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O fim de uma relação raramente ocorre quando duas pessoas se afastam. Muitas vezes continua no rancor que sobra, na música que devolve memórias, nas mensagens que quase se enviam e na tentativa de não perder a própria paz. É nesse território instável que Monsta constrói Mal Me Queres, novo EP em que o rapper angolano se afasta da energia combativa que marcou outros momentos do seu percurso para entrar num registo mais íntimo, melódico e emocional.
À primeira escuta, o projeto pode parecer uma incursão por um território romântico. Mas as quatro faixas que compõem o EP apontam para algo mais complexo: cantar uma relação e, ao mesmo tempo, observar as diferentes fases de uma pessoa depois do fim.
Lançado depois de FYNTA, projeto que devolveu Monsta a uma postura mais frontal, Mal Me Queres muda a temperatura. O confronto deixa de estar no centro da sala e passa para dentro. A disputa já não é necessariamente com outro rapper, com a indústria ou com quem duvida. Aqui, a tensão é afetiva, íntima e, muitas vezes, contraditória. Monsta escreve a partir de um lugar onde o orgulho ainda existe, mas já não chega para esconder a ferida.
A faixa-título, com Linne Manuel, abre o EP com a ideia da própria companhia como abrigo. O rapper parte da imagem popular do malmequer, associada ao jogo entre ser ou não ser querido, mas altera-lhe o sentido. O que está em causa não é pedir amor a quem já não o oferece. É escolher melhor quem entra, quem fica e quem tem acesso à paz que se conseguiu construir. Há, nesta primeira faixa, uma recusa da energia errada, do ruído e da presença que desgasta. O amor deixa de ser visto como centro absoluto e passa a ser medido pelo que acrescenta ou retira.
Ao longo da faixa, Monsta fala de afeto, ambição, dinheiro, família, lealdade e maturidade. O crescimento material surge ligado à necessidade de proteção emocional. Como se, depois de tanto movimento, a grande conquista fosse menos a validação externa e mais a capacidade de ficar em paz consigo mesmo.
Em “Revólver”, essa paz ainda não está totalmente conquistada. É a música mais narrativa e teatral do projeto, construída a partir do ressentimento, do humor ácido e da dor que ainda procura uma forma de sair. Monsta encena o rancor de quem tenta seguir em frente, mas continua preso à imagem de quem partiu. A faixa trabalha uma zona desconfortável do pós-amor: aquele momento em que a pessoa já sabe que acabou, mas ainda deseja pequenos castigos simbólicos ao outro. Não por maldade pura, mas porque a ferida ainda não encontrou linguagem mais madura.
À medida que a música avança, o tempo entra como elemento de transformação. A mágoa arrefece, o rancor perde força e aquilo que parecia vingança começa a revelar-se como confissão. “Revólver” é menos uma canção sobre querer ferir alguém e mais sobre reconhecer o perigo de ficar preso ao que nos feriu.
Com “Saudade”, ao lado de Miz Trini, o EP desloca-se para outro espaço: a pista. Mas não uma pista festiva no sentido simples. A música parte da ideia de que certas memórias regressam quando o som toca, sobretudo em contextos de festa, onde o passado pode voltar sem pedir licença.
“Extasy”, novamente com Linne Manuel, fecha o projeto num território atravessado por desejo, recaída e por esse tipo de relação que parece não terminar completamente. Há uma voz feminina inicial que introduz uma tensão importante: querer o outro inteiro, feliz, mas ainda assim desejá-lo por perto. A partir daí, a música entra no universo das mensagens, dos jogos modernos, das aparências e das histórias que ficam em silêncio à espera de uma nova oportunidade.
Se “Mal Me Queres” fala da paz, “Revólver” do rancor e “Saudade” da memória, “Extasy” fala da tentação. É a faixa em que o afastamento se mostra mais frágil, porque há desejos que continuam a sobreviver mesmo quando a razão já encontrou argumentos para partir.
Monsta, nome artístico de Luís Anderson, nasceu a 14 de novembro de 1992 e começou a cantar ainda muito jovem na Linha de Sintra, onde recebeu o nome artístico por, segundo os amigos, “devorar todos” quando cantava. Ligado à Dope Muzik e aos Dope Boyz, numa geração próxima da Força Suprema, o rapper construiu o seu percurso a partir de uma escola marcada pela afirmação lírica, pela lealdade ao coletivo e pela vivência da diáspora.
Mal Me Queres está disponível em todas as plataformas digitais desde 26 de junho.
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