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“A mulher cabo-verdiana é a mulher mais bonita de África.” Esta é a frase que mais se tem ouvido nos últimos tempos, desde que Cabo Verde mostrou o quão forte e capaz é neste Mundial de 2026. Claro que é uma frase dita, na sua grande maioria, por homens brancos, por alguns homens negros também, e que acaba por ecoar entre as próprias mulheres.
No entanto, ao dizermos isto, não estaremos a perpetuar um discurso fetichista que remonta ao tempo da escravatura e que se estende até aos dias de hoje? É preciso ter atenção ao que se diz e à forma como se diz.
Esta frase em específico tem-me causado algum incómodo quando dita e replicada constantemente. A repercussão destas palavras faz com que os olhos do mundo se virem mais para Cabo Verde, dando a oportunidade para que mais homens se sintam no direito de tecer comentários. Infelizmente, muitos deles não têm capacidade para falar da beleza da mulher africana para além daquilo que veem. Em alguns vídeos e conversas, fala-se dessa mesma mulher: “a mais bonita de África”, como se fosse um produto, tornando-a mais um alvo de hipersexualização.
É fundamental compreender que este tipo de narrativa não é inofensivo: ao reduzir a mulher africana a um olhar puramente sensualizado e fetichista, abre-se uma porta perigosa que perpetua e normaliza dinâmicas de abuso, violência doméstica e exploração. Quando o corpo de uma mulher ou de uma jovem é transformado num mero objeto de desejo exótico, destrói-se a sua humanidade e dignidade, tornando-a mais vulnerável a todas as formas de violência estrutural.
“Quando o corpo de uma mulher é transformado num objeto de desejo exótico, destrói-se a sua humanidade e dignidade”
Wilds Gomes
Recentemente, um dos vídeos do artista e ativista Rahiz fez-me pensar mais neste tema e fez-me perceber o quão condicionados estamos à nossa existência e como normalizamos tanta coisa no nosso dia a dia, a ponto de, às vezes, as narrativas que mais merecem reflexão passarem-nos completamente ao lado.
Além disso, quando se elege “a mulher mais bonita de África”, esse discurso, por si só, desconsidera, ignora e rebaixa as mulheres e as sociedades de outros países do continente. Esta não é uma narrativa isolada; é um antigo trabalho de divisão. É exatamente o que acontece com certas notícias que surgem de tempos a tempos com um ranking do “top das mulheres mais bonitas de África”, artigos normalmente criados por plataformas brancas, europeias ou americanas e heteronormativas.
A história de Sarah "Saartjie" Baartman é o retrato mais doloroso de como o colonialismo inventou e lucrou com a hipersexualização da mulher negra. Nascida na África do Sul no final do século XVIII, Sara tinha uma anatomia comum ao povo Khoikhoi, marcada pelo acúmulo natural de gordura nos quadris e nas nádegas. No entanto, quando os europeus a viram, deixaram de lado a pessoa e reduziram-na a um objeto que misturava desejo exótico e repulsa moral. Esta dupla obsessão - julgar o corpo negro como "selvagem" enquanto o consome de forma fetichista - plantou a semente histórica da ideia de que a mulher africana seria uma criatura puramente carnal, disponível para o olhar alheio.
Levada para a Europa em 1810 sob falsas promessas de riqueza, Sara foi transformada na “Vénus Hottentote”, a atração principal de um circo de horrores que mascarava o abuso sistemático como entretenimento. Em Londres e, posteriormente, em Paris, era exibida em palcos, muitas vezes seminua e em jaulas, para que o público pagasse para observar e apalpar as suas curvas. A sociedade europeia não só normalizou essa violação pública, como a utilizou para desumanizá-la por completo. Ao reduzir a sua existência inteira aos seus atributos físicos e genitais, o sistema apagou a mulher por trás do "espetáculo", consolidando a visão de que o corpo negro feminino existia apenas para servir as fantasias da branquitude.
“É de extrema importância que deixemos de objetificar as mulheres africanas e de ignorar a sua pluralidade”
Wilds Gomes
A brutalidade deste fetiche ultrapassou as fronteiras da vida e encontrou um álibi na pseudociência da época. Quando Sara morreu na miséria e doente, aos 26 anos, a violação do seu corpo atingiu o nível mais macabro nas mãos de anatomistas franceses. O seu cadáver foi dissecado, e os seus órgãos e cérebro foram guardados em potes de formol para tentar "provar" biologicamente uma suposta inferioridade racial. A intenção era justificar, de bata branca, a hipersexualização que eles próprios tinham criado. O nível de desumanização foi tão profundo que os restos de Sara foram tratados como troféus do racismo científico, ficando expostas num museu de Paris até ao ano de 1974.
E para quem pergunta: “o que é que a história de Sara tem a ver com “a mulher mais bonita de África” neste Mundial?”
Tem tudo a ver. Nos dias de hoje, resgatar a história de Sara Baartman vai muito além de recontar uma tragédia do passado; é entender a raiz profunda das violências estéticas que as mulheres negras ainda enfrentam na sociedade moderna. Mostrando como tudo se mantém atual, o desfecho desta narrativa só encontrou alguma justiça em 2002, quando Nelson Mandela conseguiu obrigar a França a devolver os seus restos mortais à África do Sul. Enterrada finalmente com honras e dignidade no seu país de origem, Sara deixou de ser o alvo do olhar do colonizador para se erguer como o símbolo definitivo de resistência contra a objetificação e a mercantilização do corpo feminino.
Por isso, é de extrema importância que deixemos de objetificar as mulheres africanas, de reduzi-las e de ignorar a sua pluralidade. Cabo Verde tem mulheres bonitas? Tem, é um facto. Mas o resto do continente africano também tem.
Precisamos de ir mais fundo e compreender que esta comparação da mulher cabo-verdiana como a "mais bonita de África", muitas vezes justificada pelas "misturas" e pela miscigenação, carrega consigo uma bagagem colorista evidente. Esse elogio disfarçado assenta frequentemente na ideia de que, para ser considerado belo, um corpo ou um rosto deve aproximar-se de traços mais europeus, lidos como mais finos ou esbranquiçados. Isto acontece porque o padrão de beleza que nos foi imposto historicamente é um padrão branco e eurocêntrico. Sob esta ótica colonial, tudo o que foge radicalmente desse padrão é categorizado como inferior, feio ou indesejável, enquanto tudo o que se aproxima é celebrado como o ideal.
À primeira vista, este argumento pode parecer contraditório: afinal, como é que a mulher africana pode ser simultaneamente hipersexualizada pelos seus atributos físicos e, ao mesmo tempo, rejeitada por não cumprir um padrão europeu? A verdade é que não há contradição nenhuma, são duas faces da mesma moeda colonial. O racismo estrutural funciona precisamente desta forma ambivalente: por um lado, animaliza, consome e objetifica o corpo negro através do fetiche pelos seus traços físicos e corporais; por outro, estabelece uma hierarquia estética eurocêntrica que dita que, para ser socialmente aceite como "bela", essa mesma mulher precisa de se aproximar o mais possível da branquitude. É um jogo perverso onde a mulher africana é validada pelo desejo exótico, mas desumanizada pela norma estética.
Portanto, desconstruir esta frase exige um esforço para olhar além do óbvio, sendo crucial refletir e analisar criticamente todas as camadas de preconceito e racismo estrutural que se escondem por detrás dessa aparente exaltação.
Resta deixar a pergunta: a mulher cabo-verdiana vai continuar a ser vista como bonita mesmo depois de o Mundial acabar?
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