O que o movimento Passport Bros revela sobre género, poder e vulnerabilidade

June 17, 2026
movimento passport bros genero poder vulnerabilidade opiniao
Imagem gerada com recursos de IA

Partilhar

Desde telenovelas e filmes até videoclipes e livros, cresci a compreender que corpos semelhantes ao meu cabiam dentro de uma lente estreita. Uma lente moldada pela subserviência, vigilância, submissão e, ainda assim, hipersexualização. Agora, enquanto adulta, não me surpreendeu assistir ao crescimento de conteúdos de viagens online, especificamente centrados no Sul Global, acompanhado de uma reviravolta assustadora: a classificação e mercantilização das mulheres dessas regiões como “mais sexy”, “fiáveis”, “mais fáceis”, “obedientes”, “tradicionais” e material de “boa esposa”. Esta tendência, conhecida como o movimento passport bros, surgiu no Ocidente em países como os EUA, Alemanha, Holanda e Reino Unido, dentro da manosfera ou machosfera - um espaço online que fomenta ódio e ressentimento contra mulheres, embora disfarçado de comunidade masculina e de criadores de conteúdo a “educar” jovens homens sobre “o que a masculinidade realmente significa”.


Com o objetivo declarado de adquirir aquilo que muitos descrevem como o “protótipo da parceira ideal” no estrangeiro - uma mulher que acreditam não conseguir encontrar no seu país de residência -, este movimento revela-se algo muito mais insidioso. A realidade destes homens assenta na crença de que as mulheres ocidentais foram agressivamente manipuladas por uma filosofia feminista e tóxica que mina os homens, a sua masculinidade e despreza inerentemente os valores familiares que acreditam residirem no âmago das mulheres estrangeiras. Como descreveu online o utilizador de Facebook AJ Love: “Então pessoal? Encontrei a minha rainha nas Filipinas. Cozinha, limpa, faz bolos, é 10 anos mais nova, sem filhos e a mulher mais doce que já conheci. Bastou renovar o passaporte e menos de um mês.”


Embora ninguém deva ser julgado por procurar amor além-fronteiras, já que isso acontece desde o início dos tempos, seria ingénuo não analisar este fenómeno mais profundamente ou ignorar as suas semelhanças com o movimento das “noivas por correspondência”, amplamente comparável ao tráfico humano, nos anos 70. Um movimento em que muitos homens americanos escolhiam parceiras do Sul Asiático através de anúncios, revistas e correspondência postal, na sequência de oportunidades mais amplas para as mulheres em geral. À medida que as mulheres entravam cada vez mais no mercado de trabalho e conquistavam autonomia, muitos homens sentiram-se desconfortáveis, respondendo não com adaptação, mas com controle disfarçado de romance.


Para além da premissa polida de “história de amor”, enquanto escrevo isto, também me recordo de algo que um turista alemão branco me disse num hostel no Rio de Janeiro há dois anos. Depois de lhe perguntar o que o tinha levado a permanecer no Brasil durante mais de dois meses, sendo alguém sem qualquer ligação ao país nem domínio da língua, a sua resposta foi: “As mulheres aqui são mais fáceis. Não precisas de fazer todo o trabalho árduo que fazes no teu país:  a conquista, o cortejo, os encontros intermináveis. Uns copos e uma pizza bastam.” E, com essa frase, deixou-me um sabor amargo persistente na boca. Desde então, enquanto o observava a aproveitar as noites quentes do verão brasileiro e a regressar todas as noites com mulheres diferentes, todas elas de aparência jovem, senti-me indefesa e enjoada. Fui lembrada de que homens como ele usam a posição financeira como forma de poder e acreditam que mulheres que se parecem comigo podem ser compradas e descartadas tão rapidamente quanto uma caixa de pizza, prontas para serem deitadas fora assim que a sua realidade se torna gordurosa.

