Ndèye Dieynaba Ndiaye, a senegalesa que transforma histórias de dor em redes de apoio a mulheres

August 19, 2026
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Ndèye Dieynaba Ndiaye | DR

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Foi na Cidade da Praia, durante o Human Leaders International Congress Cabo Verde 2026, que nos cruzá Ndèye Dieynaba Ndiaye. O congresso, realizado a 24 e 25 de julho de 2026 na Universidade de Cabo Verde, juntou líderes de mais de uma dezena de países, entre eles Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Camarões e Brasil, além de representantes da diáspora africana. Ndèye chegou a esse palco depois de ter sido nomeada Embaixadora Especial e Chefe da Delegação do Senegal para o congresso, um reconhecimento que descreve como mais uma etapa de um percurso construído em torno de duas causas: a luta contra a violência doméstica e o combate ao desconhecimento sobre a polyarthrite rhumatoïde, a artrite reumatoide, no seu país.


Ndèye Ndiaye é presidente de duas organizações senegalesas. A primeira, Violences Faites aux Femmes Sénégal (VFFS), dedica-se a acompanhar mulheres vítimas de violência doméstica, familiar e de género, oferecendo apoio jurídico, acompanhamento médico, apoio psicológico individual e em grupo, e ainda formação profissional para que as sobreviventes possam reconstruir a sua autonomia económica. A associação tem também uma voz pública ativa: em 2025, manifestou-se solidária com a ministra dos Desportos do Senegal, Clothilde Coly, alvo de uma onda de ciberassédio, e pediu às autoridades legislativas e judiciais senegalesas leis mais rigorosas contra o assédio digital.


A segunda organização, Polyarthrite Rhumatoïde Sénégal (PRS), nasce de uma urgência menos falada. A artrite reumatoide é uma doença autoimune crónica que atinge as articulações e que, segundo estudos clínicos já realizados no Senegal, um deles com mais de 750 doentes analisados, está longe de ser rara, apesar de continuar pouco diagnosticada e mal compreendida no país. Uma outra investigação, publicada na revista Médecine d'Afrique Noire em 2012 e feita com 90 pessoas a viver com a doença, das quais 81 eram mulheres, ou seja, nove em cada dez doentes analisados, mostra o peso económico que a artrite reumatoide impõe às famílias: 78,9% relatavam dificuldades financeiras diretamente ligadas à doença, 73% pagavam os próprios cuidados médicos sem qualquer apoio social, e 34,3% tinham deixado definitivamente de trabalhar, com outros 14,3% a interromper a atividade profissional de forma temporária.

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É precisamente na intersecção destas duas causas que Ndèye criou aquilo a que chama, em francês, "banque de dignité", um banco de dignidade que recolhe doações de roupa, alimentos e medicamentos para apoiar vítimas de violência conjugal. O objetivo, resumiu, é dar-lhes "um curto instante, o tempo de as ajudar a reencontrarem-se", a sair do domicílio conjugal e a encontrar um lugar onde ficar, ainda que de forma pontual. Os medicamentos seguem a mesma lógica de urgência, mas destinados a doentes de artrite reumatoide que, por rutura no acesso a tratamento ou por falta de recursos, ficam sem medicação. Segundo Dédé, como também é apelida Ndèye Dieynaba Ndiaye, este apoio já chega às catorze regiões do Senegal.


O percurso profissional que sustenta este ativismo tem uma base académica concreta: um mestrado em comunicação, uma licenciatura em inglês e um diploma de aptidão para o ensino de francês como língua estrangeira. É esta formação pedagógica, explica, que lhe permite criar pontes entre as instituições, os decisores e as comunidades, adaptando a mensagem a cada público e privilegiando o diálogo em vez da imposição. Chama a este método comunicação de influência ao serviço do impacto social e da liderança humanizada, um conceito, o de liderança humanizada, que se tornou a assinatura da sua estratégia, seja a acompanhar organizações na sua visibilidade institucional, seja a defender direitos fundamentais das mulheres.


Foi também em nome desta abordagem que Ndèye Ndiaye levou a Cabo Verde uma delegação senegalesa multidisciplinar para participar na primeira edição do congresso Human Leaders Summit. Entre os seus membros estava Ibrahima Niang, em representação do diretor geral da SONAGED, a sociedade nacional de gestão integrada de resíduos. A empresa pública senegalesa, responsável pela gestão integrada de resíduos no país, foi apresentada como exemplo de como a economia verde e circular pode gerar emprego e inclusão social, mobilizando, segundo a própria, cerca de 17 mil senegalesas e senegaleses todos os dias. Ainda de acordo com o seu relato, a passagem por Cabo Verde permitiu abrir conversas com altas autoridades cabo-verdianas, entre as quais o Presidente da República, o Primeiro-Ministro, presidentes de câmara e o responsável da Caboplast, em torno de temas como desenvolvimento sustentável, economia circular e governação local.


A história de Dédé não pode ser lida isolada do contexto em que nasce, nem fora dele. A primeira Enquête Nationale de Référence sobre as violências conjugais no Senegal (ENR-VFF), feita pela agência nacional de estatística do país, mostra que 70,2% das mulheres senegalesas relatam já ter sofrido violência conjugal desde o início da sua primeira união, e 22,4% apenas nos doze meses anteriores ao inquérito. Por trás destes números estão mulheres cuja saúde, segurança, autonomia económica e capacidade de decidir sobre a própria vida ficam comprometidas, o que ajuda a explicar a ligação que a própria Dédé estabelece entre as suas duas causas: a violência doméstica retira autonomia às mulheres tal como uma doença crónica sem tratamento. No Senegal, a Associação de Juristas Senegalesas registou mais de 4.200 casos de violência contra mulheres apenas em 2025 entre as pessoas que procuraram diretamente o seu apoio, a grande maioria psicológica ou económica, mas também física, sexual e obstétrica, um retrato que a própria organização considera revelador de uma crise silenciosa.

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Na lusofonia, os números seguem um padrão semelhante. Em Angola, um estudo do Afrobarometer com dados do Instituto Nacional de Estatística mostra que 32% das mulheres sofreram violência física desde os 15 anos e 34% foram vítimas de violência física ou sexual por parte de maridos ou parceiros, ainda que 67% da população já considere a violência doméstica um crime, e não um assunto privado da família. Em Moçambique, foram registados mais de 9 mil casos de violência de género apenas nos primeiros seis meses de 2025. Em Cabo Verde, o próprio Presidente da República já classificou a violência de género como "uma mancha" na sociedade, num país onde o tema tem vindo a ganhar mais espaço no debate público nos últimos anos. E em Portugal, a APAV contabilizou 23.742 casos de violência doméstica em 2024, com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género a registar mais de 1.400 vítimas acolhidas apenas no primeiro trimestre de 2025.


Para as mulheres da diáspora africana e dos PALOP que vivem em Portugal, a estas dificuldades soma-se muitas vezes outra: o isolamento e o desconhecimento dos apoios disponíveis, um obstáculo que associações ou iniciativas de apoio a imigrantes sem domínio do português têm tentado colmatar.


A outra causa de Ndèye Dieynaba Ndiaye, a artrite reumatóide, tem um lugar ainda mais silencioso no discurso público global. É uma doença crónica, autoimune, que atinge as articulações e que não costuma figurar entre as prioridades de saúde. É precisamente essa falta de números e de visibilidade que um trabalho como o seu, ao juntar as duas causas no mesmo "banco de dignidade", ajuda a expor.

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