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No final dos anos 70, o Bairro Alto ainda carregava a reputação que o tornara marginal durante décadas: tabernas, bordéis, ruas que a Lisboa mais estabelecida contornava depois do anoitecer. A revolução de abril tinha caído em 1974 e o país ainda não sabia bem o que construir com ela. O fim da ditadura e o fim do império chegaram quase em simultâneo, trazendo para Lisboa centenas de milhares de pessoas das antigas colónias: retornados, imigrantes africanos, estudantes e refugiados de guerras que ainda não tinham terminado.
A maioria dos africanos que chegou nesse período ficou na periferia. Nos bairros da Amadora, de Sintra, do Seixal, ergueram casas em terrenos que não eram seus, muitas vezes de noite, para que as estruturas estivessem prontas antes de qualquer ordem de demolição. Lisboa acolhia-os pela necessidade de mão-de-obra, não por convicção, e ficaram à margem da cidade, não apenas no sentido geográfico.
Alguns, porém, chegaram ao centro. E o centro, por ser um território ainda sem forma definida, tinha espaço para quem soubesse ocupá-lo.
Zé da Guiné chegou de Bissau no final dos anos 70. Hernâni Miguel também era da Guiné-Bissau, mas viera mais cedo, tinha sete anos quando saiu, e Lisboa foi a única cidade que verdadeiramente conheceu. Cabé (Pai Cabé ou ainda Tito, como era carinhosamente tratado pelos mais íntimos) veio de Angola em 1986 e trouxe consigo décadas de noites em Luanda a pôr música para quem dançava. Nenhum deles chegou com um programa definido. Chegaram com o que tinham: o corpo, o ouvido, o hábito da noite e encontraram uma cidade disposta, pela primeira vez, a deixar-se surpreender.

Hernâni Miguel | ©BANTUMEN
José Osaldo Barbosa ficou para sempre Zé da Guiné. O nome colou-lhe à porta do Teatro D. Maria II, onde parava habitualmente entre fascistas, retornados e africanos, uma mistura que dizia tudo sobre a Lisboa do momento. Era atleta, cinturão negro de karaté, e o corpo musculado acabou por abrir-lhe as portas que a cidade tinha para oferecer: primeiro como segurança no Browns, na Avenida de Roma, depois como figura reconhecida por uma elite intelectual que ali bebia e conversava até tarde. A roupa era impecável e o passo era largo. Quem o via nas ruas do Chiado nos anos 80 não esquecia facilmente.
Hernâni Miguel chegara mais cedo, mas a chegada ficou igualmente marcada. Tinha sete anos quando saiu da Guiné-Bissau e a primeira noite em Lisboa passou-a acordado, fascinado pela luz da cidade. Esse amor, contaria mais tarde, nunca diminuiu. Cresceu a fazer de Lisboa a sua cidade com a naturalidade de quem não conheceu outra, e foi nessa condição - nem africano recém-chegado nem português de raiz - que se tornou um dos arquitetos silenciosos da noite lisboeta.
Carlos Alberto Flores, também conhecido por Cabé, fez um percurso diferente. Nasceu em Benguela, cresceu nas imediações do Largo da Peça, e em 1961, com um grupo de jovens do Lobito, viajou até Luanda com destino a Lisboa: queria tirar o curso de mecânico de radar na Força Aérea. O exército colonial mobilizou-o antes de chegar. Foi esse desvio que o colocou em Luanda, no Ferroviário, onde jogou futebol, e depois numa vida construída em torno da animação noturna que o tornaria numa das figuras centrais da vida noturna da cidade. Quando finalmente chegou a Lisboa, em 1986, já carregava décadas de noites em Benguela e Luanda. Trouxe esse mapa consigo e foi nele que o seu primeiro filho, Paulo Flores, aprendeu a ler a música.
A Lisboa do início dos anos 80 estava a reinventar-se com a urgência de quem chegou tarde a si mesma. O Frágil abriu em 1982 e tornou-se o espaço mítico de uma geração que descobria ao mesmo tempo a música nova, a moda e a política sem a ditadura por cima. O Bairro Alto deixava de ser o território da marginalidade para se transformar no laboratório de uma cidade que queria, finalmente, pertencer ao mundo. Foi nesse contexto que Zé da Guiné foi convidado a criar o RockHouse, na Rua do Diário de Notícias. Selecionava quem entrava, conhecia toda a gente, e transformou a sua presença num instrumento de mediação entre mundos que a cidade ainda não tinha aprendido a juntar por conta própria.
