Semba e xigubo podem tornar-se Património Cultural Imaterial da Humanidade

May 8, 2026
semba xigubo patrimonio cultural da humanidade
Xigubo, de Moçambique | DR

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O semba de Angola e o xigubo de Moçambique podem vir a integrar a Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. As duas expressões, uma ligada à música e à dança angolana, a outra à tradição guerreira moçambicana, voltam a colocar no centro da conversa a importância de salvaguardar patrimónios africanos que continuam vivos no corpo, no som, na memória e nas comunidades.


No caso angolano, o semba está identificado pela UNESCO como “Semba: music and dance in Angola” e integra os processos em avaliação para o ciclo de 2026. Já o xigubo, grafia usada pela UNESCO, passou pelo ciclo de 2025, mas não foi inscrito, depois de a organização considerar que a informação incluída no dossiê não era suficiente para confirmar os critérios necessários à inscrição. Ainda assim, a candidatura moçambicana mantém-se como parte de uma discussão maior sobre valorização, documentação e reconhecimento internacional das expressões culturais do país.


A possibilidade de reconhecimento ganhou novo impulso depois de os ministros da Cultura da CPLP, reunidos em Díli, Timor-Leste, terem decidido apoiar a inscrição das candidaturas de Angola, com o semba, e de Moçambique, com o xigubo, na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade. A decisão foi tomada durante a XIV Reunião de Ministros da Cultura da organização, realizada a 5 de maio, sob o tema “Salvaguarda da Herança Cultural, na Promoção da Identidade e Cidadania na CPLP”.


Mas antes de chegarem aos dossiês, às comissões e às listas internacionais, importa perceber como estes genéros moldaram as expressões e representações culturais dos seus países. O semba é uma das expressões mais marcantes da identidade angolana. Originário das áreas urbanas de Luanda, evoluiu da masemba, uma dança tradicional de pares, nascida da confluência de várias culturas trazidas pela migração rural para os musseques no início do século XX. A RHE Initiative, entidade envolvida na candidatura angolana, descreve o semba como música e dança, com presença nas práticas sociais e rituais, da alegria ao luto, dos casamentos aos funerais.


A sua história passa, inevitavelmente, por nomes como Liceu Vieira Dias e pelo grupo Ngola Ritmos, fundado em 1947. Apontado como um dos grupos fundadores da música moderna angolana, o Ngola Ritmos transformou o semba numa linguagem urbana, politizada e ligada à afirmação cultural do país. Numa Angola ainda sob domínio colonial português, cantar em línguas nacionais, recuperar ritmos populares e afirmar referências culturais angolanas era também uma forma de resistência. Essa dimensão atravessou a obra de vários nomes da música angolana e ganhou projeção internacional com artistas como Bonga, cuja carreira se construiu entre Angola, o exílio e a diáspora.


Do lado moçambicano, o xigubo é uma dança guerreira, praticada sobretudo no sul de Moçambique, com forte presença nas províncias de Maputo e Gaza. A sua apresentação é marcada por filas de dançarinos, movimentos de força, tambores, trajes com peles, plumas, escudos e bastões, numa encenação que remete para a preparação, defesa e celebração guerreira. Com o passar dos anos, tornou-se símbolo de resistência e a sua transmissão depende de grupos culturais, mestres, associações, festivais e espaços comunitários que continuam a ensinar e a apresentar a dança, mantendo viva uma prática que atravessou contextos de guerra, migração, colonialismo e construção nacional.


A eventual inscrição do semba e do xigubo na lista da UNESCO teria um peso simbólico para Angola e Moçambique, mas também levantaria desafios concretos. A confirmar-se a classificação, é importante que a mesma venha acompanhada de transmissão, investigação, documentação, valorização dos mestres, apoio aos grupos culturais e presença nas escolas, nos arquivos e nos circuitos culturais.


No caso do semba, em particular, esse desafio passa por garantir que a projeção internacional não apaga as raízes populares, linguísticas e comunitárias do género. No caso do xigubo, passa por reforçar a documentação e a investigação, mas também por reconhecer a força das comunidades que continuam a transformar a dança numa forma de presença, disciplina e memória coletiva.

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