“Quiet Quitting”, quem pode dar-se ao luxo de dizer não?

October 12, 2026
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Jetina Sambo, fundadora da Summit Business School | DR

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Em 2022, um jovem engenheiro norte-americano publicou um vídeo no TikTok sobre a sua decisão de deixar de fazer sempre mais do que aquilo que lhe era exigido no trabalho. O vídeo tornou-se viral e popularizou a expressão Quiet Quitting, traduzida como “desistência silenciosa”. A ideia era simples: cumprir as responsabilidades profissionais sem permitir que o trabalho ocupasse permanentemente o espaço da vida pessoal.


Confesso que a expressão nunca me convenceu totalmente. Desde quando cumprir aquilo para que fomos contratados passou a ser considerado uma forma de desistência? E em que momento começámos a confundir dedicação profissional com disponibilidade ilimitada?


Durante anos, habituámo-nos a valorizar quem fica até mais tarde, responde a mensagens ao fim de semana e aceita sempre mais uma tarefa. Em muitas organizações, estes comportamentos continuam a ser interpretados como demonstrações de compromisso, mesmo quando resultam de excesso de trabalho ou receio de desiludir a chefia. O problema é que aquilo que começa como um esforço pontual pode rapidamente transformar-se numa expectativa permanente.


A pandemia tornou esta realidade ainda mais evidente. Para muitos profissionais, trabalhar a partir de casa trouxe flexibilidade, mas também maior dificuldade em separar a vida profissional da pessoal. Estar constantemente disponível passou, em alguns contextos, a ser quase tão importante como apresentar resultados.


É neste cenário que o Quiet Quitting merece ser discutido. Não apenas como uma tendência de trabalhadores desmotivados, mas também como uma reação a culturas organizacionais que se habituaram a exigir cada vez mais.


No entanto, há uma dimensão frequentemente esquecida: nem todos os trabalhadores têm a mesma liberdade para estabelecer limites.


É relativamente fácil defender que devemos aprender a dizer não quando temos estabilidade financeira, um contrato seguro ou alternativas profissionais. Mas o que acontece com quem depende inteiramente daquele salário? Com quem tem um contrato temporário ou uma situação administrativa que depende da manutenção do emprego?


Penso também nas pessoas que vivem e trabalham fora dos seus países de origem. Naturalmente, a experiência migratória não é igual para todos. Há quem tenha carreiras consolidadas, estabilidade financeira e boas condições de vida. Mas há também quem dependa do emprego para manter a sua situação legal, pagar uma habitação, apoiar familiares ou simplesmente garantir a estabilidade que procurou ao emigrar. Nestes casos, recusar determinadas exigências pode representar um risco difícil de assumir.


E esta realidade não se limita à diáspora. Também encontramos trabalhadores em situações semelhantes nos seus próprios países, sobretudo em mercados onde as oportunidades são escassas e o desemprego elevado. Quando sabemos que existem muitos candidatos disponíveis para ocupar o nosso lugar, estabelecer limites torna-se mais difícil.


Por isso, pergunto-me até que ponto o Quiet Quitting é realmente uma opção acessível a todos. Para alguns, pode representar uma decisão consciente de proteger a saúde e a vida pessoal. Para outros, é um privilégio que simplesmente não podem assumir.


Mas também não acredito que a solução passe por defender que cada trabalhador deve limitar-se rigidamente ao que está escrito no contrato. Qualquer organização precisa de colaboração, flexibilidade e pessoas dispostas a assumir responsabilidades. Há momentos em que é necessário fazer um esforço adicional, ajudar um colega ou responder a uma situação imprevista. Isso também faz parte do compromisso profissional.


A questão está na reciprocidade. Uma coisa é pedir colaboração num momento excecional; outra é construir o funcionamento habitual de uma empresa sobre a disponibilidade permanente dos seus trabalhadores.


Ao longo do meu percurso profissional, aprendi que não podemos exigir envolvimento e iniciativa sem criar condições para que as pessoas se sintam respeitadas e reconhecidas. Também não podemos esperar o mesmo entusiasmo quando o esforço adicional nunca é valorizado, as oportunidades de crescimento não aparecem ou as promessas ficam por cumprir.


Muitas vezes, aquilo a que chamamos Quiet Quitting começa com pequenas desilusões acumuladas. Uma ideia que nunca é ouvida, uma promoção sucessivamente adiada, uma carga de trabalho que aumenta sem reconhecimento. Aos poucos, o profissional continua a cumprir as suas funções, mas deixa de acreditar que vale a pena envolver-se para além do necessário.


Existe, contudo, uma diferença importante entre estabelecer limites saudáveis e perder o interesse pelo trabalho. Podemos ser profissionais comprometidos sem estar permanentemente disponíveis. E podemos estar presentes todos os dias sem nos sentirmos verdadeiramente envolvidos.


As organizações precisam reconhecer essa diferença e questionar os seus modelos de liderança. Ao mesmo tempo, os trabalhadores têm responsabilidades que não desaparecem quando termina o horário previsto. O equilíbrio exige compromisso de ambas as partes, sem transformar a flexibilidade numa obrigação permanente.


Talvez, antes de discutirmos se o Quiet Quitting representa falta de ambição ou uma nova forma de resistência, devêssemos fazer uma pergunta mais simples: quem pode realmente dar-se ao luxo de dizer não?


Estabelecer limites deveria ser um direito de todos, independentemente da sua situação profissional ou económica. Afinal, o compromisso com o trabalho não deveria exigir que colocássemos a nossa vida pessoal em segundo plano.

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