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A Guiné-Bissau voltará a estar representada num dos mais importantes festivais de cinema do mundo. “Os Olhos Azuis de Yonta” (Udju Azul di Yonta), realizado pelo cineasta Flora Gomes em 1992, foi selecionado para integrar a programação da secção Venice Classics da 83.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza, que decorre entre 2 e 12 de setembro de 2026.
A obra será apresentada numa nova versão restaurada em 4K, resultado de um trabalho de preservação que recupera um dos títulos mais importantes da cinematografia africana. Dedicada à exibição de filmes restaurados considerados fundamentais para a história do cinema, a secção Venice Classics reúne anualmente obras de realizadores que marcaram diferentes gerações e geografias da criação cinematográfica.
Nesta edição, o filme de Flora Gomes surge ao lado de obras assinadas por nomes incontornáveis como Roberto Rossellini, Roman Polanski, John Cassavetes, Luis Buñuel, Ernst Lubitsch, Andrzej Wajda, Roger Corman, Ettore Scola, Ann Hui e Shinji Sōmai. A presença do realizador guineense nesta seleção reforça o reconhecimento internacional de uma filmografia que, ao longo de mais de quatro décadas, tem projetado a cultura e a história da Guiné-Bissau para além das fronteiras do continente africano.
Lançado três anos depois de Mortu Nega, Os Olhos Azuis de Yonta acompanha uma geração que cresceu após a independência da Guiné-Bissau e procura encontrar o seu lugar num país em transformação. Entre os sonhos da juventude, as memórias da luta de libertação e as promessas de um novo tempo, Flora tem construído um retrato sensível da sociedade guineense, recorrendo ao humor, à poesia e a uma narrativa enraizada na realidade do país com grande história.
Considerado uma referência do cinema africano contemporâneo, o filme continua a ser uma das obras mais estudadas e exibidas da carreira do cineasta, destacando-se pela forma como aborda questões como identidade, memória, herança colonial e também esperança coletiva. O restauro representa um esforço de preservação da memória cinematográfica africana, cuja imagem foi recuperada por meio de tecnologia de imersão em janela líquida e de recuperação do som a partir da banda magnética original, devolvendo ao filme a qualidade visual e sonora pensada na sua conceção.
Num contexto em que grande parte do património audiovisual do continente enfrenta riscos de deterioração ou desaparecimento, iniciativas desta natureza tornam-se fundamentais para garantir que estas obras continuam acessíveis às próximas gerações.
Formado no Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC), em Havana, e com passagem pelo Senegal, Flora Gomes iniciou a sua carreira nos primeiros anos da independência da Guiné-Bissau como repórter, operador de câmara e realizador de documentários. Desde então, construiu uma obra reconhecida em festivais internacionais e consolidou-se como uma das figuras centrais do cinema africano de expressão lusófona.
A seleção de Os Olhos Azuis de Yonta para a secção Venice Classics representa, por isso, mais do que um reconhecimento individual. É também o reconhecimento de um cinema produzido a partir da Guiné-Bissau que continua a dialogar com públicos de diferentes partes do mundo e a ocupar um lugar próprio na história do cinema.
Trinta e quatro anos depois da sua estreia, Os Olhos Azuis de Yonta regressa aos ecrãs internacionais como uma obra que permanece atual na forma como pensa o país, a liberdade e o futuro. A sua presença em Veneza volta a colocar a Guiné-Bissau no mapa dos grandes acontecimentos cinematográficos internacionais e reafirma a importância de preservar o património cultural africano para as gerações vindouras.
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