A campanha da adidas Y-3 com o kuduro em foco, contada por quem a concebeu e produziu

May 11, 2026
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©Marieke Bosma

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A campanha Roda, filmada em Luanda para a Y-3, linha da adidas criada em colaboração com o designer japonês Yohji Yamamoto, nasceu da visão criativa e sonora de Nazar, um artista angolano, com uma leitura muito própria, pessoal e distintiva do kuduro contemporâneo.


A campanha ganhou corpo no terreno através da Musseke, produtora angolana que ajudou a transformar a ideia numa produção internacional feita a partir de Angola, com equipa local, bailarinos angolanos e o kuduro no centro.


Em conversa com a BANTUMEN, Nazar e Nayela, uma das líderes da Musseke ao lado de Toty Sa’Med, explicam como uma campanha de moda internacional acabou por se tornar também uma afirmação sobre território, dança, memória urbana e produção criativa angolana.


Fora dos circuitos mais populares da música feita em Angola, Alcides Simões - nome de registo de Nazar - tem vindo a construir uma das leituras mais radicais, autorais e internacionalmente reconhecidas do kuduro contemporâneo.


Artista angolano de 32 anos, nascido na Bélgica e atualmente a viver em Amesterdão, Nazar passou uma parte decisiva da sua formação em Luanda. Foi em Angola, durante os anos do ensino secundário, que começou a fazer música eletrónica. Tinha cerca de 14 anos quando descobriu os beats de kuduro como forma de ocupar o tempo, integrar-se e começar a desenhar uma identidade artística própria. “Quando mudei para Luanda, tinha 13 anos. Para me integrar, para queimar o tempo, comecei a fazer beats de kuduro. Foi ali que a minha identidade artística se criou”, conta.

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“Eu sempre tentei puxar as fronteiras do kuduro, levá-lo para lugares mais experimentais”

Nazar

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Nazar | DR

A relação com o kuduro tornou-se a base de uma linguagem que viria a chamar de “rough kuduro”, uma interpretação mais crua e experimental do género. No seu universo, o kuduro é também matéria de memória, conflito, ruído, corpo, trauma e reconstrução.


Depois de viver cerca de uma década em Angola, regressou à Europa para se focar na indústria da música eletrónica e tentar construir um caminho num circuito que já lhe era familiar. O percurso, como o próprio descreve, foi “longo e calmo”, feito sem grande exposição mediática, mas com consistência suficiente para lhe permitir lançar projetos autorais, assinar Guerrilla, em 2020, e Demilitarize, em 2025, dois álbuns bem recebidos pela crítica internacional, e para se afirmar como DJ e artista eletrónico com actuações na Europa, China e Japão. “Foi um percurso longo e calmo, sem dar muito nas vistas. Mas levou-me a completar vários projectos artísticos meus, à autoria de dois álbuns que foram bem recebidos pela crítica internacional”, explica.


A música de Nazar nasce de cruzamentos. De um lado, a memória de Luanda, o kuduro, os vídeos antigos gravados em telemóveis, as rodas de dança, o corpo em desafio e a energia urbana angolana. Do outro, a eletrónica europeia que o marcou desde criança, com nomes como Daft Punk e Justice entre as referências iniciais. O resultado não é uma fusão domesticada, mas um território de tensão, onde o kuduro surge menos polido e mais interessado em empurrar as fronteiras do género para zonas menos confortáveis. “Eu sempre tentei puxar as fronteiras do kuduro, levá-lo para lugares mais experimentais”, afirma.


Foi esse percurso pouco convencional que acabou por aproximá-lo da adidas. A relação começou muito antes da campanha filmada em Luanda, quando Nazar passou a ser acompanhado pela marca através da sua arte. Depois do lançamento de Demilitarize, o seu segundo álbum, a equipa da adidas reparou no trabalho do artista, chegou ao primeiro single e convidou-o para a Fashion Week, em Paris, em junho do ano passado. Ali, sentado na primeira fila, ao lado de celebridades, percebeu que a marca tinha planos mais concretos para si.


Na mesa estavam várias hipóteses, um editorial, uma campanha, uma música para um show, uma publicidade. Nazar ficou pela opção que lhe permitia ir mais fundo: "Deram-me praticamente a oportunidade e a liberdade total de criar qualquer conceito. Foi ali que vi que a melhor forma de me realizar como artista era explorar outros horizontes e redirecionar a atenção para a nossa própria cultura, a que fez de mim a pessoa que sou hoje."


É desse lugar que nasce Roda. Filmado em Luanda, o projeto coloca o kuduro no centro de uma proposta visual e sonora em que moda, dança, arquitetura, rua e memória urbana se encontram. Nazar assinou a composição musical e a conceção criativa da campanha, desde a ideia da roda como estrutura coreográfica até à escolha de Angola como território visual e simbólico.

“Independentemente das suas questões muito próprias, Luanda tem uma estética única, que merece ser representada com dignidade”

Nayela Simões

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©Nayela Simões | @Resem Verkron

Para que essa visão chegasse ao chão de Luanda, era necessária uma estrutura local capaz de transformar o conceito em produção. É aí que entra a Musseke, empresa angolana liderada por Nayela Simões e Toty Sa’Med, que assumiu um papel determinante na produção local.


