Por que a minha história na universidade pública me faz defender o voto em Lula

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Falar sobre a experiência de ser uma mulher negra no Sul do Brasil, na Europa e ao longo da diáspora lusófona exige romper com o silêncio confortável das narrativas abstratas e colocar o próprio corpo no centro da escrita. Nasci no extremo norte, ou, como o poeta Eliakin Rufino afirma, no noroeste do Brasil, acima da linha do Equador, em Boa Vista, Roraima. Minha trajetória de vida foi precocemente atravessada pelas dores do deslocamento forçado: a necessidade de fugir de uma realidade devastadora de violência doméstica, racismo e perseguição patrimonial que afetava diretamente minha mãe, minha vó e os três irmãos mais novos (na época, dois eram bebês meninos e duas crianças meninas, contando comigo). A violência que sofríamos trazia marcas profundas de gênero e raça, em que discursos depreciativos e agressões físicas buscavam negar a nossa condição humana e reduzir mulheres negras a corpos descartáveis, neste caso, em grande parte, o corpo da minha mãe, mulher negra moradora do Jardim Equatorial, a 14 km do centro da cidade, o bairro onde passamos o início desse pesadelo violento e sem apoio algum dos governantes e políticos do Estado. Roraima é o maior estado que vota na família Bolsonaro e sempre foi governado pela direita - antes e depois da ditadura, até os dias de hoje -, está entre os piores índices educacionais do Brasil e tem a maior taxa de feminicídio do país, ainda em 2026. Registrou a maior taxa do país pelo 5º ano consecutivo em 2025, com 1.173,5 casos a cada 100 mil mulheres. É... poderíamos ter sido mortas, e eu vi uma vala sendo cavada no nosso quintal para isso. Tudo começou em 1998; nos igarapés ainda era possível tomar banho. Já hoje, em 2026, com a devastação do meio ambiente dada por governos de direita que fazem péssima gestão do Estado, é impossível de se aproximar ou entrar para um igarapé daquele bairro. Lembro-me de que lá era nosso último refúgio antes de tudo se tornar um pesadelo. O povo, as mulheres, os idosos nunca foram prioridades nos interesses dos governantes de direita em Roraima.


Das tentativas de refúgio em casas de madeira na periferia de Roraima à travessia da Amazônia de barco e ônibus rumo ao Estado do Ceará, Fortaleza - terra de minha avó Rita Januário, que já tinha feito o caminho reverso também no contexto de violência contra mulher negra/indígena na mesma tentativa de salvar sua vida, vindo de Redenção, a primeira cidade brasileira a abolir formalmente a escravização em 1887 -, vivi na pele a continuidade histórica do cativeiro e abandono do Estado por completo. Ao longo da infância e da juventude, entre trabalhos precários –  vendendo pão de bicicleta, coletando recicláveis como latas de alumínio, como cuidadora de veículos em feira, trabalhando em padarias e sendo acolhida por famílias onde o preconceito velado e explícito me reservava o papel de "crioula" e servente doméstica –, experimentei as "imagens de controle" impostas à mulher negra no Brasil (Nascimento, 2022). É o dispositivo histórico de dominação que busca fixar os corpos negros no lugar do trabalho braçal, do afeto negado e da servidão. Meu cabelo era motivo de piada; era cabelo de crioula, minha cor também.


Foi ao migrar para Manaus e, posteriormente, para São Paulo e, por fim, Curitiba - onde pude finalmente acessar uma educação básica de qualidade, concluí o ensino técnico em áudio e vídeo no Colégio Estadual do Paraná e prestei o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) por cinco vezes consecutivas entre Manaus e São Paulo - onde consegui entrar na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, em Curitiba, para estudar bacharelado em Comunicação Organizacional. Eu seria a primeira da minha família materna a ter uma formação acadêmica, e isso ainda sem saber que era consequência de uma grande luta coletiva para garantir a pessoas como eu esse acesso inédito.

“A virada de chave no combate à exclusão educacional na minha vida e na de milhares de brasileiros consolidou-se com a ascensão dos governos federais de esquerda”

Maíra Januário Cabral

A minha entrada na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) em 2015, no curso de Comunicação Organizacional, me trouxe uma perspectiva crítica sobre a história do Brasil. Eu nunca havia acessado nada igual e, anteriormente, lá em Roraima, me foi ensinado sobre uma invasão passiva do nosso território brasileiro, sem a barbárie que foi o crime que deixou milhares de africanos e indígenas mortos e tratados como objetos de compra e venda, como foi a colonização portuguesa por aqui. Compreendi essa história que nunca foi um conto de fadas, aprendendo que os Movimentos Sociais e entidades como o Instituto Mulher Negra – Geledés, a Educafro, o Movimento Negro Unificado (MNU), entre outras, foram responsáveis pela existência das leis e políticas públicas educacionais atuais, que legitimam e impulsionam a inclusão com igualdade nos espaços de produção de conhecimento. Aprendi que liderança teórica e militante de intelectuais como Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Abdias do Nascimento entre outros grandes nomes tensionaram o Estado brasileiro a reconhecer a dívida histórica da escravização e do racismo estrutural. Conheci o trabalho dessas pessoas e, no último ano, aproximei minha leitura dessas importantes camaradas cientistas brasileiras, em especial a filósofa e fundadora do Geledés, Sueli Carneiro. Mulher negra brasileira militante que desempenhou papel intelectual e político central na formulação e defesa dessa reparação histórica na educação e em muitas outras áreas sociais do nosso país, como, por exemplo, pelo fim da violência contra a mulher, mazela que, apesar dessas lutas contra-hegemônicas, segue deixando milhares de vítimas e sequelas na nossa sociedade.


