“Sabes Quem Eu Sou?”, a curta angolana sobre poder e queda que já passou por seis festivais internacionais

September 24, 2026
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Still do filme "Sabes quem eu sou?"

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Em Angola, há uma frase que raramente é uma pergunta a sério. “Sabes quem eu sou?” é dita por quem tem, ou teve, poder: um político, um polícia, um general, alguém que sente que uma situação lhe é desfavorável e precisa de reafirmar o seu lugar. É muitas vezes considerada uma afirmação de arrogância disfarçada de dúvida, e é também o título da nova curta-metragem angolana realizada por Paulo Idalécio, que transforma essa expressão popular no ponto de partida de uma história sobre identidade, privilégio e queda.


Sabes Quem Eu Sou? segue Luís Oliveira, um homem que acorda no centro de Luanda vestido de fato e gravata, sem memória do que lhe aconteceu. Carrega consigo documentos que provam que já ocupou uma posição de poder, mas ninguém o reconhece. Ao longo dos 25 minutos do filme, Luís tenta, sem sucesso, impor a autoridade que já teve, e é obrigado a confrontar-se com a realidade de quem nunca teve os seus privilégios: transportes precários, hospitais sobrelotados, fome. "Sabes quem eu sou?", a frase que antes lhe abria todas as portas, volta a assombrá-lo, mas desta vez já ninguém sabe a resposta, nem ele próprio.


A ideia nasceu de uma observação direta da vida em Luanda. Idalécio explica que, entre os anos 80 e o início dos anos 2000, a cidade viu um número elevado de antigas figuras de poder, membros de partidos extintos, desmobilizados de guerra, escritores, músicos e políticos, perderem-se pelas ruas, incapazes de lidar com um país que mudava à sua volta. "É muito comum estar em Luanda, ver alguém a procurar comida num contentor de lixo e alguém dizer 'Estás a ver, este acabou mal!'", conta o realizador, para quem essa frase, dita sem grande espanto, resume uma cidade que esquece depressa quem já foi influente.

"Nós angolanos conseguimos sempre abordar as nossas lamentações com humor e com uma máscara de alegria"

Paulo Idalécio

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Still do filme "Sabes quem eu sou?"

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Still do filme "Sabes quem eu sou?"

O realizador queria mostrar a cidade que "quem está trancado nos castelos da Cidade Alta, do Miramar ou do Talatona não quer conhecer": a Luanda da zungueira que apanha da polícia por vender na rua, aquela onde a saúde é privilégio e não direito, e onde, segundo Idalécio, "o maior privilégio é depois de um dia longo de labuta, chegar a casa com vida." É também a Luanda que, nas suas próprias palavras, "acorda às 4h da manhã e se deita dorida às 11h da noite", uma cidade de contrastes onde riqueza e miséria coexistem sem se misturar.


Para contar esta história, Idalécio escolheu recorrer à sátira, ao absurdo, ao humor e ao drama psicológico, uma escolha que, explica, tem raízes na forma angolana de lidar com a dificuldade. Cita expressões e canções que atravessaram gerações, do "Angolano inventa, é a fome" cantado durante a guerra nos anos 90, à música de Paulo Flores sobre o "jeito alegre de chorar" do angolano. "Nós angolanos conseguimos sempre abordar as nossas lamentações com humor e com uma máscara de alegria", afirma, lembrando que essa forma de contar histórias já vinha do semba usado na luta pela libertação nacional, quando canções alegres em kimbundo serviam também para passar mensagens de intervenção social.


De Miguel Prince a Luís Oliveira


O protagonista do filme é interpretado por Mussunda N'zombo, artista angolano nascido Domingos de Menezes Miguel, em Luanda, em 1973, cuja prática multidisciplinar atravessa performance, artes visuais e fotografia para explorar as dinâmicas de poder e identidade. N'zombo começou por criar o alter ego Miguel Prince durante os quase 20 anos em que viveu entre Portugal, França e Alemanha, e só em 2012, já de volta a Angola, adotou o nome do bisavô e consolidou a identidade artística com que hoje é conhecido.


