O mundo finalmente viu Cabo Verde

July 7, 2026
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Somos um país independente desde 1975. Pequeno, sim: um arquipélago no meio do Oceano Atlântico, com mais cabo-verdianos a viver fora do país do que no próprio território. Sem petróleo, sem diamantes, com um mercado interno reduzido e uma economia que importa quase tudo. Pouca água, chuva incerta, com apenas cerca de 12% de terra arável e o desafio permanente de ligar ilhas dispersas pelo oceano. Temos boa parte do nosso talento em busca de uma vida melhor, utilizando a mesma ponte que os familiares utilizaram para chegar, sobretudo, à Europa ou aos Estados Unidos. Somos conhecidos pelas nossas praias e temos no turismo e nas remessas da nossa diáspora dois pilares fundamentais para garantir a nossa estabilidade económica.


Lido de forma fria e redutora, este primeiro parágrafo quase poderia encaixar na ideia de um Estado condenado à inviabilidade. No entanto, os Cabo-Verdianos recusaram sempre essa etiqueta, recusaram ser definidos pelas suas limitações, recusaram aceitar que a geografia, a escassez ou a dimensão fossem destino.


Foi a força de um povo que aprendeu a contrariar o inevitável. Amílcar Cabral, uma das faces maiores da nossa independência, lembrava-nos que não se reivindicam vitórias fáceis e talvez isso esteja no nosso ADN, misturado entre África, Europa e Américas: cair e levantar, resistir sem perder a ternura, avançar em comunidade, sem deixar ninguém para trás. Aqui em Cabo Verde, fintar o destino é quase herança de família e, naquele golaço de Lopes Cabral contra a Argentina, vimos um país inteiro a desafiar o impossível.

“Aqui em Cabo Verde, fintar o destino é quase herança de família e, naquele golaço de Lopes Cabral, vimos um país inteiro a desafiar o impossível”

Pedro Lopes

No Mundial de futebol, o lugar que nos reservaram era apenas o da presença. Já bastava participar, diziam. Já era suficiente estar lá. Mas, mais uma vez, recusámos esse lugar.

Foi surpresa para muitos. Para nós, foi confirmação.


E talvez tenha sido por isso que nos emocionámos tanto. Enquanto o mundo chorava porque se conectou com os valores que Cabo Verde transmitiu em campo, nós chorávamos porque, finalmente, estávamos a ser vistos, mais do que isso, estávamos a ser vistos pelo que realmente somos. Um povo que numa época obcecada com aparecer, ainda que por motivos errados, onde a humanidade e a comunidade escasseiam, escolheu ser a exceção: resiliente, unido, sem se deixar reduzir a rótulos e que precisa e quer visibilidade, mas pelos motivos certos, sim, porque, como vimos, o ser humano ainda consegue valorizar o amor, a paixão e o esforço de quem resiste.


Este Mundial mostrou também uma verdade que Cabo Verde precisa de transformar em estratégia nacional: a força da nossa diáspora, muitos dos Tubarões Azuis nasceram fora de Cabo Verde, filhos e netos de cabo-verdianos que levaram consigo uma identidade feita de memória, música, comida, língua, saudade e pertença como Pico Lopes, o nosso chefe da defesa, o homem que nasceu na Irlanda e foi chamado para a seleção através do LinkedIn. Isto é a prova viva de que Cabo Verde não termina nas nossas fronteiras marítimas. Cabo Verde continua em Roterdão, Lisboa, Paris, Boston, Brockton, Luxemburgo, Dakar, Luanda e em tantos outros lugares onde bate um coração cabo-verdiano.


O país terá ainda mais força se souber ligar-se melhor à sua diáspora. E os cabo-verdianos que vivem fora, ou que nasceram fora, tal como eu, terão também mais força se olharem para a terra dos seus pais e dos seus avós não apenas como origem, mas como futuro. Cabo Verde pode ser, para eles, uma tela ainda por pintar: um espaço de identidade reforçada, sentido de propósito, oportunidades, investimento, criação e pertença. A diáspora não é apenas nostalgia. É poder, é ponte,é escala. É uma das maiores forças estratégicas que temos.


