TAAG retoma ligação a Cabo Verde dez anos depois

August 19, 2026
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A companhia angolana inicia a 31 de Outubro uma nova operação entre Luanda e a Praia, com escala em Dakar. O regresso acontece uma década depois da suspensão da rota e num momento em que Angola e Cabo Verde procuram aumentar o turismo e a conectividade dentro do continente africano.


A ligação aérea entre Angola e Cabo Verde vai voltar a fazer parte da rede regular da TAAG. A companhia angolana prevê iniciar, a 31 de Outubro de 2026, a rota Luanda–Dakar–Praia, recuperando uma conexão entre os dois países que estava interrompida desde 2016.


A operação não será um voo sem escalas. A viagem entre Luanda e a capital cabo-verdiana passará por Dakar, no Senegal, solução que transforma o regresso da TAAG a Cabo Verde numa operação com uma ambição regional mais ampla: voltar a aproximar Angola do arquipélago e, ao mesmo tempo, reforçar a presença da companhia na África Ocidental.


O anúncio encerra, pelo menos no plano operacional, um processo que se prolonga há vários anos. A TAAG suspendeu no final de 2016 a antiga ligação Luanda–São Tomé–Praia, alegando falta de rentabilidade. A decisão foi particularmente sentida por operadores económicos e pela comunidade cabo-verdiana residente em Angola. Desde então, o regresso dos voos foi anunciado e discutido em diferentes momentos, sem chegar a concretizar-se.


Em 2018, os dois governos já tinham começado a negociar uma maior cooperação no transporte aéreo. Quatro anos depois, Cabo Verde e Angola assinaram um novo Acordo Bilateral de Serviços Aéreos, memorandos entre as autoridades de aviação civil e um acordo de cooperação entre TAAG e TACV. Na mesma fase, um Boeing 737-700 da companhia angolana foi disponibilizado à transportadora cabo-verdiana em regime de dry lease.


A recuperação da rota é, por isso, também o resultado de uma aproximação institucional que antecede o anúncio de 2026.


Mas a ligação entre Angola e Cabo Verde é muito anterior às respectivas companhias aéreas e até à independência dos dois Estados.


Os primeiros imigrantes cabo-verdianos documentados em Angola chegaram em 1914, num movimento migratório que aumentaria durante o período colonial. Investigação histórica recente aponta para cerca de 20 mil cabo-verdianos a viver em Angola em 1974 e 1975, nas vésperas das independências dos dois países. Ao longo das décadas, essa presença deixou marcas familiares, culturais e sociais particularmente visíveis em Luanda.


É neste contexto que uma ligação aérea regular entre as duas capitais ganha um peso diferente daquele de uma simples expansão de mapa comercial. Existe uma circulação histórica de famílias, profissionais, empresários e estudantes entre os dois territórios que ficou dependente, durante a última década, de itinerários com escalas noutras cidades.


O momento escolhido para o regresso também coincide com uma fase de crescimento da actividade turística nos dois países, embora em escalas bastante diferentes.


Em Cabo Verde, os estabelecimentos hoteleiros receberam 1.248.052 hóspedes em 2025, mais 6% do que no ano anterior. Cerca de 95,5% das entradas foram de não residentes. Nos primeiros três meses de 2026, o crescimento acelerou: foram contabilizados 379.657 hóspedes, uma subida homóloga de 16,8%, sendo 96,4% estrangeiros.


O arquipélago continua, no entanto, fortemente concentrado nos mercados europeus e nas ilhas tradicionalmente turísticas. Em 2025, Sal recebeu 57,7% das entradas nos estabelecimentos hoteleiros e Boa Vista 24,4%, enquanto Santiago, onde se encontra a cidade da Praia, ficou pelos 8,1%. Uma ligação regular com Luanda pode contribuir para diversificar geografias e mercados emissores, ainda que seja prematuro estimar o impacto que terá no turismo da ilha de Santiago.


Angola também apresenta números de crescimento. Segundo dados divulgados pelo Governo angolano com base no Barómetro da ONU Turismo, o país recebeu cerca de 223 mil turistas internacionais em 2025, ultrapassando os 217 mil registados em 2019. O Executivo apontou para um crescimento próximo dos 30% nas chegadas internacionais. Os turistas de lazer passaram de 43.396 em 2024 para 52.072 em 2025.


A nova rota pode, portanto, funcionar nos dois sentidos: aproximar o mercado angolano da oferta turística cabo-verdiana e inserir Cabo Verde numa rede africana que a TAAG procura alimentar através de Luanda.


Há, porém, uma questão decisiva ainda sem resposta pública: quanto vai custar viajar entre Luanda e Praia pela TAAG?


À data desta publicação, a transportadora ainda não apresentava Praia entre as ofertas destacadas no seu site. Nos comparadores de viagens, os preços existentes para Luanda–Praia continuam a reflectir sobretudo itinerários com outras companhias e escalas mais longas. A eDreams apontava para ofertas a partir de aproximadamente 502 euros, com uma média indicada superior a mil euros. Já a Skyscanner apresentava para Novembro valores que começavam, dependendo das datas e combinações, na zona dos 430 a 500 euros por trajecto. São apenas referências de mercado e não tarifas oficiais da nova rota da TAAG.


Preço, frequência e duração total da viagem serão determinantes para perceber se a nova operação consegue evitar o problema de rentabilidade que levou à suspensão da ligação anterior.


Dakar acrescenta ainda outra possibilidade. A capital senegalesa é um dos principais pontos de conexão da África Ocidental e encontra-se a cerca de uma hora de voo de Bissau. Actualmente não existe uma ligação aérea directa entre Luanda e a Guiné-Bissau, enquanto entre Dakar e Bissau existem serviços sem escala.


Isto significa que a nova rota pode aproximar indirectamente Angola da Guiné-Bissau, outro país com fortes ligações históricas e humanas ao espaço lusófono africano. Mas é importante estabelecer a diferença: a presença da TAAG em Dakar não cria automaticamente uma ligação Luanda–Bissau. Para transformar essa proximidade geográfica numa conexão verdadeiramente funcional seriam necessários horários compatíveis e, idealmente, acordos comerciais ou de interline com companhias que operam para Bissau.


É precisamente aí que a nova Luanda–Dakar–Praia poderá revelar a sua dimensão mais interessante. A TAAG afirma querer transformar Luanda num ponto de ligação dentro do continente. Para que essa estratégia ultrapasse o discurso institucional, a companhia terá de conseguir oferecer preços competitivos, horários adequados e conexões que permitam aos passageiros africanos viajar entre países africanos sem depender sistematicamente de escalas na Europa.


O regresso de Cabo Verde ao mapa da TAAG é um passo nessa direcção. Dez anos depois da última tentativa, o teste começa a 31 de Outubro.

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