Idalécio segue o trabalho do artista há anos, e aponta a performance "Metamorfose", apresentada no F*cking Globo em 2018, como o momento em que percebeu ter encontrado o protagonista certo. Foi nessa performance que assistiu à transição de Miguel Prince para o Mwata dos novos tempos, um personagem que, para o realizador, "representava aquela figura política do pós-colonial, moldada pela guerra, pelos anseios socialista comunista, pensador pan-africanista, que foi corrompido pelo capitalismo". Foi a partir dessa figura que nasceu Luís Oliveira. Sobre o método do próprio N'zombo, Idalécio destaca que o artista trabalha por happening, sem guião nem preparação anunciada, deixando que cada performance reflita o momento na sua forma mais pura, e que "a riqueza e a beleza dos seus personagens e das suas performances são uma enciclopédia" para a construção não só de Luís Oliveira, como de vários outros aspetos da narrativa.


Do lado de N'zombo, o convite para o papel surgiu como uma identificação imediata com temas que já atravessam o seu trabalho artístico. "O poder, quando concentrado em determinadas entidades, pode tornar-se uma obsessão doentia", escreve o ator no material de imprensa do filme, descrevendo o projeto como "um espelho da realidade, um convite à reflexão sobre as estruturas que nos governam e sobre os limites entre autoridade e tirania."

"O poder, quando concentrado em determinadas entidades, pode tornar-se uma obsessão doentia"

Mussanda N'zombo

Depois de uma antestreia nacional no festival "O Futuro Já Era", promovido pelo Goethe-Institut Angola, em junho de 2025, Sabes Quem Eu Sou? estreou internacionalmente no Festival Cinémas d'Afrique Lausanne, na Suíça, seguindo-se exibições no CinemAfrica, na Suécia, no LusoMovies, em Roma, no Luxor African Film Festival, no Egito, no Cinalfama - Lisbon International Film Festival, em Portugal, e no FICAA, na Argentina. O filme prepara-se agora para passar pelo Watch Africa Film Festival, no País de Gales, pelo African Film and Arts Festival, em Rhode Island, e pelo Silicon Valley African Film Festival, nos Estados Unidos.


Ao longo deste percurso, o filme já recebeu o prémio de Melhor Curta-Metragem no LusoMovies e o People's Choice Award no Watch Africa Film Festival 2026. A juntar a estes palmarés, a Menção Honrosa na categoria Intercultural Dialogue do Cinalfama e a Menção Especial na Competição Oficial de Curtas e Médias-Metragens Internacionais do FICAA, cujo júri destacou a força do protagonista e a forma como o filme combina humor satírico, acidez e drama para abordar aspetos da realidade social e política contemporânea angolana.


Da reação do público fora de Angola, Idalécio recorda em particular um vídeo recebido do CinemAfrica, na Suécia, em que o público ficou de pé a aplaudir durante vários minutos. "As reações mais surpreendentes são de angolanos na diáspora", conta o realizador, que explica que, para muitos deles, que saíram do país devido à desigualdade social, ver o filme "acaba por ser um misto de memória, nostalgia e revolta." Já entre críticos e programadores, a pergunta que mais lhe fizeram foi se a personagem de Luís Oliveira era baseada numa pessoa real.


Questionado sobre o que permite que uma história tão enraizada na realidade angolana seja compreendida em contextos tão diferentes, Idalécio aponta o tema central - a corrupção - como um debate universal, e a própria linguagem do filme, que mistura humor, sátira e poética, como uma ponte para quem não conhece o contexto social específico. "A estética sonora e visual, a ousadia de fazer um cinema autoral que navega entre o humor, a sátira e a poética, permite que quem não perceba a nossa realidade social ou cultural consiga contextualizar a intenção do autor", explica.


O filme tem menos de um ano e o realizador quer vê-lo chegar a mais festivais em África e na Ásia, além de manter esperança particular no Brasil, "devido à língua e à nossa aproximação cultural". Quanto a Angola, ainda não há data para uma estreia nacional, mas Idalécio já antecipa o que significará ver o filme numa sala cheia de conterrâneos. "Acredito firmemente que tenham vários Luís Oliveira deambulando por suas avenidas", remata, sobre um público que reconhecerá, nas ruas do filme, as suas próprias ruas.


Sabes Quem Eu Sou? é uma coprodução da Uika Filmes e da Geração 80, com o apoio da Associação KinoYetu, e tem produção executiva de Paulo Idalécio e Mussunda N'zombo, produção de Blandine Klander e Kamy Lara (também responsável pela montagem), direção de fotografia de Resem Verkron, direção de arte de Prudênciana Hach, som de Quino Piñero e Bumbo Negro, música de Ismael Suama e colorização de Matondo Alexandre. O elenco conta ainda com participações de Orlando Sérgio, Clélio Márcio e Augusto Ousmane, entre outros atores angolanos.

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