Marco Medina expõe as suas quedas e o recomeço no álbum “Deus Perdoa”

July 16, 2026
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Marco Medina passou 2024 a perder tudo o que conhecia. As amizades, a relação, o emprego, a casa foram desaparecendo quase sem explicação, num processo que o próprio artista descreve como um deserto emocional prolongado por dois anos. Foi nesse estado que nasceu "Nunca Mais Vou Parar", o single que lança agora e que antecipa Deus Perdoa, o seu terceiro álbum de estúdio, previsto para o segundo semestre de 2026.


"Tive uma depressão profunda no final de 2024", conta o artista, recordando um ano marcado pela perda de pessoas muito próximas. Compôs a canção nesse estado de espírito, quando sentia que só lhe restavam duas saídas possíveis: ou gritava a revolta através da música ou afundava-se de vez. A frase que dá título ao single funcionou como o grito escolhido para seguir em frente.


As noites em que tudo ruía por fora coincidiram com as noites em que a música começou a tomar forma. Marco Medina tinha acabado de aceitar Deus na sua vida quando escreveu as primeiras canções do disco. Sofria de insónias e aproveitava essas horas acordado para compor, fumando entre uma música e outra, num ritual que se repetiu ao longo dos dois anos que separam este trabalho dos anteriores.

Só pode ser cura quem já foi curado

Marco Medina

"Chorei em todas as faixas deste álbum", afirma ao falar sobre o processo de escrita de Deus Perdoa. Chama-lhe um disco inteiramente confessional, um exercício doloroso que via ao mesmo tempo como necessário. Acredita que sem esse mergulho não teria escapado ao estado em que se encontrava, e atribui a virada a um momento concreto: "Deus tirou-me de lá a tempo e sou-lhe profundamente grato."


Dessa travessia nasceu uma forma diferente de encarar o próprio papel enquanto artista. Medina sente hoje uma responsabilidade que não reconhece em quem era há três ou quatro anos, e resume a mudança numa frase que repete como quem encontrou uma bússola: "Só pode ser cura quem já foi curado." Mais importante do que a herança recebida, diz, é o legado que se decide deixar.


O título do álbum que se segue nasce da mesma reflexão. "Deus não tem formato. Não cabe dentro de igrejas", afirma, recordando os anos em que esteve afastado da religião, incomodado com a forma como esta lhe foi apresentada. Hoje prefere procurá-lo nas ruas, entre pessoas em situação de sem-abrigo, dependentes, prostitutas, gente esquecida pelo resto do mundo, um amor que não faz distinções. A mensagem do disco cabe na frase com que ele próprio a resume: "por maiores que sejam os nossos erros, Deus perdoa. Ele é sempre maior do que o erro."


Não cresceu numa família praticante, mas conta que "sempre tive uma enorme sensibilidade para as questões espirituais", ao ponto de compor muitas vezes sem perceber de onde vêm as palavras até as encontrar já escritas. Durante o processo do disco frequentou igrejas evangélicas, igrejas cristãs, terreiros de umbanda e de candomblé, sem que nenhum desses espaços o prendesse a uma religião específica. "Continuo a acreditar que Deus está nas ruas", diz, e é aí que sente a mistura mais bonita entre o sagrado e o quotidiano.


Olhando para trás, consegue traçar uma linha entre este disco e os dois anteriores, Roda Punk Jazz (2022) e Crónicas de Balazac (2023). "O Roda Punk Jazz era o pedido de socorro de um miúdo de 26 anos", diz, reconhecendo à distância que Deus Perdoa já estava a germinar ali, em faixas como "Meia-Noite no Mendagual", onde já havia sinais do caminho que viria a percorrer. "Gosto de pensar que Deus é o realizador do filme das nossas vidas", remata, como quem deixou de acreditar em coincidências.

Deus não tem formato. Não cabe dentro de igrejas

Marco Medina

Nascido em Lisboa, com raízes guineenses e cabo-verdianas, cresceu em vários bairros da Margem Sul no início dos anos 90, entre batizados e casamentos onde tocava kizomba e fins de semana em que o samba e o pagode ecoavam das casas vizinhas. Os pais separaram-se cedo e passou grande parte da infância em casa de outras pessoas. "Sinto que sou o resultado de todas essas misturas", diz, sem que tenham sido escolha sua.


Marco Medina tem uma identidade sonora marcada pela conjugação entre hip hop, neo-jazz e referências afro-brasileiras com a qual lidou muito antes de se tornar músico. Teve tios músicos, e um deles viajava com frequência até ao Senegal para fazer concertos, voltando sempre a par das tendências musicais do momento. Diz ter herdado desse tio o perfeccionismo com que trabalha hoje, e explica a ambição por trás do próprio som: "Quero ter a minha própria estética musical. Quero que me consigam identificar pelo aquilo que escutam sem grande esforço."


Se os dois primeiros álbuns nasceram muito ligados a essas raízes, este exigiu o oposto, uma rutura profunda com aquilo a que chama uma "maldição familiar", um peso que sente atravessar gerações, talvez de muito antes de ele próprio ter nascido. Fala de um momento em que é preciso enterrar o antigo eu para caminhar na direção daquilo que Deus já preparou, um chamamento que obriga a deixar para trás o que era conhecido em troca de uma identidade completamente nova.


A colaboração brasileira dá forma sonora a essa transformação, com destaque para o produtor Lucas Ferreira, conhecido como Planttta, e para Felipe Artioli. Marco Medina fala de Planttta como "um dos grandes responsáveis pela minha evolução musical", lembrando o deslumbramento da primeira vez que o viu trabalhar. Atribui o encontro a Deus, "na hora certa", diz, sem esconder a sorte que sente em tê-lo ao seu lado.


"Nunca Mais Vou Parar" foi escrita num estado de perturbação, mas também de inspiração, e dessa mistura nasceu uma canção cheia de camadas e de duplos sentidos, que o próprio artista prefere não fechar em respostas fáceis. "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça", resume, deixando a cada pessoa a liberdade de tirar as suas próprias conclusões.


Se conseguiu sair do fundo do poço, Marco Medina quer que quem o ouvir perceba que também consegue. "Deus tirou-me de uma tristeza profunda e posso garantir que tudo muda quando Ele chega", garante, numa época que continua marcada pela depressão, pelo stress e pela ansiedade. No fim, garante que quer que quem ouve a sua música saiba "o amor que tenho por cada pessoa que está desse lado".

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