Yuran quer pôr Moçambique no centro do rap feito em Portugal

May 22, 2026

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Membro dos Instinto 26, um dos nomes que mais têm marcado a nova vaga do hip-hop feito em Portugal, Yuran Salvatore dá agora um passo decisivo no seu percurso com Nakupenda, o seu primeiro álbum a solo.


O projeto, lançado esta sexta-feira, 22 de maio, reúne oito faixas e apresenta um Yuran mais exposto, mais melódico e mais interessado em transformar afeto, memória e identidade numa linguagem própria. Se nos Instinto 26 o público já conhecia a força do coletivo, em Nakupenda aparece uma outra camada: a do artista que quer falar de amor sem reduzi-lo à dor.


“Bem, neste álbum estou a trazer uma parte de mim também, que é mesmo amor”, explica. “Nem tudo no amor precisa ser sofrido. Há várias fases do amor e eu sinto que estou a explorar essas fases que vivi, tanto com damas, com amigos, família.”


Nakupenda significa amor, amar, expressão afetiva e nasce também de uma aproximação mais consciente às suas raízes moçambicanas. Filho dessa ligação entre Moçambique e Portugal, Yuran cresceu num lugar onde a memória familiar, a língua, a música e a distância se foram cruzando. Para encontrar o nome certo do disco, voltou-se para dentro.

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“São histórias minhas, são histórias de outras pessoas. Para fazer música também não precisa ser tudo teu”

Yuran Salvatore

Yuran Salvatore entrevista album Nakupenda

Yuran Salvatore | ©BANTUMEN

“Neste álbum fui mais dentro também das minhas raízes”, conta. “Fui pesquisar, falei com a minha mãe, fiz perguntas. Cheguei ali ao significado de amar e disse: é mesmo isto. Enquadra-se naquilo que eu quero mostrar, a africanidade que eu quero mostrar, aquilo que eu sou.”


Mas o amor de Nakupenda não é só romântico. É também abrigo, companhia, força, família, amizade, pertença. Yuran insiste que o disco nasce dessa mistura. Não quer apresentar uma obra presa à ideia de sofrimento, ainda que reconheça que a dor também faz parte do caminho. “Claro que tem dor, mas também tem o mix. É um amor de abrigo, de força, de bem-estar. Porque para estares bem tens que sofrer.”


A vontade de falar a partir de si, mas sem ficar fechado apenas na sua experiência, atravessa todo o álbum. “São histórias minhas, são histórias de outras pessoas. Para fazer música também não precisa ser tudo teu. Há várias histórias que se contam e tocam-te, e também podes expressar essas histórias. É um mix das minhas histórias, das minhas raízes, de tudo aquilo que passei com outras histórias que também me marcaram.”


O processo de criação surgiu depois do álbum de grupo dos Instinto 26. Admite que estava numa fase mais tranquila, quase em pausa, até que as conversas com managers, amigos e equipa empurraram o projeto para a frente. Algumas músicas já existiam, mas foi a partir dessas conversas que percebeu que havia ali um corpo de trabalho.


“Depois também do álbum de grupo estava uma beca na maionese, estava a relaxar. Depois, de conversas com managers e amigos, chegámos a um ponto: temos que avançar, temos que fazer. Eu já tinha músicas que sentia que eram um bom início. Depois dessas conversas avançámos para o final, que é hoje o álbum que estás a ver.”


Yuran descreve-se como um artista de processo misto. Tanto grava ideias no telemóvel durante uma viagem de carro com Julinho KSD ou Trista, como chega ao estúdio e constrói a partir da energia do momento. Há frases que nascem de conversas soltas, melodias que ficam guardadas, ideias que voltam dias depois. “Cascatas Nicarágua”, uma das faixas que destaca no projeto, nasceu precisamente dessa lógica quase espontânea. “Muitos sons surgiram assim: de eu ter umas dicas no telemóvel. ‘Cascatas Nicarágua’, por exemplo, é uma dica que surge a falar. Chego a casa e fiz. Acho que é um mix de tudo. Sou um gajo bem dinâmico no que toca à música.”


Apesar de agora assinar um álbum a solo, assume que isso não representa um afastamento dos Instinto 26, pelo contrário. O grupo aparece como base, motor e referência. Quando fala da sua carreira, fá-lo sempre no plural, como quem sabe que a identidade individual também se constrói a partir de uma casa comum. “Nós todos temos fome, literalmente. Se eu estou bem, se o Trista está bem, o Instinto 26 está bem. Não em termos só de música, mas de tudo aquilo que nos acompanha. Só posso ajudar alguém se estiver bem, e vice-versa.”