Em 1985, juntou-se a Hernâni Miguel e a Mário Duarte para organizar festas que duravam até à manhã seguinte. Assim nasceram as Noites Longas. O espaço era o palacete do antigo Casa Pia Atlético Clube, no Largo do Conde Barão, em Santos, o mesmo sítio onde mais tarde funcionaria a discoteca B.Leza. Abria às duas da manhã, quando os bares do Bairro Alto fechavam, e foi durante quatro anos o ponto de chegada de uma Lisboa que não se queria deitar. Lançavam-se livros, faziam-se passagens de moda, davam-se concertos; de madrugada, era comum encontrar no pátio pessoas que poucas horas depois iriam abrir o Mercado da Ribeira. Na plateia, os nomes que definiam a cultura portuguesa da época: Miguel Esteves Cardoso, Eduardo Prado Coelho, Pedro Cabrita Reis, Rodrigo Leão... Os Ena Pá 2000 começaram numa dessas festas. Num balanço feito ao jornal SOL em 2013, Hernâni Miguel disse que até aí nada em Lisboa estava aberto até às seis ou sete da manhã.
Nesse mesmo circuito, mas com a sua própria cadência, a vida africana tinha outros endereços. O Lontra existia desde 1976, na Rua de São Bento. O Kudissanga e o Kandando - as casas onde Cabé operava desde que chegou a Lisboa - eram os pontos de encontro de uma comunidade angolana que não precisava de se misturar com o Bairro Alto para existir. Era aqui que Paulo Flores, que vivia em Lisboa mas passava as férias em Angola com o pai, aprendia a reconhecer a música que um dia haveria de fazer. "Levava-o às festas onde eu tocava", disse Cabé, em entrevista publicada na Buala. "Isso ajudou nas suas composições e letras." A amizade entre Cabé e Bonga era suficientemente velha para que, anos mais tarde, fosse Bonga a apadrinhar o primeiro disco do filho.
“Nenhum de nós três teve a pretensão do fato e da gravata, mas sabemos que contribuímos imenso para uma Lisboa menos racista e mais tolerante”
Hernâni Miguel
O percurso de cada um depois das Noites Longas foi fiel ao que já eram. Zé da Guiné abriu o Be Bop, no Bairro Alto, dedicado ao jazz. Morreu a 1 de novembro de 2013, com esclerose lateral amiotrófica, com o desejo de ser sepultado na Guiné-Bissau. O documentário Zé da Guiné - Crónica de Um Africano em Lisboa, realizado por José Manuel S. Lopes, ficou como registo. Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre ele: "Criou ambientes e criou mentalidades. Abriu caminhos e diversões. A noite de Lisboa era fechada, triste, mesquinha e clandestina antes do Zé e do Manuel Reis."
Hernâni Miguel não saiu da noite, reinventou-se dentro dela. Nos anos 90, co-concebeu o Rapública com Tiago Faden, da Sony Music Portugal, a primeira compilação de rap editada em Portugal, em 1994. Nos anos que se seguiram, foi manager de Da Weasel, Boss AC, Black Company, entre outros. Anos mais tarde, abriu o Tabernáculo, na Rua de São Paulo, no Cais do Sodré. Em junho de 2025, pela Associação Bokamundo, organizou a primeira edição do Festival Mamã África, no Cinema São Jorge e no Capitólio, em co-produção com a EGEAC. "Nenhum de nós três teve a pretensão do fato e da gravata, mas sabemos que contribuímos imenso para uma Lisboa menos racista e mais tolerante", disse ao SOL em 2013.
Cabé morreu por volta de 2011, com 68 anos. "É um vazio que fica", disse Paulo Flores em entrevista à Rede Angola, em 2014, "mas o que tento fazer é agarrar-me às memórias." Dois anos após a sua morte, Paulo Flores gravou O País que Nasceu Meu Pai, um álbum inteiro em sua homenagem.
Vale a pena nomear uma distinção antes de avançar. Zé da Guiné, Hernâni Miguel e Cabé não construíram espaços africanos, construíram espaços de mistura. O seu mérito, e também a sua singularidade, estava exatamente nisso: em tornarem possível um encontro que a cidade não estava preparada para fazer por conta própria. Os espaços que vieram antes e depois - o Monte Cara, o Lontra, o Kandando, o Kudissanga, o Mussulo, o Luanda, o Ondeando, o B.Leza - tinham uma lógica diferente, mais funda e mais comunitária. São o tema do episódio seguinte.
Esta web-série conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal, Many Takes e Hausdown.y, que escrevemos aqui ser uma viajem musical eclética, entre o passado e o presente, que comporta elementos das suas origens, como o Batuco [batuque] de Cabo Verde, misturando a Kizomba de Angola e os internacionalizados Pop, Zouk, e Worldbeat. Nesta mistura sonora homogeneamente perfeita, o elo de ligação é o afrobeat das terras de Wizkid e Burna Boy.
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