Estaria finalmente o Brasil (se) enxergando (em) Cabo Verde?

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O advento da Copa do Mundo de futebol masculino é um momento em que o mundo se conecta por meio de um dos esportes mais populares globalmente. Presenciamos cenas que ficam marcadas na história, tanto dentro como fora de campo. Personagens desconhecidos se tornam populares, outros já conhecidos pelo público em geral repetem seus grandes feitos ou decepcionam seus apoiadores. A partida entre diferentes seleções do mundo nos lembra, por um lado, como a identidade nacional do Estado-nação moderno continua sendo um vetor das relações políticas e como o esporte nunca foi apolítico (como alguns querem fazer parecer, essa posição, inclusive, é claramente política); por outro lado, tensões geopolíticas e relações de exploração que historicamente caracterizam o Sistema Internacional moderno são dissuadidas quando os times nacionais, com todo o apelo patriótico, disputam amistosamente as partidas como se fossem as últimas de suas vidas.


A Copa do Mundo no Brasil é um acontecimento da vida nacional. Habita as ruas um lastro de esperança misturado com descrença, afinal, não somos apenas os maiores vencedores deste torneio desde 1930, participando ininterruptamente em todas as suas edições, mas também somos o Brasil de 2014, que levou dolorosamente 7 a 1 da Alemanha, o mesmo Brasil que já não sente o cheiro da glória de ser campeão há 24 anos. Entre esperança e descrença, o futebol é um elemento do pacto da identidade nacional: o mundo, quando pensa no Brasil, pensa no futebol, e até mesmo nós, quando refletimos sobre nós mesmos no mundo, damos um lugar especial ao futebol. Futebolistas que jogam no Brasil, sejam brasileiros ou estrangeiros, costumam disputar uma quantidade de partidas anualmente acima da média de outros países.


E, uma vez que somos tão loucos por futebol, a Copa do Mundo é uma oportunidade não só de ser campeão, mas de olhar para o mundo, para os times nacionais que convencionalmente não olhamos. O Brasil é um país "ensimesmado", se, por um lado, isso é positivo, porque consumimos demasiadamente o que produzimos, seja a música, a língua portuguesa brasileira ou o futebol nacional, por outro lado, nos fechamos para toda uma extensa produção cultural na América Latina e em África que tem muito a ver com o que somos e o que produzimos enquanto sociedade. Nos momentos em que olhamos para fora, reproduzimos o complexo de "vira-lata" que observa os Estados Unidos e a Europa Ocidental como modelo, inclusive temos escutado críticas pertinentes sobre como, cada vez mais, o futebol brasileiro, o "joga bonito", tem ficado europeizado.


Mesmo não sendo especialista em futebol, penso que a Europa e os Estados Unidos não têm muito o que nos ensinar em 2026. Os Estados Unidos estão sediando um torneio mundial, mas têm sido péssimo exemplo de como lidar com pessoas estrangeiras, em particular do Sul Global, um país moralmente apodrecendo, que aumenta exponencialmente seu nacionalismo supremacista. Um Estado que não respeita as organizações internacionais das quais faz parte, que garante seu poder a partir da indústria da guerra, um país de onde se originam empresas transnacionais que acumulam cada vez mais capital e contribuem para o aumento da desigualdade global. Na Europa Ocidental, países como a França, embora tenham uma boa seleção, ainda vivem dos arranjos de exploração e domínio sobre suas antigas colônias na África, e mesmo assim dependem de outras potências para garantir sua segurança dentro do continente europeu.


Pois bem, a Copa do Mundo nos dá a oportunidade de enxergar os países que não temos enxergado, não porque somos cegos, mas porque há um projeto de ignorância sobre o Sul Global, em particular sobre o continente africano. A primeira partida do Brasil contra o Marrocos, na fase de grupos do torneio, deixou muitos brasileiros decepcionados com o empate, porque muitos se perguntavam "quem era o Marrocos diante do Brasil". E veja: o país que gosta tanto de futebol não sabia que o Marrocos foi o último campeão do Campeonato Africano de Nações (há controvérsias, mas deixamos isso para outro momento), nem que esse país foi semifinalista da última edição do mundial. Talvez soubesse, mas o Brasil ainda não consegue enxergar um país africano em igualdade, seja no futebol, seja em outros aspectos.


