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O bué entrou no dicionário em 2001. A Academia das Ciências de Lisboa registou-o no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea como calão, de uso informal, com o significado equivalente ao francês beaucoup - muito de alguma coisa, bastante de qualquer coisa. O registo foi tardio: a palavra tinha décadas de vida ativa em Lisboa antes disso, enraizada nos recreios e nas ruas da Amadora e do Cacém e da Damaia, espalhada por gerações que cresceram no contacto entre angolanos e portugueses depois de 1975. Ficou. Ficaram também bazar - partir, desaparecer -, ya (pronunciado iá), o kota para o mais velho que merece respeito, a garina para a rapariga. Termos do calão de Luanda que Lisboa foi absorvendo sem cerimónia e sem reconhecer, na maioria dos casos, a sua origem.
Quando a linguista Clotilde Almeida, da Faculdade de Letras de Lisboa, começou a estudar o fenómeno do bué, em 2004, a palavra estava por toda a parte nos jovens dos bairros suburbanos e começava a alargar-se. Em 2015 continuava viva e generalizada. O que ela notou foi que a transferência tinha acontecido precisamente nos sítios onde angolanos e portugueses cresceram juntos, nas escolas das periferias da capital, no convívio quotidiano. A língua muda onde as pessoas se misturam. E Lisboa misturou-se, a partir de 1975, com uma intensidade que deixou marcas na própria fala da cidade. O caçula - filho mais novo - vem do Kimbundu kazuli e chegou antes, há séculos, tão integrado que poucos reconhecem a sua origem bantu. A sedimentação é assim: palavras que entram por uma porta, ficam, e a porta fecha-se atrás delas. A cidade fala-as sem saber de onde vieram.
A língua africana mais audível em Lisboa não é, porém, o calão de Luanda nem o kimbundu diluído em termos que entraram no português corrente. É o crioulo, - o cabo-verdiano e o guineense, ouvidos nas ruas, nos mercados, nos transportes públicos, nas conversas de quem cresceu nos bairros da Grande Lisboa onde Cabo Verde e Guiné-Bissau se instalaram. Há cerca de 25 000 cabo-verdianos e 14 000 guineenses na área de Lisboa, sem contar os seus descendentes. Em algumas zonas da cidade, o crioulo disputa com o português a posição de língua principal. Não há dados oficiais - Portugal não reconhece o crioulo como língua nas matrículas escolares -, mas o professor de crioulo guineense Abdelaziz Vera-Cruz afirma que é difícil encontrar hoje um adolescente lisboeta que não saiba uma ou outra expressão de crioulo, ou que não queira aprender.
A jornalista Karyna Gomes, que liderou o primeiro projeto de jornalismo em crioulo na imprensa portuguesa, escreveu em 2021 que o crioulo está em Lisboa "há séculos”, nas músicas, nas ruas, na memória de uma presença que precede qualquer vaga de imigração contemporânea. O músico Dino D'Santiago, filho de cabo-verdianos nascido em Quarteira, descobriu o crioulo e a sua africanidade em Lisboa, e fundou o projeto Lisboa Criola a partir dessa descoberta. Para ele, a língua funciona como a língua franca da amizade e do sentimento de pertença entre comunidades africanas da cidade e não apenas entre elas. Tony Tcheca, guineense que cresceu na época colonial, conta que em Lisboa as brincadeiras com filhos de portugueses aconteciam em crioulo. A língua atravessava a fronteira que a escola tentava manter.
A escola tentava manter a fronteira porque o crioulo foi, durante séculos, uma língua a reprimir. O sistema colonial português proibiu o seu uso nas escolas cabo-verdianas, onde se pretendia instalar o português como única língua legítima. Foi chamado de "português mal falado", quando muito um dialeto, raramente uma língua com direito a esse nome. A geração de cabo-verdianos nascida em Lisboa nos anos 1940 cresceu sem falá-lo: as mães não ensinavam o crioulo aos filhos porque a escola não o permitia, e o peso da assimilação era mais forte do que o da transmissão. Nos anos seguintes, e de forma crescente depois da independência de Cabo Verde em 1975, os descendentes dessa geração foram à procura do que os pais tinham deixado cair. A Associação Caboverdeana de Lisboa oferece cursos de crioulo. A Universidade Nova de Lisboa ensina-o.
O regresso ao crioulo tem uma dimensão que a língua apenas torna visível. Para os cabo-verdianos, a língua constrói o imaginário da nação e da identidade, é a língua da oralidade e da informalidade que narra a história e compõe as músicas. Mário Lúcio Sousa, ex-ministro da Cultura de Cabo Verde, músico e escritor, argumentou que o crioulo não se define pela cor de quem o fala, mas pelo percurso que formou a sociedade que o criou. E que Lisboa, crioula antes de qualquer outra cidade europeia, já carrega isso na sua constituição mais funda.
No século XVI, Lisboa era uma das cidades com maior proporção de população africana da Europa. Estima-se que nos séculos XVI e XVII viviam na capital cerca de dez mil pessoas negras escravizadas, chegadas como consequência direta da expansão iniciada em 1441. Falavam português de uma forma que a cidade notou e registou como desvio. A designação era língua de preto, e o registo sobreviveu porque os dramaturgos a usaram como matéria cómica: Gil Vicente em Frágoa d'Amor (1524) e Nau d'Amores, Henrique Mota em O Pranto do Clérigo (1516), e antes disso o Cancioneiro de Resende no século XV. Paul Teyssier estudou essa fala e descreveu-a como tendo "sintaxe infantil e morfologia elementar”, os infinitivos no lugar de todas as formas verbais, as regras de concordância ignoradas. O que a análise de Teyssier descrevia como incapacidade era, noutro enquadramento, uma língua de contacto em formação: dez mil pessoas que aprendiam português enquanto carregavam consigo línguas próprias, a moldarem a cidade sem que a cidade o reconhecesse.
Não se sabe com exatidão como nem onde, porque os registos chegaram-nos pelos textos que os ridicularizavam, não pela sua própria voz. Wilhelm Giese publicou em 1932 na Revista Lusitana as "Notas sobre a fala dos negros em Lisboa no princípio do século XVI" - um trabalho raramente citado, mas que documenta uma presença linguística que a historiografia preferiu ignorar. José Ramos Tinhorão, em “Os Negros em Portugal - Uma Presença Silenciosa” (Caminho, 1988), dedicou parte da investigação às consequências culturais desta presença, incluindo na língua.
A série Lisboa Africana começou numa rua do centro histórico e percorreu quinze episódios à procura dos sinais de uma presença que a cidade guarda sem sempre reconhecer. Encontrou-a em instituições e em bairros de autoconstrução, em manifestos políticos e em palcos de dança, em músicos e em jornalistas e em ativistas, em figuras que a história oficial arquivou nos seus silêncios e em pessoas que estão vivas e a construir. O décimo quinto episódio termina aqui, na língua, que é onde a presença se torna mais difícil de apagar. Os lugares mudam de nome, os edifícios demolem-se, os arquivos dispersam-se. A língua fica.
O bué está em toda a boca de Lisboa. O crioulo soa no metro ao fim da tarde. E algures na fala corrente desta cidade persistem os ecos de dez mil pessoas que chegaram no século XV e moldaram o português que aqui se falava enquanto o aprendiam, numa troca que a história chamou língua de preto e depois preferiu esquecer. Lisboa fala como fala porque foi habitada como foi habitada.
Esta web-série conta com o apoio da Direção Geral das Artes, República Portuguesa, Associação Juvenil Batoto Yetu Portugal, Many Takes e Hausdown.
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