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Yuran Tinta chegou ao Brasil em 2011 com o objetivo de terminar o ensino médio e regressar a Angola. Não regressou. Ficou, fez uma licenciatura em Relações Internacionais, trabalhou em restauração e hotelaria enquanto tentava encontrar espaço num mercado que não conhecia, e acabou por construir uma carreira no universo digital que hoje lhe permite trabalhar exclusivamente como criador de conteúdo, através da sua empresa, a YUNICRIA LTDA.
Sem oportunidades concretas na área em que se formou, Yuran investiu cerca de 700 reais (cerca de 120 euros) num curso de redes sociais no Senac. O resto veio do YouTube, de horas de estudo autónomo e de uma aposta deliberada no LinkedIn como ferramenta de construção de contactos profissionais. Foi nessa fase que entrou para agências de publicidade como gestor de redes sociais, incluindo a Mynd, então uma das maiores do setor no Brasil. "Na Mynd percebi que havia pessoas realmente a mudar de vida através disso. Foi aí que comecei a acreditar no meu próprio trabalho", conta.
A experiência em agência deu-lhe algo que considera estrutural: compreender o marketing de influência a partir de dentro, com os seus processos, métricas e lógicas de negociação. Quando saiu para trabalhar por conta própria, levou essa visão consigo. "Aprendi que precisava posicionar-me como empresa para ganhar respeito das marcas e negociar melhor."
Essa postura traduziu-se em colaborações com marcas como o Itaú, a Amazon Brasil, a Natura e a Lacoste, entre outras. Uma das campanhas que mais o marcou aconteceu quando ainda tinha sete mil seguidores, numa publicidade de dimensão considerável que o surpreendeu pela escolha. "Pensei: por que é que me escolheram a mim? Foi aí que percebi que o meu trabalho tinha algo diferente." Mais recentemente, integrou uma campanha da Doritos ao lado de Ronaldo Fenómeno. "Para quem só o via pela televisão, foi uma honra enorme", relembrou o influenciador e criador de conteúdos angolano.
“Jogos de azar já são um problema de saúde pública. Tive a opção de seguir esse caminho e preferi não seguir”
Yuran Tinta

DR
A consistência do trabalho mede-se pelas marcas com que Yuran Tinta colabora, mas também pelas que recusa. Nos últimos anos, o mercado brasileiro de criação de conteúdo foi atravessado por um volume considerável de publicidade ligada a apostas desportivas e jogos de azar, um setor que cresceu de forma acelerada após a regulamentação das apostas online no país. Yuran optou por não seguir esse caminho. "Jogos de azar já são um problema de saúde pública. Tive a opção de seguir esse caminho e preferi não seguir." Admite que a decisão teve custo financeiro. Acredita que ganhou em reputação. "Quando se é creator, é preciso fazer uma escolha. Eu escolhi a credibilidade. Sei exatamente o tipo de conteúdo que viraliza mais rápido, mas não é o posicionamento que quero", explica.
Esta recusa tem a ver com uma convicção mais ampla sobre o que é construir presença digital de forma sustentável. Para Yuran, a diferença entre ter seguidores e ter uma comunidade existe e é determinante para o trabalho operacional, porque uma comunidade compra, recomenda e defende. Enquanto isso, um simples “número” não faz nada. "A Internet ensinou-me que criar comunidade é mais importante do que apenas ter seguidores. Prefiro crescer devagar, com pessoas que realmente apoiam o meu trabalho."
Ser angolano no Brasil também moldou a sua forma de estar publicamente. Yuran nunca escondeu a origem nem adaptou o sotaque para facilitar a integração. Quando lhe perguntavam por que motivo o sotaque não tinha mudado ao fim de mais de uma década, a resposta volta-se para aquilo de que a comunicação é feita, entendimento: "Tu me entendes, certo? Então porque preciso mudar?" Mais do que uma posição identitária, é uma leitura pragmática de que a diferença, bem gerida, pode ser um ativo. O que falta, diz, não é reconhecimento cultural mútuo entre Angola e Brasil, é circulação real. "Nós, países de língua portuguesa, somos dos únicos que nem fronteiras fazem entre si. Qualquer movimento de conexão vai ser bem-vindo."
Nos últimos anos, a paternidade reorganizou as suas prioridades de Yuran. O nascimento do filho alterou a forma como gere o tempo e como pensa a responsabilidade pública do que publica. "Hoje não me posiciono como antes. Preciso ser espelho para o meu filho e para outras crianças que estão nas redes sociais." Ser pai, proporcionou-lhe a possibilidade de ser uma referência concreta para o que estava a construir. "Desde que o meu filho nasceu, consigo estar em casa todos os dias para acompanhar o crescimento dele. Trabalhei muito para construir essa possibilidade."
O próximo passo é sistematizar o que aprendeu. Atualmente, Yuran prepara um e-book dirigido a novos criadores de conteúdo e continua a desenvolver os seus canais de YouTube, incluindo o projeto "Família Angozuca". A ideia é deixar disponível o que, quando começou, não existia para ele. "Na época eu não tinha ninguém para me ensinar. Hoje sinto que posso ser essa pessoa."
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