A virada de chave no combate à exclusão educacional na minha vida e na de milhares de brasileiros e imigrantes que vivem no país consolidou-se com a ascensão dos governos federais de esquerda. Logo no início do seu primeiro mandato, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 10.639/03, tornando obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas públicas, estabelecendo o Dia da Consciência Negra no calendário nacional - um marco importante na disputa de narrativas contra a amnésia colonial, que acontece ao contarem a história como se tivesse sido tudo um mar de rosas ou de cravos, se é que os portugueses me entendem. Já em 2012, no governo de Dilma Rousseff, a promulgação da Lei de Cotas Raciais e Sociais (Lei nº 12.711/2012), combinada com a expansão das universidades federais (REUNI) e com a consolidação do Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), democratizou de forma mais ampla o acesso e permanência até a conclusão do ensino superior no Brasil, principalmente para quem mais precisava acessar esse espaço, dos quais foram historicamente alienados. As oportunidades de bolsas de estudo, auxílio-permanência e projetos de iniciação cientifica e extensão com a sociedade garantiram a moradia, alimentação e transporte, e depois nós, como estudantes e pesquisadores, realizamos a distribuição do conhecimento através desses projetos para a sociedade, como o fiz na pandemia com o projeto Perifa Consciente – um projeto de comunicação que colaborou junto às lideranças comunitárias na divulgação de informações sobre a prevenção do COVID-19 nas favelas de Curitiba. Nosso retorno mais bonito de todas essas lutas sobre o acesso à educação é compartilhar o conhecimento com a sociedade, chegar à formação e lutar para garantir a diplomação de milhares de pessoas nas graduações e pós-graduações públicas federais, gratuitas e de qualidade brasileiras.

“A educação pública é um meio pelo qual garantimos a dignidade que foi negada ao longo da história”

Maíra Januário Cabral

Outro ponto forte e importante a ser lembrado é a ampliação da cooperação Sul-Sul e o fortalecimento do diálogo com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Fiz muitas amigas e amigos africanos, que vieram estudar e trabalhar no Brasil através de programas de integração acadêmica e convênios internacionais de graduação e pós-graduação, criados no governo de esquerda - a exemplo do Programa de Estudantes-Convênio (PEC-G e PEC-PG) e da criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) -, as universidades brasileiras tornaram-se polos de acolhimento e intercâmbio para jovens estudantes e imigrantes africanos vindos de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.


Nas salas de aula das universidades federais brasileiras, o encontro entre o povo pobre, negro, indígena e os estudantes vindos do continente africano reconfigurou o sistema acadêmico que somente era de acesso aos brancos e aos descendentes de europeus. A rota África-Brasil que no ano de 1500 até um século atrás era rota do tráfico humano negreiro, hoje se reconfigura para ser uma rota aonde vem para um território livre, para finalmente existir a partir da sua vivência junto ao povo, trazem trocas intelectuais, força de trabalho intelectual, e garantem experiências diversas com trocas enriquecidas com coletividade, cultura e afeto. A presença de imigrantes e estudantes angolanos, cabo-verdianos e guineenses enriquece os debates sobre diversas temáticas científicas durante nossos desenvolvimentos de trabalho e investigação/pesquisa.


Ao ocupar esses espaços com essa grande diversidade, já que 56% da população brasileira é negra (pretos e pardos), a comunidade acadêmica precisa refletir essa realidade e reconhecer os saberes tradicionais, as expressões estéticas e a densidade teórica da África, dos povos originários e de sua diáspora. Essa convivência transnacional fortalece nossas redes de solidariedade e gera cientistas, comunicadores e educadores populares que hoje atuam diretamente no desenvolvimento do Brasil e de seus países de origem. Conforme resgatado pela professora Bárbara Carine no evento Pretas Acadêmicas UNESPAR, Curitiba, 2026, ao evocar o pensamento ancestral de Maria Felipa: "Se foi através da intelectualidade que retiraram a humanidade das pessoas negras, é através dela que a devolveremos". A educação pública é um meio pelo qual garantimos a dignidade que lhe foi negada ao longo da história. Por essa razão, cientistas e a sociedade, em toda a comunidade da diáspora lusófona, devem afirmar o compromisso ético e científico de seguir produzindo uma comunicação soberana, afetuosa e libertadora, como compromisso da continuidade dessa luta por educação para todos. A nossa existência intelectual, seja na formação universitária ou nas ruas, de maneira popular, é a prova viva de que a luta teve resultado. E se durante nossa diplomação, pela universidade pública federal gratuita e de qualidade, juramos manter a ética na sociedade, no desempenho do nosso trabalho, estaremos aqui fazendo jus, respeitando e honrando mulheres e homens que lutaram pela educação. Portanto, é questão de honra nesse segundo turno das eleições brasileiras de 2026 elegermos Luís Inácio Lula da Silva, para darmos continuidade às demandas e seguirmos resolvendo o problema do nosso povo. Votar em Lula será defender os projetos e programas que nos fizeram chegar às universidades federais brasileiras.  Devemos recordar e dar valor aos que vieram antes de nós, somos de coletividade e distribuição da nossa fartura. Por essa razão, eu voto em Lula. E finalizo com um verso de Djonga: "Tá pra nascer alguém que faça essa guerra parar de fazer sentido pra mim". Vamos lutar e vencer, camaradas.


Obrigada, Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq).


Artigo escrito originalmente em português do Brasil

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