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João António não separa facilmente a escrita da vida. Antes de escrever, diz, precisa de viver. Precisa de observar, participar na realidade, sentir, acumular saberes e deixar que os lugares permaneçam dentro de si, mesmo quando já ficaram para trás. Talvez por isso Crónicas do Homem Negro não se apresente apenas como um livro sobre identidade, nem apenas como um conjunto de textos sobre memória. É uma obra feita a partir daquilo que resiste ao tempo, do que fica no corpo, no pensamento e no silêncio depois de os acontecimentos passarem.
Nascido em Luanda e criado em Braga, João António carrega duas geografias que continuam a organizar a sua forma de estar no mundo. Luanda é a origem, a matriz cultural, a família, os valores e uma infância feita de liberdade na rua. Braga é a formação, a residência, os projetos, as amizades e a consciência de viver como africano na Europa. “De um lado tenho o coração e do outro o corpo.”
A partir dessa divisão, o autor reconhece que todos os lugares por onde passou deixaram marcas, mas Luanda e Braga são os que mais contribuíram para a pessoa que é hoje. “Luanda é uma presença constante nos meus textos. É um lugar de regressos, feito de imagens que me acompanham ao longo da vida”, afirma. Entre essas imagens está a infância vivida sobretudo fora de casa, numa relação com a rua que hoje também lhe permite pensar as mudanças entre gerações. “Vivíamos mais fora do que dentro de casa, literalmente. Éramos verdadeiramente filhos das ruas. Hoje olho para essas memórias como uma reflexão sobre as mudanças geracionais e sobre aquilo que fomos perdendo e ganhando ao longo do caminho.”
Braga, por sua vez, foi “abrigo, desafio, ponto de partida” e tudo isso ao mesmo tempo. Foi lá que fez amizades, enfrentou obstáculos, desenvolveu projetos e começou a definir a sua forma de estar no mundo. Mesmo estando hoje mais afastado da cidade por razões profissionais, continua a reconhecê-la como lugar essencial da sua história.

João António | DR
Antes da literatura publicada em livro, já havia música, desenho, leitura, design, vídeo e cultura urbana. João António diz que a relação com as artes vem desde criança e que a necessidade de transformar aquilo que observava ou sentia em criação surgiu de forma natural. Durante muitos anos, a música foi o principal meio dessa expressão. Mais tarde, ao passar para a escrita literária, encontrou outra forma de organizar o pensamento.“A literatura permitiu-me trabalhar as ideias com outra profundidade, outra cadência e outro tempo. Enquanto a música vive da voz do intérprete, a literatura vive da voz interior de quem lê. Essa descoberta fez todo o sentido para mim e continua a fazer.”
Para o escritor, a música, o design, o vídeo e a escrita são ferramentas diferentes para uma mesma inquietação, e não como territórios separados. A música permite-lhe trabalhar a emoção e a voz. O design desafia-o a pensar visualmente e a transformar ideias em imagem. O vídeo acrescenta narrativa e movimento. A escrita, porém, aparece como o espaço de maior liberdade.
“É nela que consigo aprofundar pensamentos, explorar emoções e desenvolver ideias sem tantas limitações. A escrita permite-me reunir elementos das outras artes e transformá-los numa experiência mais íntima e reflexiva.”
Essa intimidade reflexiva está no centro de Crónicas do Homem Negro, livro editado pela Primeiro Capítulo, com 192 páginas, que será lançado no dia 13 de junho, às 15h00, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga.
João descreve a obra como um conjunto de memórias partidas, silêncios, solidões, amores, fantasmas e viagens. “É um livro sobre memória, observação e condição humana.” Nasce das suas vivências, mas também das histórias das pessoas que foi encontrando ao longo da vida. “Este livro resulta desse exercício de olhar para tudo e transformar realidades, inquietações em palavras. É, acima de tudo, um livro sobre aquilo que permanece em nós depois dos acontecimentos passarem.”
“Para mim, escrever nunca foi um exercício centrado na cor da pele, mas também não posso fingir que a experiência é neutra. Escrevo sobre experiências humanas”
João António
O título coloca no centro a figura do “homem negro”, mas João António não a trata como um símbolo fechado, nem como uma personagem criada para representar uma só experiência. Na obra, esse homem surge antes como um corpo atravessado por memórias, perguntas, deslocações e formas distintas de existir no mundo. Há nele uma dimensão autobiográfica, porque parte também das vivências do autor, mas há igualmente uma dimensão coletiva, feita de histórias observadas, estudadas e reconhecidas ao longo do tempo. “O Homem Negro existe em múltiplas dimensões ao longo da obra. Tem elementos da minha vivência, mas também incorpora histórias, inquietações e perspetivas que pertencem a outras pessoas. É um espelho onde cabem diferentes experiências humanas.”