“A realidade destes homens assenta na crença de que as mulheres ocidentais foram manipuladas por uma filosofia feminista que mina os homens e despreza os valores familiares”

Jamila Pereira

Através da exploração do que parecia ser a precariedade dessas mulheres, reconhecida ou não, ele deixou claro que um passport bro - ou um “nómada digital com passaporte poderoso”, como muitos preferem ser vistos - se assemelha bastante à figura antiga do “turista sexual”. Um termo usado para homens, geralmente provenientes de países ocidentais, que viajam para regiões desfavorecidas ou socialmente vulneráveis com o objetivo de obter vantagens sexuais, abusando das desigualdades económicas e culturais. Aquilo que muitas vezes é apresentado como homens simplesmente a namorar ou casar no estrangeiro está, na realidade, enraizado em misoginia, sentimento de direito e exploração, sendo as mulheres racializadas, jovens e economicamente vulneráveis quem mais sofre as consequências.


Segundo o website oficial dos Passport Bros (hoje em dia desativado): “É preciso coragem para deixar permanentemente para trás o carrossel caótico americano de namoro/casamento/divórcio na esperança de encontrar uma vida nova, mais gratificante e pacífica. Para muitos homens no Ocidente, a perspetiva de namorar e/ou abordar uma mulher (esperando que isso não termine em falsas acusações de assédio), casar (sem acabar em divórcio, significando uma perda financeira significativa a longo prazo) e/ou ter filhos (que esperam que sejam biologicamente deles) é uma proposta significativamente arriscada.”


E apesar da imensidão de desculpas apresentadas para justificar por que é que estes homens abandonam os seus países em busca de “Paz, Apreciação, Respeito, Gentileza e Amor no estrangeiro”, a realidade mantém-se: eles estão a apostar na vulnerabilidade de muitas dessas mulheres e, em última análise, numa profunda vitimização. A falta de responsabilização e de compreensão de que a violência contra mulheres e raparigas é uma epidemia real e contínua em todo o mundo - também inegável no Ocidente - é frequentemente perpetuada por homens como eles. Essa violência molda precisamente o “caótico mercado dos relacionamentos” de que fogem tão ansiosamente, recusando-se, ao mesmo tempo, a reconhecer o seu próprio papel nele.

“Aquilo que é apresentado como homens simplesmente a namorar ou casar no estrangeiro está, na realidade, enraizado em misoginia, sentimento de direito e exploração”

Jamila Pereira

Antes de perguntar por que razão as mulheres do Norte Global deveriam preocupar-se com homens misóginos e infantilizados que atravessam fronteiras por se sentirem ameaçados por mulheres empoderadas capazes de reconhecer a sua mediocridade, pergunta-te: por que não haveríamos de preocupar-nos?


Os mesmos homens que reformulam o seu mau comportamento e os seus egos feridos como “preferências inocentes” nos nossos próprios ambientes - homens que muitas vezes somos ensinadas a tolerar, temer ou até desprezar - não desaparecem quando partem. Simplesmente mudam-se. E, mais vezes do que não, reaparecem como predadores, visando mulheres mais jovens e economicamente desfavorecidas do outro lado do oceano. Basta olhar para casos como o do YouTuber americano Floyd Wallace Jr., detido o ano passado no Brasil depois de um motorista da Uber expor um alegado esquema sexual envolvendo menores, para compreender quão ténue é realmente a linha entre o sentimento de direito em casa e a exploração no estrangeiro.


Como expôs o jornal brasileiro O Globo:


“Um homem americano de 30 anos foi preso, na segunda-feira [22 de dezembro], no bairro da Liberdade, em São Paulo, suspeito de fazer parte do movimento chamado “Passport Bros”, um grupo composto por homens de países desenvolvidos que usam o poder económico para explorar sexualmente crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social em países da América Latina e do Sudeste Asiático. Floyd L. Wallace Jr. foi detido na posse de um vídeo em que abusa de uma criança entre os 6 e os 7 anos. O homem passou a ser investigado depois de um motorista da Uber ter alertado a plataforma sobre uma viagem suspeita envolvendo o transporte de dois menores desacompanhados na cidade do Rio de Janeiro.”


Subsequentemente, embora o movimento alegue facilmente que procura apenas tradição, respeito pela sua masculinidade e desmontar a supremacia feminista dentro dos lares, a verdade é que os “elevados padrões” que afirmam que temos são apenas um reflexo daquilo que Shalom Esene descreve como “mulheres que vivem em sociedades economicamente mais seguras e socialmente mais protegidas estarem cada vez mais capacitadas para reconhecer disparates quando os veem.” Assim, muitos sentem-se imediatamente incapazes de corresponder às exigências de literacia emocional, responsabilização e introspecção, compreendendo plenamente que vivemos numa geração que incentiva diariamente as mulheres a descentralizarem-se do olhar masculino.


