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Muitos artistas passam uma carreira inteira à procura de um propósito. No caso de Lura, esse propósito parece ter estado definido desde o início: levar a música cabo-verdiana cada vez mais longe. Trinta anos depois de ter iniciado um percurso que a transformou numa das vozes mais reconhecidas da lusofonia e da diáspora, continua a falar da carreira como quem cumpre uma responsabilidade, mais do que como quem soma conquistas.
Nos bastidores do Festival MED 2026, durante a conversa com a BANTUMEN, há uma ideia que regressa constantemente: Lura dificilmente fala do seu percurso sem falar de Cabo Verde. É impossível separar a artista da cultura que representa e que, desde o primeiro disco, decidiu levar consigo para todos os palcos onde atua. O regresso ao festival, dez anos depois da última atuação, coincidiu com outro momento marcante da sua carreira: a celebração de três décadas de música. O balanço, diz, só pode ser positivo. "Passou muito depressa, mas continuo a cantar com a mesma paixão e a mesma frescura do início, porque cada vez sou consciente do meu papel nesta divulgação da música e da cultura não só lusófona mas também cabo-verdiana, e da língua portuguesa que faz parte aqui do início da nossa cultura cabo-verdiana", afirma.
Nascida em Lisboa, filha de pais cabo-verdianos, Maria de Lurdes Assunção Pina não imaginava que a música se tornaria no seu caminho. Foi em 1996, com o lançamento de Nha Vida, que tudo começou. O álbum revelou uma voz que rapidamente conquistou espaço na música lusófona e abriu caminho para a carreira construída entre a tradição e a modernidade. Ao longo dos anos, temas como “Na Ri Na”, “Vazulina”, “Sabi di Más” e “Maria Di Lida” passaram a fazer parte do repertório de quem acompanha a artista e ajudaram a apresentar ao mundo os ritmos cabo-verdianos.
“Somos um país tão jovem que, se isto que se criou em 50 anos se perder, perde-se a melhor parte”
Lura

Lura durante o Festival MED 2026| Lura | ©BANTUMEN
Se a morna levou o nome de Cabo Verde para o resto do mundo pela voz de Cesária Évora, Lura tornou-se uma das artistas responsáveis por mostrar uma nova geração da música do arquipélago. Deu ao longo dos anos protagonismo ao batuque, funaná e coladeira, cruzados com influências do zouk, jazz e pop.
Um dos momentos mais decisivos desse percurso aconteceu ao lado de Cesária Évora. Depois de partilhar o palco com a “diva dos pés descalços”, Lura consolidou a sua projeção internacional e, anos mais tarde, gravou com Cesária “Moda Bô”. Em 2004, o álbum Di Korpu Ku Alma reforçou essa afirmação internacional e tornou-se uma das obras mais marcantes da sua discografia. Para Lura, a música nunca foi apenas uma expressão artística. É também um instrumento de preservação da memória e da identidade cabo-verdianas. A cantora acredita que cada morna, batuque, funaná ou coladeira transportam consigo a história de um povo e de um país que, apesar da sua juventude, construiu um património cultural único. "A nossa cultura é, de facto, a nossa identidade, é tudo", afirma. "Somos um país tão jovem que, se isto que se criou em 50 anos se perder, perde-se a melhor parte”. Explicou também que muitas das canções que marcaram a história de Cabo Verde nasceram de movimentos de libertação e continuam a refletir a resiliência e a força do povo cabo-verdiano. Embora reconheça que as novas gerações irão explorar outras linguagens e sonoridades, considera essencial que este legado seja preservado e registado para que continue a inspirar quem vier depois.
Mesmo depois do reconhecimento alcançado ao longo de três décadas, a artista garante que a ambição continua intacta. “Quero continuar a aperfeiçoar e a chegar a mais pessoas com a melhor qualidade possível, para enaltecer e levar a nossa cultura ao melhor nível que eu puder.”
A celebração dos 30 anos trouxe também um reconhecimento especial. Recentemente, a artista foi condecorada com a Medalha de Mérito Grau Ouro, que foi atribuída pelo Município de Oeiras. Descreveu o momento como “emocionante” e como um “grande reconhecimento” que a tocou especialmente por ter sido o concelho onde cresceu. Esse momento fez também com que regressasse às memórias de infância. A pequena Lura reconheceu cedo as dificuldades que ultrapassou na infância, mas isso não a impediu de olhar para além do horizonte e acreditar num futuro que poderia ser diferente daquele que conhecia. “Eu, no fundo, vivendo no bairro, sabia que aquilo não era digno para uma criança. Nenhuma criança merece viver com tão poucas condições. Eu tinha a certeza de que havia melhor no mundo para mim e para todas as crianças que acreditem que podem dar o salto, voar, viajar e sonhar.”
Ao longo da sua carreira, foi precisamente a capacidade de dialogar com diferentes sonoridades que a levou a integrar festivais internacionais e a conquistar públicos muito para além da diáspora cabo-verdiana. Desde a última passagem pelo Festival MED, em 2017, muita coisa mudou. Nesse mesmo ano tornou-se mãe, uma experiência que admite ter transformado profundamente a forma como passou a olhar para o mundo. “A minha consciência sobre tudo o que se passa no mundo e tudo o que se passa à minha volta foi muito maior a partir daí. O cuidado com a criança, com os direitos das crianças, com os direitos humanos em geral passou a um nível elevadíssimo e tornei-me realmente uma mulher muito mais consciente de tudo.”
Mais do que celebrar o caminho percorrido, a artista encara este momento como um incentivo para continuar a crescer. “Quero lançar agora um disco que celebra os 30 anos, um disco especial de celebração. Vou fazer vários eventos dentro desta celebração porque, ao fim ao cabo, é sempre importante celebrarmos e reconhecermos o caminho percorrido”, afirma. Mas a ambição não termina aí. "Quero continuar a aperfeiçoar e a chegar a mais pessoas com a melhor qualidade possível, para enaltecer e levar a nossa cultura ao melhor nível que eu puder.”
É com esse propósito que Lura continua a subir aos palcos 30 anos depois do início da carreira: para continuar a escrever uma história que tem levado a música cabo-verdiana muito para além das ilhas e que, ao que tudo indica, ainda tem muitos capítulos por contar.
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