Lisboa Africana #14: Sons d’África e o legado de Zé Orlando

June 23, 2026
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Zé Orlando | Imagens melhoradas com recursos de IA

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O número 53 da Estrada Militar, na Damaia, foi durante anos um ponto de encontro para os amantes de música africana, para os entusiastas que compravam CDs, para artistas e produtores. Foi lá que Orlando Lima Pires, também conhecido como Zé Orlando, estabeleceu a Sons d'África, considerada uma das editoras de referência da música africana lusófona em Portugal. Foram mais de três décadas de atividade, traduzidas num espólio "impossível de calcular" e num legado que os filhos, Roberto (Beto) e Wilson (conhecido no mundo da música como Wilsoldiers), agora recuperam.


A título póstumo, o 14.º episódio da série Lisboa Africana é uma homenagem ao legado que deixou, feito pelo olhar dos filhos, que concederam esta entrevista à BANTUMEN.


Falar daquilo que Zé Orlando deixou obriga-nos a recuar algumas décadas e a recuperar aspetos de alguém cuja vida e obra se dividiu entre a construção civil, a música e a crença de que mais do que produzir, é importante criar instrumentos para garantir que a obra, seja ela qual for, não se perde. Orlando Lima Pires nasceu em São Tomé e Príncipe em 1961, filho de pais cabo-verdianos. Cresceu em Cabo Verde até 1975, o ano da independência do arquipélago, quando o mapa político do Atlântico se redesenhava e milhares de famílias refizeram a vida em Lisboa. Entre elas estava a sua. Instalado nas Fontainhas, nos arredores da capital, juntou-se a outros rapazes nascidos em São Tomé para formar os Jovens Africanos, onde cantava e tocava bateria. Mais tarde passou pelo Cretcheu e pelo Contratempo, no Cacém, já como vocalista. Gravou a solo. Lançou um LP. Participou em discos coletivos com Pedro Ramos e Zezé Barbosa. Durante anos, foi músico e foi precisamente essa vida, com as suas margens e brechas, que lhe mostrou o que faltava.


Enquanto cantava, trabalhava na Edifer, à data, uma das maiores construtoras do país, responsável pela construção do complexo Alvalade XXI para o Euro 2004. Fez parte da primeira geração de imigrantes, maioritariamente vindos das antigas colónias, que ajudaram a levantar o país através da construção, mas o seu interesse sempre foi outro. E, quando sobrava tempo, aproveitava os intervalos para vender cassetes na Praça de Espanha, na Praça do Comércio, no Rossio. Foi nessa circulação entre bairros e praças que percebeu, com o olho para o negócio que os filhos lhe reconhecem, que a música africana tinha em Lisboa uma procura real e uma oferta dispersa: chegava por canais informais, passava de mão em mão, mas ninguém a organizava, ninguém lhe dava casa. E que havia dinheiro nisso. As cassetes foram rendendo mais do que as obras, até ao ponto em que o adiantamento semanal do patrão - o "vale", como lhe chamavam - deixou de fazer falta. "Já não precisava do vale", conta Beto. O próprio patrão, acrescenta, foi um dos seus impulsionadores e incentivou-o a seguir o sonho. Estava dado o pontapé inicial de uma jornada que se estenderia para lá do seu fundador e que transformaria o sonho em obra quantificável, visível (e para muitos, indiscutível). 

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DR

Juntou-se a um amigo dono de um pequeno estúdio e foi levando músicos para gravar. Estabeleceu relações com pessoas ligadas à música cabo-verdiana instaladas na Holanda, abrindo circuitos que iam além de Lisboa. Entre os primeiros trabalhos que distribuiu estavam Rosinha, dos Livity, e Bia de Lulutcha, de Cesária Évora. “Com o dinheiro que ia ganhando, comecei a reeditar alguns discos e assim tornei-me editor”, contou em entrevista a Vladimir Monteiro, publicada no musicadecaboverde.com. 