Como  acrescenta Shalom: “Em vez de se envolverem em autorreflexão, crescimento ou adaptação, estes homens pegam nos passaportes. Viajam para partes do mundo às quais foi sistematicamente negado um ritmo justo de progresso social, legal e económico, regiões deliberadamente impedidas de alcançar o mesmo desenvolvimento. Atraídos pelo menor acesso à educação, menores proteções laborais, maior vulnerabilidade em torno das idades de consentimento e de oportunidades profissionais limitadas em comparação com o Ocidente, procuram ambientes menos propensos a desafiá-los, onde o seu privilégio os protege e, demasiadas vezes, lhes concede impunidade.”

“A consciência do privilégio não é opcional e o feminismo, se quiser significar alguma coisa, é inerentemente interseccional”

Jamila Pereira

Então, o que podemos fazer? Porque a consciência do privilégio não é opcional e o feminismo, se quiser significar alguma coisa, é inerentemente interseccional. O fenómeno passport bros expõe como a opressão de género não é vivida de forma igual através das fronteiras. Mulheres do Sul Global, mulheres migrantes, mulheres racializadas e mulheres em comunidades diaspóricas existem na intersecção entre género, raça, classe, estatuto migratório e precariedade económica. E ignorar esta realidade é praticar um feminismo que protege apenas aquelas mais próximas do poder. Preocuparmo-nos significa reconhecer como homens ocidentais exploram desigualdades globais para escapar à responsabilização, enquanto mulheres noutros lugares absorvem as consequências.


Devemos preocupar-nos porque a violência contra mulheres e raparigas não termina nas fronteiras e não pode ser condenada seletivamente. Não é uma questão doméstica nem estrangeira, mas um contínuo global. Quando essa violência é exportada, disfarçada de romance, viagem ou curiosidade cultural, torna-se mais difícil de nomear, mais difícil de processar judicialmente e perigosamente normalizada.


O silêncio também é uma forma de cumplicidade. Tratar os passport bros como uma simples escolha de estilo de vida marginal, em vez de um problema estrutural, permite que a misoginia circule livremente, sem fronteiras. E permite o sacrifício de mulheres em contextos vulneráveis ao serviço da insatisfação masculina. Assim, um feminismo que não intervém corre o risco de se tornar isolado, reativo e moralmente inconsistente.


As comunidades diaspóricas não devem ser danos colaterais. As mulheres dentro delas são frequentemente esperadas para acomodar, traduzir e desculpar comportamentos predatórios em nome da cultura ou da hospitalidade, enquanto carregam o peso acumulado do racismo, da deslocação e da instabilidade económica. E inevitavelmente, os danos recaem primeiro sobre elas.


A proteção, então, deve ser coletiva e material. Isso traduz-se em educação sexual abrangente e em políticas de consentimento integradas não apenas nas escolas, mas também em centros comunitários, espaços religiosos e organizações de migrantes. Exige leis que criminalizem a exploração e o turismo sexual com consequências reais, responsabilizando homens tanto no estrangeiro quanto nos seus próprios países. Requer campanhas públicas que desmontem o mito do “expatriado romântico” e identifiquem o exotismo, a fetichização racial e a coerção económica pelo que realmente são.


Proteção também significa autonomia económica. Estágios, percursos profissionais e espaços comunitários seguros para jovens mulheres reduzem dependências e ampliam escolhas. Significa proteger mulheres mais jovens e vulneráveis através da solidariedade, e não da vigilância, e criar sistemas de denúncia confiáveis que não dependam exclusivamente do policiamento.


Finalmente, significa centrar as sobreviventes e não a fragilidade masculina. Qualquer resposta que priorize o conforto dos homens em detrimento da segurança das mulheres já falhou. Responsabilização não é crueldade. É o mínimo indispensável que todos devemos uns aos outros.

Relembramos-te que podes ouvir os nossos podcasts através da Apple Podcasts e Spotify e as entrevistas vídeo estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Para sugerir correções ou assuntos que gostarias de ler, ver ou ouvir na BANTUMEN, envia-nos um email para redacao@bantumen.com.

bantumen.com desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile