Melissa Dinda encontra em Imani uma nova forma de contar histórias

August 16, 2026
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Três anos depois de apresentar-se à BANTUMEN como escritora, criativa e artista, Melissa Dinda regressa com uma nova dimensão do seu percurso. Assina agora também Imani, nome com que constrói uma identidade musical entre soul, R&B, jazz, eletrónica e influências africanas. Em estúdio com o produtor moçambicano Ellputo, prepara Amálgama, o seu EP de estreia.


Imani é o segundo nome de Melissa. Não nasceu para funcionar como uma personagem separada, mas como uma identidade artística através da qual pode trabalhar a voz, a composição, a guitarra e o corpo. “Poderia dizer que Imani funciona como um alter ego de palco e de estúdio, mas não acho que seja exatamente isso. Ela nasce da minha própria vida, do quotidiano, das coisas ordinárias e das possibilidades de transformá-las em algo extraordinário.”


Melissa descreve-se como alguém que sempre foi tímida e introvertida. Imani continua reservada, mas arrisca mais, permite-se experimentar, sair da zona de conforto e aparecer perante os outros com uma curiosidade que a Melissa de outros momentos teria hesitado em mostrar. Quando a BANTUMEN falou com Melissa pela primeira vez, em junho de 2023, Elementos, um livro dividido entre Terra, Fogo, Mar e Ar, marcava a sua estreia na literatura. O livro atravessava memórias de infância, afetos, amor, amizade, emancipação e sonhos. Na altura, Melissa já se apresentava como “criativa e artista”, recusando limitar o seu percurso à escrita. Cantava desde a infância no Iowa Wesleyan University Choir, nos Estados Unidos, e mais tarde integrou o Coral e a Orquestra da Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, dos quais continua membro.

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“Na altura, achava que a literatura era o meu grande chamado. Hoje percebo que talvez nunca tenha sido um caminho separado da música: ela acabou por ser uma das bases da minha forma de compor, de observar o mundo e de contar histórias”, conta. A escrita continua a aparecer na música através da atenção às palavras, da construção de imagens e personagens e da tendência para escrever longamente, algo que reconhece como um desafio quando está a trabalhar numa canção, onde é preciso encontrar espaço e silêncio.

Hoje percebo que não preciso de escolher entre ser escritora e ser música. Posso ser as duas coisas. A literatura continua a ter um lugar muito especial em mim, acho que nunca deixou realmente de estar presente.”

A construção da carreira musical acontece, entretanto, em paralelo com uma vida profissional que permanece fora do palco. Melissa continua a trabalhar das nove às cinco. Formada em Psicologia Social e Comunitária, entre a Universidade Eduardo Mondlane e a Iowa Wesleyan University, está profissionalmente ligada ao marketing. “Não deixei simplesmente o meu trabalho para me dedicar à música; estou, neste momento, a aprender a construir as duas coisas em paralelo.” O processo exige tempo, estudo, disciplina e presença, mas Melissa gosta de não dividir a própria vida entre uma “vida real” e uma “vida artística”. “Ambas fazem parte de mim.”

Quando decidiu profissionalizar as composições, Melissa procurou alguém com experiência, criatividade e disponibilidade para experimentar sem lhe impor uma identidade musical fechada à partida. Conhecia há anos o trabalho de Ellputo, nome artístico de Etivaldo Victorino, produtor, DJ e artista ligado à criação da Sameblood Productions, com mais de duas décadas de percurso e colaborações com vários nomes da música moçambicana e africana. "Eu não estou presa a um género ou a uma fórmula, por isso precisava de alguém que conseguisse entrar nesse universo comigo", explica. O primeiro encontro foi informal e resultou num "match imediato" - receava que ele não quisesse trabalhar com uma artista ainda a descobrir a própria voz, mas Ellputo aceitou juntar-se ao projeto.

O estúdio tornou-se também lugar de aprendizagem técnica: a diferença entre cantar diante de um público e cantar para uma gravação, a procura da emoção e da intenção certas, não apenas do som certo. Os dois partilham um perfecionismo que Melissa descreve sem rodeios: "Se forem precisos vinte takes, fazemos vinte takes. Não paramos simplesmente porque já temos uma gravação. Queremos chegar àquilo que sentimos que funciona." Por vezes, o processo começa fora do estúdio, com notas de voz difíceis de traduzir por palavras: "Às vezes mando um voice note completamente estranho e digo: 'Olha, mano, não fujas.' No final, conseguimos transformar essas ideias aparentemente desconexas em alguma coisa que tem forma, estrutura e identidade." A colaboração, insiste, não lhe retira intimidade ao processo, mas "às vezes ajuda-me a descobrir coisas que sozinha não teria conseguido encontrar."

