1'56"15: Quantas vezes é preciso perder para ganhar? A história de Maria de Lurdes Mutola e do ouro de Sydney

October 23, 2026
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Há corridas que se ganham em menos de dois minutos, mas que levam uma vida inteira a preparar.


Na tarde de 25 de setembro de 2000, quando Maria de Lurdes Mutola saiu para aquecer no Stadium Australia, em Sydney, levava doze anos a tentar ganhar uma corrida de 800 metros. Esta é uma prova à qual alguém, por crueldade, acrescentou uma segunda volta: suficientemente curta para obrigar a correr depressa e suficientemente longa para dar tempo a arrepender-se. Mutola já tinha corrido centenas de provas naquela distância e vencido muitas delas. Mas ainda tinha uma dívida por saldar: conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Como tinha chegado àquela encruzilhada?


Para responder a esta pergunta, é preciso recuar muitos anos, porque o destino que hoje nos parece traçado e inevitável houve um tempo em que ainda estava por escrever. Mutola tinha nascido no bairro de Chamanculo e, em casa, chamavam-lhe Lurdinha. Mesmo ao lado, ficava outro bairro de Maputo que acabaria por ser recordado por razões que não constavam dos planos de quem o construiu: ruas estreitas, telhados de zinco, areia e uma concentração inverosímil de pessoas que viriam a fazer parte da história de Moçambique. O seu nome é Mafalala. Foi nas suas ruas poeirentas que a pequena Lurdinha passou a infância a jogar futebol. Nesses mesmos campos de terra, Eusébio tinha marcado os seus primeiros golos, décadas antes. Mutola era uma das poucas raparigas, talvez a única, que se atrevia a jogar com os rapazes e, como ela própria explicaria muitos anos mais tarde, jogava para ganhar.

"Hoje, os gurus empresariais não se cansam de falar de resiliência, uma palavra horrível e cada vez mais vazia de sentido"

Sergi Pujales

José Craveirinha, outro ilustre morador da Mafalala, viu-a jogar e o olhar do poeta iluminou-se. O seu filho Stélio tinha sido recordista nacional do salto em comprimento, atleta olímpico em Moscovo '80 e treinava no Desportivo de Maputo. Não resisto a escrever a frase perfeita: o poeta descobriu a atleta. O primeiro africano a ganhar o Prémio Camões a abrir caminho à primeira medalhista olímpica da história de Moçambique. O problema foi convencer a interessada.


Os primeiros dias não entusiasmaram Mutola. Assim que começaram os treinos a sério e descobriu que correr sem bola podia ser uma atividade dolorosamente absurda, deixou de aparecer. Passou vários dias em casa a recuperar e voltou ao futebol. Craveirinha foi buscá-la. Há mentores que transformam uma vida ao pronunciarem uma frase memorável; outros têm a virtude, talvez menos cinematográfica, de voltar a aparecer quando o discípulo já decidiu ir-se embora. O poeta insistiu e Lurdinha regressou à pista. Pouco depois, correu os seus primeiros 800 metros e, numa questão de meses, estava em Seul, a integrar a delegação de Moçambique na cerimónia de abertura. Tinha quinze anos. Correu a sua série em 2'04"36, terminando em sétimo lugar. Foi eliminada. Não houve tragédia. Quatro meses antes, mal era atleta e agora sabia que os Jogos Olímpicos existiam. Mas os doze anos que decorreram entre Seul e Sydney não se explicam por si só.


Quando a lógica ditava que iria para Portugal integrar a secção de atletismo do Benfica, o Governo impediu-a e, pouco depois, surgiu uma bolsa do programa de Solidariedade Olímpica do COI. Em março de 1991, Mutola voou para os Estados Unidos. O destino foi Springfield, no Oregon, mesmo ao lado de Eugene. Do Índico às portas do Pacífico.


