz ouvir desde sempre, e figuras como o moçongu, a catxorona e a canelinha, mais presentes nas ilhas do norte, como matéria para um cinema de terror construído a partir de referências locais e não de narrativas importadas. A equipa é inteiramente cabo-verdiana, tal como a língua em que o filme é falado durante uma hora e vinte minutos, e o realizador quer que o público o reconheça como “um produto para crioulos”.


A estreia chega ao fim de um processo de vários anos, durante os quais a equipa reuniu por conta própria os meios humanos, materiais e financeiros de que precisava. A ideia de fazer um filme de terror em Cabo Verde foi recebida com reticências e descrédito, e convencer pessoas a juntarem-se ao projeto foi um dos primeiros obstáculos. Com os recursos de que dispunha, a produção teve de garantir ensaios, equipamento, elenco e professores para acompanhar os atores. A rodagem dividiu-se entre a praia de São Francisco, onde a equipa filmava de noite a partir das 19h00, e o interior de um edifício antigo no Plateau. Foram esses horários que mais pesaram no trabalho de Sams Semedo, responsável pela caracterização e maquilhagem, que descreve a experiência como uma etapa de crescimento enquanto artista. Para Elton Vasconcelos, um dos 12 atores do elenco, Kanpamentu é a primeira experiência em cinema, e a preparação passou sobretudo por construir o passado e o contexto familiar da personagem antes de a interpretar diante da câmara.


A Prisma Vídeos, empresa com 13 anos de atividade e estúdio no Palmarejo, na Praia, dirigida por Belomy Xavier, fez um percurso ligado à música antes da viragem para a sétima arte. Em 2015 assinou o vídeo de “Mudança”, de Kino Cabral, uma canção que o realizador conta ter ouvido em criança sem imaginar que um dia viria a filmá-la. Mais tarde realizou o de “Kondê”, de Elly Paris, que inclui um depoimento de Tchinda Andrade, mulher trans e uma das primeiras pessoas LGBTI+ assumidas publicamente no país, e que o Santiago Magazine registou como o primeiro beijo homossexual num videoclipe cabo-verdiano.


Feito com os meios que a própria equipa conseguiu reunir, Kanpamentu chega ao público num país que já não conta com o Instituto Cabo-verdiano de Cinema, a entidade que, em 1995, financiou O Ilhéu de Contenda, de Leão Lopes. Belomy Xavier critica a falta de apoio ao crescimento do cinema nacional e sustenta que Cabo Verde tem profissionais capazes, recursos e histórias para levar ao ecrã. A mesma discussão marcou a primeira edição do FilmLab Cabo Verde, que reuniu na Praia, entre 6 e 16 de outubro, jovens cineastas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e de Timor-Leste em formação sobre financiamento, produção e distribuição. A organização lembra que a escassez de dados sobre o número de cineastas, de obras produzidas e de salas em funcionamento tem servido muitas vezes de argumento para não investir no setor.


Kanpamentu é apresentado como o primeiro filme de terror cabo-verdiano, numa altura em que o género surge também noutros projetos. É o caso de Maresia, curta-metragem de terror psicológico escrita por Cristina da Luz, recém-formada em cinema nos Estados Unidos, que foi rodada em janeiro na mesma praia de São Francisco e deverá estrear no país em dezembro.


A sessão na Assembleia Nacional, com bilhetes a mil escudos, é o ponto de partida de um percurso que a equipa quer estender a São Vicente, aos Estados Unidos, a Portugal, ao Senegal, à Guiné-Bissau, a Angola e a outros países africanos de língua oficial portuguesa. A distribuição ainda não está fechada e, nas palavras de Belomy Xavier, exige um investimento que a produção ainda terá de fazer para que o filme chegue a quem o quiser ver.

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