Cabo Verde é especial, e a nossa dimensão no mapa nunca foi proporcional à nossa grandeza. Na música, Cesária Évora e Ildo Lobo abriram caminho, depois vieram Tito Paris, Sara Tavares e tantos outros. Hoje, Mayra Andrade, Dino d’Santiago, Lura, Elida Almeida e novas gerações continuam a levar ao mundo a sofisticação, a saudade, a alegria e a dignidade de um povo que resiste e encanta. Na literatura, Germano Almeida trouxe-nos o Prémio Camões e mostrou que a palavra cabo-verdiana também pode ocupar o lugar mais alto da língua portuguesa.

“O país terá ainda mais força se souber ligar-se melhor à sua diáspora”

Pedro Lopes

No desporto, conquistámos respeito no andebol, no basquetebol e agora no futebol, como um dos países menos populosos de sempre a participar nos mundiais destas modalidades. No boxe, David de Pina deu-nos a nossa primeira medalha olímpica de sempre, e Nancy Moreira continua a honrar essa modalidade. No kitesurf, Mitú Monteiro, Airton Cozzolino e Matchu Lopes levam o nome de Cabo Verde aos pódios mundiais. No windsurf, Josh Angulo fez o mesmo.


Na ciência, temos nomes como Jay Brito Querido. Nas organizações internacionais, tivemos Cristina Duarte e Helena Semedo a levantar a nossa bandeira. Na tecnologia, a NOSi e startups como Nha Bex, Sintaxy, AfricanDev e DevTrust mostram talento capaz de competir de igual para igual, trabalhando para mercados internacionais. Temos também empresas internacionais com base em Cabo Verde, como a VisionWare, a recrutar talento cabo-verdiano para trabalhar para o mundo.


Nos produtos, temos histórias com a nossa bandeira: os vinhos Chã e a Prosperous Vodka já premiados internacionalmente, o nosso grogue de Santo Antão e o nosso Café do Fogo. São marcas, produtos e símbolos de um povo que não aceita que lhe digam que não vale a pena sonhar e concretizar.


Vale a pena investir em Cabo Verde? Sim, chutem de longe como o Kevin Pina naquele livre contra o Uruguai.


No turismo, que continua a crescer. Na transição energética, porque um país com sol e vento durante todo o ano deve depender cada vez menos de combustíveis fósseis. Na transição digital, porque Cabo Verde pode ser um hub de serviços entre África, Europa, Américas e a sua diáspora. Nas indústrias criativas, na economia azul, nos jovens, nas startups e nas ideias de quem aprendeu, desde cedo, a fazer muito com quase nada.


Fica um repto simples: acreditem em Cabo Verde. Contratem cabo-verdianos, fundem empresas com cabo-verdianos, financiem os seus projectos, abram portas ao nosso talento, façam parte desta história que vos garanto que vai ser ainda mais de sucesso. Quem não quer ter ao seu lado um Vozinha, capaz de defender os seus interesses da forma como defendeu todas as bolas contra a Espanha?


O mundo emocionou-se com Cabo Verde, mas quem conhece este país sabe que isto não é ponto de chegada. É ponto de partida.


Andei pelo mundo a falar do nosso potencial. Uma vez, o Presidente Obama chamou-me “Mr. Cabo Verde” por tanto mencionar o nome que evoca a minha história e a dos meus antepassados. E, por onde passei, fiz uma promessa a mim mesmo: ninguém sairia da minha presença sem saber que este país existe e que merece ter lugar. Estes dias, chorei de alegria. Chorei porque o mundo, finalmente, viu Cabo Verde. E o meu sonho, o sonho de tantos cabo-verdianos, cumpriu-se.


Obrigado Tubarões Azuis e Staff, Obrigado Mundo por tanto carinho.


Nu bai.


Pedro Lopes

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