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Paulina Chiziane foi distinguida como Melhor Escritora de África de 2026 no African Award, Creators and Directors Excellence 2026, realizado a 28 de abril, em Luanda, Angola.
Vencedora do Prémio Camões em 2021, Paulina Chiziane é uma das vozes maiores da literatura moçambicana e africana em língua portuguesa. Nascida em Manjacaze, no sul de Moçambique, em 1955, publicou o seu primeiro romance, Balada de Amor ao Vento, em 1990, considerado o primeiro romance publicado por uma mulher moçambicana.
A sua obra atravessa a memória oral, a guerra, a espiritualidade, a condição feminina, a poligamia, o colonialismo, a raça, a maternidade e as tensões entre tradição e modernidade. Em Paulina Chiziane, estes temas não aparecem como categorias soltas, mas como matéria viva de uma escrita que escuta as mulheres, acompanha as suas contradições e expõe os sistemas que moldam, limitam e violentam as suas vidas. A autora escreve Moçambique a partir das suas fraturas íntimas e coletivas, recusando separar o corpo da história, a casa da política e a tradição das suas consequências.
A distinção foi saudada pelo Presidente moçambicano, Daniel Chapo, que considerou o reconhecimento um motivo de “orgulho nacional” e destacou a trajetória da autora, marcada pela autenticidade, pela coragem e pelo compromisso com a afirmação da cultura africana.
A distinção como Melhor Escritora de África em 2026 é também uma oportunidade para conhecer - ou regressar - os livros que consolidaram o seu lugar na literatura contemporânea. Aqui tens cinco títulos essenciais para entrar no universo de Paulina Chiziane.
Publicado em 1990, Balada de Amor ao Vento (Caminho) marca a estreia literária de Paulina Chiziane e ocupa um lugar simbólico na história da literatura moçambicana. É considerado o primeiro romance publicado por uma mulher moçambicana, facto que torna a obra incontornável não apenas pelo seu valor literário, mas também pelo que representou num campo editorial historicamente dominado por homens.
O romance acompanha a história de Sarnau e Mwando, atravessada pelo amor, pela separação, pelo sofrimento e pelas normas sociais que condicionam a vida das mulheres. A partir de uma narrativa íntima, Chiziane abre espaço para discutir o lugar feminino, o casamento, a tradição e as estruturas de poder dentro da sociedade moçambicana.
Concluído em 1991, Ventos do Apocalipse saiu em Maputo, em 1993, numa edição da própria autora, e foi publicado em Portugal pela Caminho, em 1999. É uma das obras mais intensas de Paulina Chiziane, marcada pela guerra, pela fome, pela deslocação e pela violência coletiva.
Neste romance, a autora parte da guerra para construir uma narrativa sobre deslocação, fome, medo e sobrevivência. A violência atravessa a vida das personagens e expõe uma comunidade marcada pela perda, pela incerteza e pela necessidade de resistir. A oralidade e a memória coletiva continuam presentes, como formas de guardar aquilo que a destruição tenta apagar.
Publicado em 2000, O Sétimo Juramento leva o leitor para um território onde poder, ambição, espiritualidade e moralidade se cruzam. A obra explora as tensões entre o visível e o invisível, entre a ascensão social e os pactos feitos para manter privilégios.
É um livro importante para compreender a forma como Paulina Chiziane trata a espiritualidade africana sem a reduzir a elemento decorativo. Na sua escrita, o mundo espiritual faz parte da organização da vida, das relações sociais, da política e das escolhas das personagens.
Publicado em 2002 pela Caminho, Niketche: Uma História de Poligamia é uma das obras mais conhecidas da autora. O romance parte da descoberta de uma traição conjugal para abrir uma reflexão profunda sobre casamento, corpo feminino, desejo, poligamia, tradição e desigualdade.
A protagonista, Rami, descobre que o marido tem outras mulheres e, a partir desse confronto, inicia uma viagem de descoberta sobre si própria e sobre as diferentes formas de ser mulher. O livro tornou-se numa das obras mais estudadas de Paulina Chiziane e confirmou a força da sua escrita na abordagem das contradições entre tradição, afecto e poder.
Publicado em 2008 também pela editora Caminho, O Alegre Canto da Perdiz é uma das obras mais densas da autora. O romance aborda colonialismo, raça, mestiçagem, maternidade, violência e identidade, a partir de uma narrativa que atravessa diferentes gerações.
Através da personagem Delfina, Paulina Chiziane discute as marcas deixadas pela colonização nos corpos, nas famílias e nas relações sociais. É um livro essencial para compreender a dimensão histórica da sua escrita e a forma como a autora liga a experiência individual às grandes fraturas de Moçambique.
Além destes títulos, a obra de Paulina Chiziane inclui ainda livros como As Andorinhas; Na Mão de Deus, publicado em 2013 pela Nandyala; Por Quem Vibram os Tambores do Além, lançado em 2013 pela PVTA; O Canto dos Escravos, de 2017; e Ngoma Yethu: O Curandeiro e o Novo Testamento, publicado pela Nandyala em 2018.
Ler Paulina Chiziane é entrar numa literatura que não separa o íntimo do político, nem a memória individual da memória coletiva. A distinção como Melhor Escritora de África em 2026 confirma aquilo que a sua obra já vinha demonstrando há décadas: a autora moçambicana é uma das vozes fundamentais para pensar África, as mulheres, a língua portuguesa e as histórias que continuam a ser contadas a partir de dentro.
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