Stela Dalva encontrou na internet o palco para se tornar artista

May 21, 2026
Stela Dalva entrevista
Stela Dalva | DR

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Filha de um ator e de uma cantora, Stela Dalva cresceu num ambiente onde a arte fazia parte do quotidiano e habituou-se desde cedo ao teatro, à música, aos ensaios e aos bastidores.  Esse é também um dos motivos pelos quais a criação foi vista como uma forma de estar, muito antes daquilo que hoje entendemos por influencers/criadores de conteúdo, rótulo que assume não ser suficiente para defini-la. “Eu não me vejo apenas como criadora de conteúdos. Vejo-me como artista. Cresci no meio artístico e é muito difícil para mim dizer que sou influencer. Sinto-me mais confortável a ser chamada de artista”, admite.


Apesar disso, a herança artística demorou a ser visível para quem a seguia online. Habituados ao meio e a tudo o que isso implica, os pais, desde sempre, protegeram os filhos da exposição pública e Stela foi revelando essa parte da sua história aos poucos, à medida que também ia ganhando confiança para mostrar mais de si. Entrou nas redes sociais ainda adolescente e sem grandes intenções: começou a gravar vídeos de forma espontânea, quase às escondidas, num registo íntimo e pouco planeado. Era mais um espaço de desabafo do que propriamente um projeto.


Em 2020, tudo mudou. Publicou no TikTok um vídeo que partia das inseguranças acumuladas depois de mudar de país, a dificuldade em adaptar-se a um contexto diferente, a sensação de não se reconhecer num espaço que ainda não sentia como seu. Falava de deslocação, de desconforto, de identidade suspensa. O vídeo viralizou, sobretudo entre o público brasileiro, e trouxe-lhe uma visibilidade que até então não tinha imaginado. O maior receio, naquele momento, mais do que a reação de quem a seguia era o que os pais, que só souberam da publicação quando o vídeo já circulava amplamente, poderiam pensar. A resposta foi mais serena do que Stela esperava: a mãe conversou com ela sobre o que estava a sentir e reforçou-lhe a autoestima; o pai, mais atento aos riscos do meio, apoiou-a com avisos claros sobre os perigos da internet e a importância de se preservar.

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“A internet é um lugar que te pode deixar doente”

Stela Dalva

Stela Dalva entrevista

Stela Dalva na gala PowerList BANTUMEN 100, em 2025.

O que o vídeo revelou foi qualquer coisa para além da visibilidade e, através dos comentários e das mensagens, começou a encontrar outras mulheres negras que se reviam no que dizia. Sobretudo mulheres que também viviam em meios maioritariamente brancos e reconheciam naquela fala dúvidas semelhantes sobre identidade, pertença e imagem. Foi essa identificação que lhe mostrou o alcance real do que publicava e foi aí que percebeu também que a exposição tinha um custo - financeiro e emocional.


Durante muito tempo, a criação de conteúdos não lhe trouxe retorno financeiro significativo, era sobretudo um espaço de expressão, experiência e comunidade. Nos primeiros anos, via outros criadores, sobretudo em Angola, a profissionalizar-se com mais facilidade, enquanto ela ainda tentava perceber como funcionava esse universo. Hoje soma cerca de 886 mil seguidores no TikTok, onde ultrapassa os 24 milhões de gostos, e cerca de 139 mil seguidores no Instagram. O mais relevante no seu percurso, além da dimensão da audiência, é a relação construída com quem a acompanha, feita de identificação, escuta e projeção, mas também marcada por tensão e responsabilidade.


Como acontece com muitos jovens que entram cedo nas redes, Stela acreditou, no início, que conseguiria manter distância emocional. “Nós entramos sempre com aquela armadura de que os comentários negativos não nos vão doer”, diz. Mas, com o tempo, percebeu que a internet a afectava, com uma intensidade amplificada pela idade e pela exposição constante. “Eu podia ter mil comentários bons, bastava um negativo para me abalar completamente.” Houve períodos em que se deixou prender pelos comentários, pelas visualizações e pela ansiedade em torno do desempenho de cada publicação. “A internet é um lugar que te deixa doente. Os números viciam”, afirma. Quando começou a perceber que passava demasiado tempo a medir gostos, seguidores e comentários, criou uma regra para si mesma: afastar-se sempre que aquilo deixasse de lhe fazer bem. “Se vejo que estou a importar-me muito com likes, visualizações e comentários, tiro tempo para mim.”


Nessa aprendizagem, a família e os amigos tiveram um papel central. Foram a rede de apoio que a ajudou a manter os pés assentes fora do ecrã e a distinguir a violência digital da realidade concreta. Com o tempo, foi ganhando ferramentas para se proteger: a decisão de não ler tudo o que é escrito sobre si, e de não fazer das métricas o centro da sua relação com a criação. Essa mudança também alterou a forma como comunica. Nos primeiros anos, os vídeos eram mais impulsivos, próximos do desabafo direto. Hoje, embora continue a falar de questões pessoais, pensa com mais cuidado no modo como essas partilhas podem ser recebidas por quem a segue, em particular por jovens que ainda estão a construir a sua relação consigo próprios.