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A biografia artística de Imani aponta para uma sonoridade entre soul, R&B, jazz, música clássica e eletrónica; Amálgama parte de uma base de soul e R&B aberta ao jazz, à eletrónica e ao afropop. Mas Melissa recusa fechar essas referências numa fronteira: "Acho que é precisamente a liberdade de não estar presa a uma única referência sonora. As referências podem mudar, os géneros podem conversar entre si e a produção pode levar-nos para lugares diferentes, mas quero que exista sempre uma identidade emocional e lírica que seja reconhecível" - o lirismo das letras, o timbre da voz, a liberdade criativa.

Entre as referências que cita estão Sade, D'Angelo, Toni Braxton, Nina Simone, Beyoncé, Stevie Wonder, Prince, Frank Ocean, Fela Kuti, Brenda Fassie, Mingas e, no hip-hop, Kendrick Lamar - menos pelo som do que pela forma como cada um transforma personalidade e experiência em música: a elegância e a intimidade de Sade, a intensidade de Nina Simone, a liberdade de Prince, a escrita introspetiva de Frank Ocean, a palavra como instrumento narrativo de Kendrick Lamar. "No fundo, o que me inspira é a possibilidade de uma canção ser simultaneamente bonita, emocional e dizer alguma coisa."

Se Elementos nasceu de analogias com a natureza, Amálgama parte das contradições da própria experiência musical: "uma sensação muito forte de vulnerabilidade, a alma despida, a voz que quer cantar e, ao mesmo tempo, quer calar-se; o corpo que procura aconchego, mas também movimento; a mente inquieta, que procura conhecimento e sabedoria, mas que também precisa de silêncio e de momentos de desconexão da realidade." O processo também é mais lento e mais exigente do que o do livro: "Amálgama tem-me levado muito mais tempo. Estou constantemente a repensar a escrita, a procurar a palavra certa, a tentar transmitir exatamente o sentimento que quero através da melodia. Neste momento sinto-me quase uma perfecionista neurótica, no bom sentido."

Os temas atravessam amor, amizade, sonhos, superação, desamores e as inquietações que a juventude lhe provoca, sendo o amor entendido num sentido alargado, "relações familiares, amizades, relações humanas, causas e a forma como nos relacionamos com o mundo". As inquietações sobre o estado do mundo têm sido as mais difíceis de transformar em canção: "A juventude é uma fase muito complexa; por mais que tentemos simplificá-la, existe uma quantidade enorme de coisas a acontecer simultaneamente. Vivemos realidades diferentes, mas existem muitas coisas que nos aproximam: as incertezas, a ambição, a energia física e, ao mesmo tempo, o cansaço mental de crescer num mundo tão conectado e globalizado." Essa imprevisibilidade mudou também a forma como planeia a própria vida: "Durante muito tempo fui uma pessoa de planos muito definidos, até tinha planos de cinco e mais anos. Hoje levo muito mais um dia de cada vez."

Melissa começa habitualmente pelas letras e por ideias melódicas, só depois desenvolvendo a construção instrumental e a gravação, e recusa fechar o EP apenas para  poder anunciá-lo. "Sou muito intencional na forma como estou a fazer este projeto. Apesar de ser um EP, não quero simplesmente reunir algumas músicas e chamar-lhes um EP; quero construir um universo sonoro e visual para Imani e para as histórias que estão a ser contadas." 

Os primeiros singles deverão chegar antes do EP, podendo ou não integrar Amálgama; ainda não há colaborações vocais anunciadas nem apresentações ao vivo confirmadas, embora esteja prevista uma dimensão performativa depois dos primeiros lançamentos. A ausência de participações, nesta fase, é deliberada: "Como este é o meu primeiro projeto, sinto que ainda estou a encontrar a minha voz e que preciso de tempo e espaço para explorar antes de começar a adicionar muitas outras vozes ao meu universo."

Três anos depois de organizar o mundo através da Terra, do Fogo, do Mar e do Ar, Melissa propõe agora algo menos compartimentado: uma mistura de literatura e música, trabalho e criação, intimidade e palco, disciplina e intuição. "Talvez seja precisamente nessa mistura que Imani encontra a sua identidade", conclui.

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