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As roças de São Tomé e Príncipe foram inscritas na Lista do Património Mundial da UNESCO. A decisão, aprovada durante a 48.ª sessão do Comité do Património Mundial, em Busan, na Coreia do Sul, representa a primeira entrada do país na lista criada para reconhecer e proteger lugares considerados de valor universal.
Com a designação oficial “As Roças de São Tomé e Príncipe: Sistema Agrícola Colonial e Migração Forçada”, o bem reúne seis antigas plantações coloniais portuguesas distribuídas pelas duas principais ilhas do arquipélago. Monte Café, Água Izé, Diogo Vaz e São João estão localizadas na ilha de São Tomé, enquanto Sundy e Belo Monte ficam na ilha do Príncipe.
A classificação contempla um bem serial, composto por seis espaços geograficamente separados, mas ligados pela história, pela organização territorial e pelo modelo de produção que sustentou a economia colonial são-tomense entre o final do século XIX e meados do século XX.
As roças foram concebidas como grandes unidades agrícolas e industriais dedicadas sobretudo à produção de café e cacau para os mercados internacionais. Dentro das propriedades encontravam-se campos de cultivo, armazéns, oficinas, estruturas de transformação, hospitais, escolas, capelas, residências administrativas e alojamentos destinados aos trabalhadores. Tudo estava integrado numa organização espacial planeada para manter a produção e controlar o território e as pessoas que nele viviam.
O reconhecimento da UNESCO não se limita ao valor arquitetónico dos edifícios nem à importância económica que o café e o cacau tiveram para São Tomé e Príncipe. A referência à migração forçada no próprio nome da classificação coloca no centro da narrativa as condições em que esse sistema funcionou.
Após a abolição formal da escravatura, as plantações continuaram dependentes de um modelo baseado na deslocação e no trabalho coercivo de populações africanas. A UNESCO identifica as roças como exemplo de um sistema agroindustrial colonial de grande escala que recorreu à migração e ao trabalho forçados para garantir a produção de mercadorias destinadas ao mercado mundial.
A disposição dos edifícios também refletia a hierarquia sobre a qual as propriedades estavam organizadas. As estruturas administrativas, industriais, religiosas e habitacionais não cumpriam apenas funções práticas. Ajudavam a separar trabalhadores e administradores, a controlar movimentos e horários e a tornar visíveis as relações de poder que sustentavam as plantações.
As seis roças foram inscritas com base no critério IV da Convenção do Património Mundial, aplicado a edifícios, conjuntos arquitetónicos, estruturas tecnológicas ou paisagens que representam períodos significativos da história humana. Para o Comité, estes espaços permitem compreender de forma material o funcionamento de um sistema colonial agrícola construído depois da abolição da escravatura, mas ainda dependente de formas de exploração e restrição da liberdade.
A inscrição foi aprovada apesar de o Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios, organismo responsável pela avaliação técnica das candidaturas culturais, ter inicialmente recomendado que o processo fosse devolvido a São Tomé e Príncipe para a resolução de problemas relacionados com a conservação, a gestão e as zonas de proteção.
Uma proposta apresentada pelo Senegal, com o apoio do Togo, do Quénia e da Tanzânia, permitiu a inscrição imediata do conjunto, mantendo, no entanto, várias recomendações que o Estado são-tomense terá de cumprir.
Entre as prioridades estão a criação formal de um Comité Nacional de Gestão, a definição de uma estratégia de conservação, o início de intervenções urgentes nos edifícios mais degradados e o reforço das zonas de proteção em torno das roças. O Comité recomenda ainda a criação de regras claras para futuras obras, recuperações e novas utilizações dos espaços.
A participação das populações locais surge igualmente como uma das condições centrais para o futuro do património. A decisão pede que as comunidades sejam envolvidas nas escolhas relacionadas com as roças e que os interesses económicos dos concessionários privados não se sobreponham à sua preservação a longo prazo.
O documento defende também a criação de oportunidades sustentáveis capazes de melhorar as condições de vida das pessoas que habitam estes territórios. São Tomé e Príncipe deverá apresentar à UNESCO, até 1 de dezembro de 2027, um relatório sobre a aplicação das recomendações, que será analisado pelo Comité do Património Mundial em 2028.
A classificação pode aumentar a projeção internacional de São Tomé e Príncipe, atrair investimento para a recuperação dos edifícios e reforçar a presença das roças nos roteiros culturais e turísticos do arquipélago. Algumas das roças da ilha de São Tomé continuam habitadas e mantêm uma dimensão comunitária. No Príncipe, a transformação de antigas propriedades em espaços de alojamento contribuiu para preservar parte das estruturas físicas, mas reduziu a presença dessa dimensão social, segundo a documentação considerada pelo Comité.
O desafio será recuperar os edifícios sem transformar lugares marcados pela exploração colonial em simples cenários turísticos. Preservar as roças implica conservar a arquitetura e as estruturas agrícolas, mas também contar a história das pessoas que foram deslocadas, controladas e obrigadas a trabalhar para sustentar a produção de café e cacau.
Ao entrar pela primeira vez na Lista do Património Mundial, São Tomé e Príncipe recebe um reconhecimento histórico, mas também uma responsabilidade. As roças passam a integrar um património considerado de valor para toda a humanidade. A memória que lhes dá esse valor, porém, não está apenas nas fachadas, nas máquinas ou nas antigas casas administrativas. Está também nas comunidades e nas histórias de quem viveu e trabalhou dentro daquele sistema.
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