Em 1988 nascia a Sons d'África, fruto da vontade de Zé Orlando de contribuir para o desenvolvimento e a divulgação da música africana, no mercado nacional e internacional, e daquilo que Beto descreve como  a junção da "fome com a vontade de comer." Nos primeiros discos, as capas traziam as iniciais ZO, numa relação direta ao nome do fundador; depois passou a ler-se Zé Orlando/Sons d'África e mais tarde, em 2002, simplesmente, Sons d'África. O nome do homem foi-se tornando, aos poucos, o nome do lugar. Associado ao estúdio Gravisom, Zé Orlando captou a geração que então despontava nos países africanos de língua portuguesa: Eduardo Paim, Ruca Van Dunem e Justino Delgado tiveram nele os primeiros trabalhos editados. Trabalhou igualmente com artistas como Gil & The Perfects, Luís Morais e Tito Paris. A rede cresceu para pontos de venda na Sucupira, em Cabo Verde, para distribuidores na Europa, para Angola, São Tomé e Moçambique.  "Nós éramos o YouTube", diz Wilson e a comparação vem do facto de, durante anos, a Sons d'África ter sido o principal canal de distribuição sistemática de música africana lusófona em Portugal, muito antes de qualquer plataforma de streaming existir.


A loja, dividida em dois pisos, era parte de uma engrenagem familiar. "Era um sonho. Era tudo muito bom", diz Beto. "Tenho saudades não só pelo facto do meu pai não estar, mas porque tudo o que envolvia a Sons d'África, na altura, era uma dinâmica boa." Na equipa que sustentou tudo isso estiveram, ao longo dos anos, Mário - irmão de Zé Orlando e tio de Beto e Wilson -, DJ Beleza e outros funcionários. Chegaram a ser oito em simultâneo, repartidos entre quem fazia entregas, quem recebia mercadoria, quem estava na receção. Havia ainda um departamento inteiro a ouvir as maquetes que chegavam todos os dias vindas de todo o lado. Na parte de cima, Beto e a mãe, asseguravam a frente de loja. Na parte de baixo, Wilsoldiers assegurava a parte audiovisual - algo que fazia para a empresa e em nome próprio. Era também lá que ficavam as salas de produção, o escritório de Zé Orlando e o armazém que hoje guarda grande parte do espólio da produtora, desde obras editadas a obras compradas.


O pai, conforme contam, teve sempre uma preocupação que ia além do lançamento de nomes novos: a de que a música mais velha desaparecesse sem deixar rasto. Através da série Sodade, foi recuperando LP das décadas de 1970 e 1980 que de outro modo se teriam perdido, comprando catálogo de outras editoras para que nada ficasse esquecido. Questionava várias vezes “será que as pessoas vão dar continuidade? O que é que vai acontecer?” Numa das suas raras entrevistas públicas, concedida a Vladimir Monteiro, deixou evidente essa preocupação ao assumir que “a música africana é descartável porque passados três meses, acaba o tempo de vida de um CD”. A resposta que encontrou foi continuar a acumular, a preservar, a comprar catálogos de outras editoras para revender, mas também para que continuassem a existir após o fim dos ciclos. Hoje não sabem dizer ao certo quantos discos foram editados ao longo de três décadas. O acervo, dizem, é impossível de calcular.


Visto pelos próprios filhos como "um furacão", Orlando era um homem exigente que nunca se coibiu de mostrar quando algo não estava do seu agrado. Destro, presente, exigente com os filhos, com os colaboradores, com os artistas que vinham com maquetes, com a mesma medida para todos. Quando entrava bem-disposto, a sala toda animava, incluindo quem já tivesse o dia torto. Quando não estava, toda a gente sabia, sem que fosse preciso dizer. Ao final do dia saíam juntos para lanchar, e na manhã seguinte estavam de volta dispostos a dar cem por cento. A loja era uma empresa familiar com uma cultura particular de relação com quem chegava: “Víamos os nossos clientes também como amigos”, diz Beto. “Foi sempre fácil fazer esta gestão e as pessoas que não se enquadravam acabaram por sair.” Era, segundo a vizinhança local, uma figura carismática, fácil de gostar e a quem não se conhecem publicamente desavenças. Questionado se a exigência era uma forma de preparar os filhos para um dia em que ele não estivesse, Beto responde sem hesitar que não. Encara-a antes como algo inerente à figura do pai: "Acho que isso era a essência dele. Ele dava tudo em tudo o que se envolvia”, e acrescenta que, mesmo sendo o mais velho, nem sempre se deu conta daquilo que o pai estava a construir. Foi uma noção construída ao longo do tempo e à medida que os dois nomes - o pai e o da loja - se foram tornando indissociáveis. Era comum referirem-se ao pai como “O Zé Orlando, da Sons d’África” ou a “Sons d’África, do Zé Orlando”. 