Eugene é uma cidade de chuva miudinha onde correr é uma religião com o seu calendário litúrgico. É lá que fica Hayward Field, a catedral. Foi lá que Bill Bowerman, treinador universitário, revolucionou o calçado desportivo e fundou, junto com Phil Knight, a empresa Nike. E foi em Eugene que aterrou uma adolescente a cerca de dezassete mil quilómetros de Maputo, sem saber uma palavra de inglês e com uma ideia ingénua dos Estados Unidos, tirada de uns vídeos de Nova Iorque. Mas Eugene não se parecia com Manhattan. No primeiro dia chovia, estava frio e saiu para correr com Andrew Hunt, da equipa da escola secundária, sem luvas: em Maputo nunca tinha precisado delas. Das suas mãos, contaria Hunt, saía vapor. Passou meses a querer voltar para casa.

No ano seguinte, viriam os Jogos Olímpicos de Barcelona, onde Mutola terminou em quinto lugar.


Depois, o estrelato. Em 1993, ganhou o Mundial. Em 1994, alcançou em Zurique a melhor marca da sua carreira. Em 1996, chegou aos Jogos Olímpicos de Atlanta depois de cinquenta finais consecutivas de 800 metros sem perder. Mas, no dia mais importante, não ganhou. Ficou em terceiro lugar. Mais tarde soube-se que estava com gripe, mas na alta competição não há desculpas que valham. A primeira medalha olímpica de Moçambique era, aos olhos do grande público, uma fita histórica e uma derrota sem atenuantes, uma ferida aberta no coração.

"Até as melhores atletas sentem a tentação de sucumbir ao fracasso, de abandonar tudo"

Sergi Pujales

Até as melhores atletas sentem a tentação de sucumbir ao fracasso, de abandonar tudo. Afinal de contas, de que serviu todo aquele esforço? Hoje, os gurus empresariais não se cansam de falar de resiliência, uma palavra horrível e cada vez mais vazia de sentido. Porque o que foi verdadeiramente decisivo talvez tenha acontecido no dia seguinte à final de Atlanta, ou no treino seguinte, ou durante a enésima conversa com a sua treinadora, ou no momento em que Mutola voltou a fazer aquilo que tinha feito durante anos, sem qualquer garantia de que o resultado fosse mudar. Ou talvez nunca tenha acontecido nada de decisivo. Simplesmente, Mutola teria de esperar mais quatro anos para dar duas voltas inesquecíveis ao Stadium Australia.


25 de setembro de 2000. A checa Helena Fuchsová lidera durante toda a primeira volta. Passa os primeiros quatrocentos metros em 55"04, um ritmo que é um suicídio anunciado. Mutola segue em quarto lugar. Falta uma volta. O cronómetro ditará a sentença, mas o tempo já não avança numa única direção, anda para a frente e para trás, como a vida, porque as atletas contornam a curva e percorrem a reta oposta, agrupando-se antes de chegarem à última curva. Kelly Holmes, futura companheira de casa de Mutola, lança um ataque que apenas lhe servirá para terminar em terceiro lugar e plantar a semente da conquista, quatro anos mais tarde, da medalha de ouro em Atenas. Fuchsová cede. Mutola e Stephanie Graf resistem. Nós já sabemos quem vai ganhar. Mutola aproxima-se de Holmes, mas já não corre para a frente, corre para trás, recuperando o tempo perdido, volta a correr os 800 metros de Atlanta com gripe, procura a saída do labirinto dos doze anos de treinos, o vapor a sair das mãos em Eugene, os campos de terra da Mafalala, o futebol —o seu primeiro amor— ao qual regressará quando se retirar do atletismo depois de Pequim, a menina que marca o golo decisivo e corre a festejá-lo, e ao fundo a linha de chegada. Reta final. Faltam cinquenta metros. ­Lurdinha resolveu o enigma e volta a correr para a frente. Assume a liderança. O cronómetro avança implacável desde o tiro de partida, um cinquenta e três, um cinquenta e quatro, um cinquenta e cinco, finalmente Mutola!, gritam os comentadores na televisão. O tempo vai parar. 1'56"15. Mutola conquista uma medalha de ouro eterna, uma medalha de ouro para todas as meninas da Mafalala, de Chamanculo, de Anchilo, para todas as que existiram e as que hão de existir, para todas as jovens atletas africanas que ajudará, depois de se retirar, através da sua fundação. O talento está escondido em qualquer lugar do mundo. Só temos de olhar para ele, como fez Craveirinha, e dar-lhes a oportunidade de nunca deixarem de correr.

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