Scúru Fitchádu vai condensar um concerto inteiro num "teaser" de si próprio em Hamburgo

August 28, 2026
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Scúru Fitchádu | ©Vera Palminha

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Toda a proposta de Scúru Fitchádu em palco assenta na experiência ao vivo, na ideia de que a sua música só faz sentido plenamente quando é vivida em concerto. É essa filosofia que vai ser posta à prova de 16 a 19 de setembro, quando o artista se apresentar no Reeperbahn Festival, em Hamburgo, um dos maiores showcase festivals da Europa, onde o público não é feito de fãs, mas de milhares de profissionais da indústria da música, agentes, editoras, promotores e programadores vindos de dezenas de países, à procura dos próximos nomes a levar para os seus próprios palcos.


Nesse tipo de evento, o tempo em palco costuma ser curto, e é aí que está o desafio para um artista cuja proposta é construída para durar um concerto inteiro. "Desenhar a narrativa de um espetáculo num festival regular é diferente de uma montra de música onde o público é maioritariamente composto pela indústria mundial da música", explica Scúru à BANTUMEN, descrevendo a apresentação em Hamburgo como "peculiar" em relação ao que costuma fazer. A solução passa por escolher bem o que mostrar num espaço de tempo tão reduzido. "Irei focar-me em aspetos fulcrais do que quero que conheçam da minha música, literalmente um 'teaser' do que um concerto de Scúru Fitchádu representa", afirma, sublinhando que é "importante construir uma narrativa do conteúdo em palco de forma a que seja identificável o que faço" e, acima de tudo, que fique claro que a sua música "faz sentido que seja experienciada ao vivo".


Ainda que o formato seja mais curto, o significado de estar num palco como o do Reeperbahn não é menor. Para o artista, representar ali Portugal e uma identidade cabo-verdiana ganha um peso próprio. "É sempre uma boa sensação, levar a minha música um pouco mais além, a públicos que ainda não conheçam, mas mais importante perceberem a abordagem fora do que possam estar mais familiarizados em relação à música cabo-verdiana e portuguesa", diz. Scúru descreve o que faz como uma "construção de identidade de uma África já herdada em Portugal", uma proposta que, nas suas palavras, "vai um pouco em contramão do que costuma ser engavetado".

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 ©Maria Fernandes

Quanto a expetativas concretas para Hamburgo, o artista já não vai a este tipo de evento pela primeira vez. "Tendo feito algumas feiras europeias com as mesmas características, a expetativa é chegar ao máximo de gente possível de forma a estarem presentes no meu showcase", diz. A hora da sua atuação, que classifica como "hora nobre" dentro do programa do festival, é vista como uma vantagem para atrair mais presença e, com ela, mais oportunidades. Mas Scúru é claro quanto ao que está por trás de um bom showcase, e não é apenas subir ao palco. "Não basta 'tocar' e esperar que as coisas aconteçam", continua, descrevendo semanas de trabalho de bastidores e contactos que antecedem o evento, "para que se consiga essencialmente chegar às pessoas certas de forma qualitativa e não quantitativa".


De Un Kuza Runhu a Griots i Riots


O percurso discográfico de Scúru Fitchádu ajuda a explicar a proposta que agora leva a Hamburgo. Depois de estrear-se com Un Kuza Runhu, editado em 2021, o artista lançou em 2023 Nez Txada Skúru Dentu Skina na Braku Fundu, título que, segundo o próprio, se traduz por "Nesta achada escura dentro duma esquina num buraco fundo". "Conceptualmente baseia-se na procura de identidade num chão que te pertence mas ainda é estranho", explica. Essa mesma procura atravessa também Griots i Riots, o terceiro álbum, editado em 2025, que Scúru descreve como uma invocação "da relação de onde vieste e onde te encontras. Relação entre a teoria e a reivindicação". Para o artista, os dois discos partilham a mesma raiz, "a mesma procura identitária de memória afrodiaspórica", ao ponto de as músicas de um caberem sem contraste temático no outro.


Entre o primeiro e o segundo álbum, mais do que mudar de direção, Scúru diz ter aprofundado o que já vinha a construir. "Pouco mudei na verdade, houve talvez um aproach poético mais notório no que dizer e como dizer do primeiro álbum para o segundo", afirma. Se Un Kuza Runhu trazia, nas suas palavras, "mais tensão sónica, pensada acima de tudo de como deveria ser apresentado ao vivo", a passagem para Nez Txada trouxe também uma reformulação das suas fórmulas de composição. "Senti necessidade de fazer passar a mensagem de que há algo mais que a densidade sonora e por baixo da tensão das várias camadas há uma mensagem clara", resume.


Essa mensagem ganhou também voz de outros artistas. Em Nez Txada, colaboraram Cachupa Psicadélica e Henrique Silva, nomes que, segundo o artista, "sempre gravitaram no universo de Scúru desde a sua génese", e cujo encontro no disco surgiu "de forma natural" e continua a acontecer regularmente. Também O Gajo participa no álbum, numa faixa mais acústica onde entram gaita, cavaquinho, ferro e a viola campaniça, depois de Scúru lhe fazer o convite ao seguir de perto o seu trabalho. "Este encontro tem uma simbologia grande", diz o artista, que descreve o contributo de todos os convidados como um enriquecimento natural do disco, deixando "as suas marcas e sementes do que mais possa vir a ser feito em colaboração futura". Já em Griots i Riots, de 2025, Scúru voltou a rodear-se de convidados, desta vez com "outro naipe de convidados importantes", continuando a lógica de colaboração que já vinha do disco anterior.


A presença de Scúru Fitchádu em Hamburgo acontece pelas mãos da Why Portugal, gabinete de exportação da música portuguesa, que está a apoiar comitivas nacionais em três dos principais festivais profissionais do mundo: 800 Gondomar, Sunflowers e MONCHMONC seguem para o Zandari Festa, em Seul, Scúru Fitchádu, Evaya, Hetta e IBSXJAUR representam Portugal no Reeperbahn, em Hamburgo, e Surma, Sereias, Vila e Redhead atuam no Mercat de Vic, em Barcelona. É a Why Portugal que estabelece e gere os contactos com estes festivais, permitindo que os artistas atuem perante o que Guilherme Dourado, coordenador internacional da associação, descreve como "uma plateia de oportunidades". "Os showcase festivals são hoje uma das principais portas de entrada para os mercados internacionais. Mais do que concertos, são espaços onde se constroem relações profissionais, se criam oportunidades de circulação e se iniciam colaborações de longo prazo", afirma Dourado, sublinhando que "o papel da Why Portugal passa precisamente por garantir que os artistas portugueses têm acesso a estas plataformas e às redes internacionais que são determinantes para o desenvolvimento das suas carreiras".


A Why Portugal é uma associação sem fins lucrativos, fundada em 2016 pela AMAEI, a Associação de Músicos, Artistas e Editores Independentes, com o apoio da Audiogest e da Fundação GDA. Nos últimos dez anos, já marcou presença em mais de 60 festivais profissionais, promoveu cerca de 150 showcases e apoiou centenas de artistas portugueses, entre eles Noiserv e, mais recentemente, Ana de Lor, Ana Lua Caiano e MÁQUINA. É esta rede que agora leva também Scúru Fitchádu a Hamburgo.

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