Fala a partir da sua experiência como mulher negra e é com outras mulheres negras que sente maior identificação, sobretudo com aquelas que vivem em meios brancos e lidam com pressões específicas ligadas à imagem, ao cabelo, aos padrões de beleza e ao sentimento de não pertença. "Se tu não vês a minha cor, tu não estás a ver-me." Em Angola, muitas dessas questões não ocupavam o mesmo espaço na sua vida. Foi noutro contexto que começou a sentir de forma mais aguda a pressão sobre a aparência e a diferença. O cabelo, a forma como era vista, os padrões de beleza e a própria autoestima passaram a ser temas mais presentes e levaram-na a olhar com mais atenção para o modo como o racismo, a representação e a imagem continuam a marcar o quotidiano de muitas mulheres negras.


As conversas com mulheres mais velhas mostraram-lhe que este não é apenas um problema da sua geração. Mesmo em contextos onde a maioria da população é negra, persistem hierarquias que classificam traços, texturas de cabelo e tons de pele. Stela reconhece que muitas dessas feridas continuam abertas e vê no seu trabalho uma forma de nomeá-las a partir de uma posição de partilha.


A poesia entrou nesse percurso como um espaço mais reservado. Se os vídeos eram a parte visível da sua expressão, a escrita tornou-se o lugar onde conseguia organizar o que sentia com mais profundidade e clareza. Numa fase marcada por mudança e adaptação, escrever foi uma ferramenta de sobrevivência: quando não conseguia identificar o que sentia, escrevia. Durante muito tempo, esses textos ficaram guardados só para si. A passagem da escrita privada para o espaço público aconteceu mais tarde, depois de começar a ver outros criadores a trabalhar a poesia nas redes sociais. Entre essas referências esteve a brasileira Gabi Stakka, que a impressionou pela forma como transformava experiências pessoais em linguagem poética. "Hoje consigo escrever poesia e não apenas expulsar tudo o que sinto."


Mais uma vez, a reação do público surpreendeu-a. O que tinha começado como prática íntima encontrou eco em quem a lia e ouvia. Ainda assim, Stela mantém uma relação espontânea com a escrita em que não segue um método rígido, não escreve por calendário e não força temas. Há poemas que nascem de experiências vividas, outros da observação, da música ou do silêncio.

Stela Dalva entrevista

DR

Dividida entre a criação de conteúdo e as palavras, não esconde um outro amor: a representação, linguagem que assume ser a mais antiga de todas. O fascínio pelo palco vem da infância, dos dias em que acompanhava os pais ao teatro e observava tudo com atenção. Mais recentemente, esse interesse ganhou forma concreta com a participação em Tóxico, um filme de cerca de 42 minutos em que interpreta Diva, uma estudante universitária confrontada com vários dilemas pessoais. Foi a primeira experiência em cinema e também a confirmação de que é nesse território que continua a imaginar-se. Percebeu, ao mesmo tempo, que representar para câmara é mais exigente do que esperava: ao contrário do teatro, onde a energia se constrói diante do público de forma contínua, o cinema obriga a repetir cenas, controlar gestos, manter intensidade emocional em vários takes e trabalhar dentro de uma lógica muito mais técnica.


Ter o pai por perto ajudou-a a atravessar esse processo. Pedia-lhe conselhos, ensaiava com ele, tentava compreender detalhes da interpretação. O ambiente de rodagem também contribuiu para que a experiência fosse mais leve e ter vários colegas que estavam igualmente a viver a primeira vez em cinema, entre eles Karen Serena, com quem já tinha proximidade,  facilitou a cumplicidade durante o trabalho. No fim, a experiência reforçou uma convicção antiga: a representação continua a ser um dos lugares onde mais se imagina no futuro.


Enquanto explora a criação digital, a poesia e o cinema, Stela frequenta o segundo ano de Jornalismo. A escolha não nasceu de uma vocação clara, até porque durante muito tempo imaginou-se noutras áreas, como Direito, Biologia Marinha ou Criminologia. Entrou sem grandes certezas, mas foi reconhecendo utilidade no curso em componentes como a pesquisa, a organização da informação, a construção de entrevistas, a capacidade de observar com mais rigor. Mesmo que não se imagine necessariamente numa redação, reconhece que a formação lhe deu ferramentas para pensar melhor e comunicar com mais clareza.


Talvez por ter começado muito cedo, Stela olha agora para essa entrada precoce nas redes com lucidez. Quando pensa nas raparigas mais novas que querem seguir o mesmo caminho, o conselho é reflexo daquilo que, se pudesse, teria evitado: "Não comecem tão cedo." Para Stela, é fundamental que qualquer presença online seja acompanhada por referências sólidas, por consciência crítica e, acima de tudo, por uma vida real que não dependa do ecrã. A família, os amigos, a rotina e as experiências concretas são, para si, a âncora necessária para que a exposição não ocupe tudo.


Quando fala do futuro, a representação continua a ser uma das suas maiores ambições, mas Stela fala também da vontade de criar uma marca de beleza focada em mulheres negras, a partir da constatação de que muitas continuam a ter dificuldade em encontrar maquilhagem adequada ao seu tom de pele. A isso junta-se um desejo de contribuir para mudanças ligadas à educação, à cultura e à valorização das línguas nacionais em Angola. Quando fala desse horizonte, regressa sempre à mesma ideia: não é possível pensar transformação sem falar de autoestima, seja ela individual ou coletiva. É essa convicção que atravessa grande parte do que diz e do que cria.

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