Essa complexidade é importante porque impede a obra de transformar a experiência negra num lugar único, previsível ou apenas marcado pela dor. João António não escreve para explicar a negritude a partir de fora, nem para cumprir uma função pedagógica. Também não finge que a experiência é neutra. Reconhece que cada pessoa observa o mundo a partir da sua própria realidade e que ser um homem negro em Portugal traz particularidades, desafios e vivências que influenciam o olhar de quem escreve. “Para mim, escrever nunca foi um exercício centrado na cor da pele, mas também não posso fingir que a experiência é neutra. Escrevo sobre experiências humanas. No entanto, também não ignoro que cada um observa o mundo a partir da sua própria realidade.”
Questionado sobre a possibilidade de o livro desmontar imagens estereotipadas sobre os homens negros, responde com cuidado que não escreveu a obra com uma intenção direta de responder a estereótipos, mas acredita que qualquer trabalho que apresente experiências humanas de forma honesta contribui para questionar simplificações e preconceitos.“Nenhuma pessoa deve ser reduzida a uma única narrativa. Se o leitor terminar a leitura com uma visão mais ampla e mais humana, então o livro terá cumprido uma parte importante do seu papel.”
Há, em Crónicas do Homem Negro, uma presença forte do silêncio. Não apenas como ausência de fala, mas como espaço onde a lembrança regressa, onde as perguntas surgem e onde as emoções encontram forma. João António conta que, numa apresentação feita a alunos do 8.º ano, lhe colocaram precisamente essa questão. Na altura, ainda não tinha plena consciência da frequência com que o silêncio surgia na sua escrita. Hoje, percebe que ele aparece de forma natural.“O silêncio ocupa um lugar importante nos meus textos porque é nele que a lembrança regressa, que as perguntas surgem e que as emoções encontram espaço para existir. Muitas das crónicas nasceram desse encontro com momentos que não tinham sido suficientemente escutados.”
“Se o leitor terminar a leitura com uma visão mais ampla e mais humana, então o livro terá cumprido uma parte importante do seu papel”
João António
Para o autor, o silêncio pode ser transformador, meditativo e até poético e é nele que encontra “as vozes que dão origem à escrita”. E talvez seja por isso que a solidão, entre temas como amor, memória, deslocação e pertença, tenha sido o que mais o obrigou a olhar para dentro.“Provavelmente a solidão. Porque a solidão obriga-nos a conviver com perguntas para as quais nem sempre temos ou tivemos respostas. Escrever sobre ela foi também confrontar-me com as minhas fragilidades e reflexões que muitas vezes preferi adiar.”
Ao falar da memória, afasta-se de uma ideia linear ou organizada do passado, porque recordar é, para si, lidar com imagens, sensações e fragmentos que só ganham forma através da escrita. É nesse exercício de reconstrução que também reconhece a maturidade alcançada entre A Ponte, Entre o Tempo e a Memória e Crónicas do Homem Negro: o primeiro livro foi um espaço de descoberta da própria voz, das limitações e dos caminhos possíveis enquanto autor, enquanto a nova obra surge numa fase mais consciente, em que identifica com maior clareza os temas que o movem e as ferramentas literárias que melhor servem aquilo que pretende comunicar.
Esse percurso, no entanto, não nasce desligado da cultura urbana. O hip-hop teve um papel decisivo na sua formação, não apenas por lhe abrir o mundo dos artistas, da partilha e dos palcos, mas sobretudo por lhe ensinar a olhar para as palavras com atenção. Foi a escrever música desde os 16 anos que começou a organizar ideias, a compreender o poder da linguagem e a encontrar uma voz própria, processo que hoje continua na literatura.
Hoje, já não se considera um praticante ativo da música, mas também não a entende como uma etapa encerrada. A música continua presente, ainda que em repouso, como uma força que abriu caminho a outras vozes e a outras formas de expressão. O alter ego PROPH faz parte dessa história e é uma das manifestações da sua identidade artística, mais ligada à performance, ao palco e a um determinado posicionamento musical. Na literatura, porém, João encontra outra amplitude, sente que pode explorar temas, emoções e reflexões com mais tempo e profundidade, sem deixar de reconhecer que o escritor e o músico nascem do mesmo lugar.
Para lá do livro, continua movido por uma inquietação sobre o ser humano. Interessa-lhe compreender pessoas, relações, comportamentos e transformações sociais, mas também explorar, cada vez mais, temas ligados à espiritualidade, não numa perspetiva religiosa, mas como espaço de reflexão, energia, propósito e ligação ao mundo. Essa curiosidade aproxima-se da forma como entende a criação: um exercício de observação permanente. Quando não está a escrever, compor, desenhar ou criar, procura estar próximo da família e dos amigos, descansar, ver séries, ouvir podcasts ou ler sobre assuntos que lhe despertam interesse.
Para encerrar a conversa, João António afirmar não querer controlar a forma como o livro será lido. Interessa-lhe, acima de tudo, que cada leitor encontre o seu próprio significado dentro da obra. Não acredita que a interpretação do autor tenha de prevalecer sobre todas as outras e diz já ter ouvido leitores descreverem experiências de leitura mais bonitas do que aquelas que ele próprio tinha imaginado.“Não gostaria que o foco estivesse em mim. Vejo-me apenas como alguém que cria. O resto pertence ao leitor.”
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