Esta edição da Copa, chamada de "copa das diásporas", na qual a maior parte dos jogadores não nasceu nos territórios dos países que defendem, e muitos dos que nasceram têm origens familiares em outros países, como é o caso do time da França, tem mostrado como os efeitos da globalização e das migrações pós-coloniais impactam inegavelmente as seleções no mundo. Justamente na copa das diásporas, temos observado o triunfo da seleção cabo-verdiana, pequeno arquipélago de dez ilhas na África Ocidental que, a despeito de seu pequeno território, é um grande país do ponto de vista do poder da cultura e das redes diaspóricas espalhadas por vários países do mundo. O triunfo de jogar pela primeira vez uma Copa e mostrar ao mundo o orgulho, a garra e a força da cultura cabo-verdiana contrapõe-se até a estatísticas mal-intencionadas que davam ao país apenas 1% de chance de classificação. Pois bem, os Tubarões Azuis devoraram as expectativas negativas sobre o desempenho da equipe.


No palco global, Cabo Verde chamou a atenção dos fãs de futebol no Brasil. Nas redes sociais, foi possível ver o apelo e a celebração brasileira pelo êxito de Cabo Verde, havendo inclusive plataformas midiáticas fazendo campanha para que o goleiro cabo-verdiano Vózinha ganhasse milhões de seguidores em poucas horas após o jogo entre Cabo Verde e Espanha. Parecia que os brasileiros, de maneira geral, estavam se identificando com Cabo Verde, como se esse país africano fosse algo novo na nossa história. Mas não é. Na verdade, o que o presidente José Maria Neves fala sobre "o Brasil ser um Cabo Verde grande" já foi, em outros momentos da história colonial, manifestado pelas elites do arquipélago como identificação com o Brasil. A questão é que o projeto de ignorância sobre o continente africano, que limita o que o brasileiro médio conhece sobre a África, impediu que os brasileiros tivessem maior conhecimento das similaridades e diferenças que partilhamos com Cabo Verde. Vimos, infelizmente, digital influencers brasileiros que focaram apenas em mostrar a beleza das mulheres cabo-verdianas, por vezes reproduzindo a hipersexualização que já conhecemos bem quando ouvimos comentários estrangeiros sobre a beleza da mulher brasileira, especialmente da mulher negra brasileira. Um mal do racismo e do sexismo de matriz lusitana que revela como, ainda no Brasil, a mentalidade colonial determina o modo como olhamos para os países africanos.


Ainda assim, no alto do meu otimismo, acredito que esta oportunidade de ver um país como Cabo Verde jogar na Copa do Mundo, e torcer por ele, possa gerar interesse em conhecer nossos vínculos. Conhecer o crioulo cabo-verdiano, uma língua bela, musical e poética. Conhecer clássicos da música, como Nha Nácia, Cesária Évora e Jorge Neto, ou nomes mais atuais, como Mayra Andrade, Élida Almeida, Djodjé, Nelson Freitas ou Hélio Batalha. Conhecer manifestações musicais como o batuque e o funaná. Talvez seja o momento de conhecermos a história da construção de Cabo Verde pós-independência, de seus mártires e heróis nacionais, como Amílcar Cabral, ainda um dos intelectuais e políticos africanos mais importantes do século passado. Cabral teve um papel fundamental nas reflexões popularizadas pela produção de Paulo Freire, um dos maiores pensadores sobre educação que tivemos no Brasil, citado e reconhecido globalmente. Há décadas Cabo Verde tem acordos de cooperação com o Brasil na área da educação; quadros técnicos e intelectuais cabo-verdianos foram formados em universidades brasileiras. Muitos desses cabo-verdianos ainda vivem no Brasil; há professores universitários cabo-verdianos em universidades públicas que contribuem para o avanço da ciência no país. É preciso superar esse projeto de ignorância, sair da superfície, sair dos estereótipos e perceber que Cabo Verde tem muito a nos ensinar e, finalmente, compreender que o Brasil precisa conhecer Cabo Verde para poder enxergar a si mesmo e se posicionar como um país fundamental para a diáspora africana.


No momento em que escrevo, Cabo Verde foi classificado para a 2ª fase da Copa do Mundo e enfrentará a Argentina. Naturalmente, nós, brasileiros, torcemos ainda mais para que Cabo Verde continue fazendo história no palco global e elimine a atual campeã. No entanto, espero que, depois da Copa, Cabo Verde continue sendo visto com respeito, admiração e igualdade no Brasil, para além do futebol.


Nu bai, Tubarões Azuis!

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