“Mem Martins é vida mesmo. Há música em cada canto, arte em cada canto. É muito talento junto e guardado. Tem que ir para fora”


Yuran Salvatore

Para Yuran, não existe competição interna. Existe caminho partilhado. “Ninguém ofusca ninguém”, diz. Cada elemento sabe o seu lugar, sabe o que quer ir buscar e sabe que o crescimento de um pode fortalecer todos. Essa consciência também se sente na forma como fala da equipa, das discussões criativas, das ideias que às vezes chocam antes de encontrarem uma direcção comum. “São quatro cabeças diferentes, pensamos diferente, mas no fundo o resultado é o mesmo. Saber ouvir é sempre importante. No final, todos querem o bem para ti.”


Mem Martins e a Linha de Sintra entram nesta história como matéria-prima e o próprio fala da zona que o viu crescer como quem fala de uma escola informal, onde a música, a arte e o talento estão espalhados pelas esquinas, pelos comboios, pelos freestyles e pela convivência com os mais velhos. “Mem Martins é vida mesmo. Aprendi também com os mais velhos. Há música em cada canto, arte em cada canto. Vês na linha de comboio, nos comboios pintados, numa esquina people a fazer freestyle. Isto é muito talento junto e guardado. Tem que ir para fora.


A ideia de pôr para fora também passa por Moçambique. Yuran reconhece que, no contexto da música urbana feita em Portugal, nem sempre há espaço suficiente para que artistas com raízes moçambicanas contem essa parte da sua história. E quer que “Nakupenda” também abra essa porta. “Era excelente poder trazer as minhas raízes, poder mostrar que lá também há música boa. De Moçambique continua a sair música boa, vários artistas também.”


A ligação ao país de origem surge muito através da família, sobretudo da mãe, que tem um papel central no percurso do artista. Foi ela quem manteve viva essa proximidade com Moçambique, mesmo à distância. Foi também ela quem lhe deu liberdade para fazer música. “A minha mãe apoia. Tenho que agradecer pelas vezes que ela me ouviu no quarto a gritar às cinco da manhã a fazer som. Ela deu-me liberdade para eu fazer as minhas coisas e poder estar aqui.” Mostra-lhe músicas, envolve-a no processo, ainda que deixe claro que a arte continua a ser o seu território. “Ela ouve. Acho importante estar envolvida nisso”, diz.


No plano musical, Nakupenda é composta por canções de desejo, de memória, de superação e de afirmação. Quando questionado sobre as faixas que levaria para o topo, escolhe “Cascatas Nicarágua”, “Amor 26” e “Puro”. A primeira descreve como uma noite quente, ligada ao início de uma descoberta, ao prazer e à intensidade de algo novo. “Puro” é mais introspectiva, ligada ao momento em que percebe que já consegue falar daquilo que passou sem que a ferida pese da mesma forma.


“‘Puro’ é à volta de sofrer, de perceber o que era realmente o amor para mim. É eu ouvir mais forte a minha mágoa e dizer: estou pronto, agora vou falar daquilo que passei, já não me dói.” Já “Amor 26” é uma declaração à sua casa artística. “Os meus rapazes, forever for life. Tudo o que eu fizer tem de referir de onde é que eu venho e o porquê de hoje continuar a fazer música. Muito implica Instinto 26.”

“Há outra maneira de consumir música e se calhar tenho que me adaptar. Mas não dizendo que é para fazer música fast food. Nunca na vida”

Yuran Salvatore

O álbum também permite conhecer uma dimensão mais pensativa de Yuran. O próprio assume que este trabalho mostra vontade, ideias e uma versão mais amadurecida de si. Mas recusa a ideia de “novo capítulo” como se houvesse uma ruptura com o passado. “Mostra um Yuran mais pensativo, o meu lado de amor, mas acima de tudo mostra ideias, mostra vontade, mostra o novo eu. E isto é a ponta do iceberg. Não gosto de dizer que isto é um novo capítulo. É a continuação de uma história.”


Há ainda, na conversa, uma preocupação com o tempo em que a música circula hoje. Enquanto artista, sabe que o consumo é rápido, que as canções chegam e passam pelo telemóvel em ciclos cada vez mais curtos, mas não aceita que isso obrigue os artistas a fazer música descartável. “Há outra maneira de consumir música e se calhar tenho que me adaptar. Mas não dizendo que é para fazer música fast food. Nunca na vida. A música tem força e continuamos a expressar sentimentos e mensagens.”


A frase é o argumento que usa para que o público perceba melhor Nakupenda. O disco não parece querer ser apenas uma montra de singles, nem apenas uma afirmação técnica. É uma tentativa de deixar algo mais duradouro: uma imagem mais completa de Yuran Salvatore, das suas raízes, da sua zona, da sua família, do seu grupo e da forma como entende o amor.


No fim, o desejo do rapper é que, mais do que números, streams ou validação imediata, o público reconheça a música. “Além de views, plays e streams, quero que digam: boa música, está bom. Era isto. O tempo de espera valeu a pena.”

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