Segundo Nayela, Nazar já acompanhava o trabalho desenvolvido pela Musseke nos últimos dois anos, especialmente pela ligação familiar com membros da equipa. Quando a Y-3 confiou ao artista a nova campanha e ele decidiu que queria filmá-la em Angola, não teve dúvidas sobre quem poderia ajudá-lo a encontrar o local ideal, os bailarinos certos, o staff criativo local e as soluções logísticas necessárias para materializar a sua visão. “O Nazar já sabia o que queria. À medida que foi entrando pessoal criativo, foram-se acrescentando algumas nuances criativas e encontrando-se soluções práticas e possíveis mediante a realidade de Angola”, explica Nayela. A empresa ativou o seu conhecimento do território, da cena criativa local e das condições práticas necessárias para responder a uma campanha internacional desta dimensão.


O local escolhido tornou-se parte essencial da narrativa. Nazar descreve-o como uma espécie de centro comercial inacabado, ainda em esqueleto, com uma arquitetura de traços brutalistas e aberturas circulares no teto que dialogavam diretamente com o conceito da roda. O espaço não apenas funcionou como extensão da ideia, como paisagem material de uma Luanda que não precisava de ser embelezada para ser poderosa.


A escolha também dialoga com a própria pesquisa do artista: desde o início da carreira, Nazar tem trabalhado sobre os efeitos da guerra civil angolana na sua família e na memória coletiva do país, usando sons duros, ambientes tensos e estruturas fragmentadas como forma de processar traumas geracionais. "Eu queria que o projeto fosse honesto. Não vamos embelezar nada, não vamos mudar o jeito que as coisas estão. É kuduro duro, puro, sem tentar adaptar-se aos olhos do mundo", afirma.


Para a Musseke, o kuduro como centro do projeto não foi surpresa, a equipa reconhecia a estética que Nazar vinha a desenvolver. O que trouxe uma outra camada foi o facto de a campanha acontecer em Luanda. "Independentemente das suas questões muito próprias, Luanda tem uma estética única, que merece ser representada com dignidade", afirma Nayela. A campanha não procurou transformar a capital angolana num cenário maquilhado para consumo internacional, pelo contrário, partiu da crueza visual, da arquitetura inacabada, da poeira, do concreto e da energia direta das rodas de kuduro. Para Nayela, o género sempre foi "nu e cru" desde o seu surgimento e Roda é uma homenagem direta a essa Luanda das batalhas de dança e do kuduro underground.

“[A dança] É o elemento central de tudo o que move as pessoas à volta do kuduro, é o centro gravitacional da cultura do género”

Nayela Simões

A roda, neste contexto, é um elemento herdado das culturas de dança africanas que, dentro do kuduro, ganhou uma função própria: partilhar toques, criar ângulos de visão para quem está no centro, organizar o desafio, o reconhecimento e a energia coletiva. Nos primórdios dos despiques de kuduro, no início dos anos 2000, era o formato natural dessas disputas. "O mais importante na representação do kuduro é a dança e os bailarinos. É o elemento central de tudo o que move as pessoas à volta do kuduro. A dança é o centro gravitacional da cultura do género", sublinha Nayela. Marcas globais como a adidas têm vindo a explorar estéticas de culturas que durante muito tempo foram vistas como periféricas - o kuduro, o funk brasileiro, o amapiano -, mas esse movimento só faz sentido quando as pessoas e os territórios que representam essas culturas não são apagados. "Não havia necessidade de embelezar o que já é belo naturalmente", defende.


A campanha envolveu vários profissionais ligados à produção, imagem, dança e performance como Rubina Suzeth, na direção de movimento; Kim Praise, na co-realização; DuQing, Parisa e Laura Gurt; e Marieke Bosma, na direção de arte e fotografia. As filmagens começaram às nove da manhã e só terminaram perto das 23h00, com movimento desde as seis entre equipamentos, negociações e ajustes de produção. "Foi uma boa experiência, muito stressante mesmo, houve pouco sono. Mas gostámos bastante. Foi algo que fica para a história, para Angola", resume Nazar.


Para Nazar, a relação com Angola continua a ser marcada por presença e distância. Desde que regressou à Europa, em 2018, tem voltado sempre que possível, pelo menos uma vez por ano. A pandemia e os problemas de saúde interromperam esse ritmo durante algum tempo, mas o vínculo manteve-se. Essa distância talvez ajude a explicar por que muitos angolanos ainda não conhecem o seu trabalho: Nazar construiu a carreira em circuitos internacionais da música eletrónica, mais próximos do underground do que da indústria popular angolana.


Para a Musseke, a experiência revela o potencial técnico e criativo existente em Angola, mas também a urgência de criar mais oportunidades para jovens talentos. "Angola é um país com talento para dar e vender, e esta experiência espelha o potencial real da nossa cultura como um todo e, principalmente, o talento individual de cada um dos envolvidos", afirma Nayela. "Existe um imaginário angolano que ainda não atingiu o seu verdadeiro potencial por falta de oportunidades iguais para todos."


A frase que melhor resume o espírito do projeto veio da irmã de Nazar: "Angola não é tendência, Angola é a origem”, e é essa a ideia que atravessa toda a campanha. O kuduro aparece como linguagem central, com história, corpo, território e comunidade. Com Roda, Nazar coloca novamente o kuduro num espaço de circulação global, mas fá-lo a partir de uma visão autoral e com uma equipa angolana a sustentar a materialização no terreno. 


A Musseke, por sua vez, ajuda a mostrar que Luanda, apesar de funcionar como cenário, não deixa de ser origem, arquivo, potência criativa e uma cidade capaz de receber, pensar e executar projetos internacionais sem abdicar da sua própria verdade.

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