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Zé Orlando | Imagens melhoradas com recursos de IA

O critério para o que entrava na editora era definido por Zé e a liturgia era sempre a mesma: tinha que ser agradável ao ouvido e ter qualidade. Quando artistas chegavam com maquetes, muitas vezes pedia para que tocassem a música no primeiro andar, de forma a que pudesse ouvir do escritório. Recordam, a propósito, um caso que ficou na memória de todos: um artista apareceu com um álbum finalizado, a música correu no piso de cima, e a resposta chegou de baixo sem hesitação: “Olha, se é isso que eu estou a ouvir aí em cima, não tenho interesse.” No seu entender, o álbum não tinha qualidade, mas meses depois, explodiu. A loja acabou por ligar ao artista, negociar, conseguir pôr o disco à venda. Era “o olho para o negócio” aplicado na prática: Beto e Wilson recordam alguém que sempre soube olhar para o mercado e entender o que era preciso, mesmo que isso significasse, por vezes, abdicar das próprias convicções.


Zé Orlando morreu em março de 2023, no Hospital Fernando da Fonseca, na Amadora. Tinha 61 anos. A Tumbao, que comunicou a notícia à Lusa, chamou-lhe “um carácter raro”. Nos dias que se seguiram, a família recebeu os amigos no espaço da Sons d'África, antes do velório na Igreja da Damaia e do funeral no cemitério da mesma freguesia.


O que fica e o que muda depois da morte de um pai? Beto não esconde um “vazio”, mas ao mesmo tempo recorda a frase inscrita na lápide do pai - “uma parte de ti fica connosco” - para agarrar-se ao futuro e ao legado que agora tem em mãos: "O que ficou é o legado dele, é tudo aquilo que ele construiu, e é a responsabilidade que nós temos." Wilsoldiers, por outro lado, fala de “orgulho” e de “uns sapatos difíceis de preencher. Ele era único.” Em agosto de 2025, numa entrevista à BANTUMEN sobre a sua própria editora, a Soldiers Music Group, foi-lhe perguntado onde a via daqui a cinco anos. Respondeu que como uma editora de referência na lusofonia e no mundo, sólida, respeitada, com impacto cultural, “seguindo o legado da Sons d'África.” Para ambos, ser filho de Zé Orlando, diz Beto, "é um orgulho e uma responsabilidade. Nada mais do que isso."


A loja, apesar dos rumores que circularam, nunca esteve para venda, e Wilson e Beto preparam agora uma reformulação do espaço - adaptada às necessidades do mercado - como forma de manter viva a herança do pai, até porque desfazerem-se da loja “nunca foi uma possibilidade.” A parte de cima vai ser uma Sons d’Africa mais atual, mas onde se vão manter os princípios da base fundacional. Além do lado comercial, será também um espaço para receber clientes e amigos, tornando-se num ponto de passagem e encontro, pensado para funcionar como um espaço de referência cultural. O espólio acumulado ao longo de quase quatro décadas vai ser reorganizado: a porta aberta de segunda a sábado dará lugar a um sistema por marcação, mais ajustado à procura atual, que dizem existir mesmo quando a loja está fechada. O plano passa por reeditar parte do catálogo que já não está disponível e apostar em novos artistas. Uma compilação digital de todo o acervo poderia ser uma hipótese, mas esbarra, porém, num obstáculo: a Sons d'África não detém os direitos de reprodução de tudo o que alguma vez vendeu em suporte físico, o que deixa uma parte da memória sonora que Zé Orlando passou a vida a construir presa num formato que o tempo vai tornando inacessível.


Foi no andar de baixo da loja que decorreu a entrevista e é lá, a poucos metros, que se situam o escritório e a cadeira de Zé Orlando. É um lugar que Beto agora ocupa de olhos postos no futuro. Em cima, a loja onde durante décadas os CDs se alinhavam e os artistas chegavam com maquetes debaixo do braço está sem atividade. É neste espaço suspenso - entre o que foi e o que vai ser - que Beto e Wilson recebem esta conversa sobre o pai. Questionados sobre como acham que ele olharia para o que estão a fazer agora, respondem “com exigência. Obviamente que ele não está satisfeito. Mas está orgulhoso."


Esta web-série conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal, Many Takes e Hausdown.

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