“Há coisas que nós não imaginávamos para nós”. Falámos com Safari sobre sonhos, crescimento, música e comunidade

May 22, 2026

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Em entrevista à BANTUMEN, Safari apresenta-se como um jovem artista, membro dos Afrokillers, dupla de referência da música eletrónica em Portugal. Mas a conversa rapidamente sai do território puramente musical e abre caminho para outras dimensões da sua vida. Fala como pai, como sonhador, como alguém que aprendeu a avançar entre dificuldades, mudanças e a necessidade de manter boas energias no percurso.


Antes de se tornar Safari, é Hugo, um homem que se vê como uma pessoa atravessada por várias experiências, entre o bairro, a família, a música e a estética.


A Apelação, bairro localizado no concelho de Loures, é um dos lugares a partir dos quais Safari aprendeu a olhar para o mundo. Não a descreve apenas pela dificuldade, nem aceita que seja reduzida a uma narrativa única. Trata-se de vir de um sítio segregado, mas, ao mesmo tempo, de um lugar que partilha experiências com muitos outros territórios, sem que isso signifique que todos os percursos sejam iguais.


Foi ali que aprendeu a observar. Diz-nos que era tímido, mas atento às pessoas, às energias, aos talentos e aos caminhos que cada um acabou por seguir, muitas vezes condicionados pelas oportunidades que existiam ou faltavam. Entre essas referências, lembra a jovem que faz unhas e que poderia estar a trabalhar no centro de Lisboa, e até do  dealer da zona que talvez pudesse gerir uma empresa. “Essas são as minhas inspirações, sejam boas ou más”, afirma Safari sem romantizar e reforçando o desperdício de de inteligência e capacidades que existem nesses espaços. Para ele, quando se cresce em certos contextos, o sonho chega cedo e também parece ter prazo curto. Aos 18 anos, muitas vezes, “ou dá ou não dá”. É a partir daí que o artista pensa a pobreza para lá da falta de dinheiro, e assume que a mesma surge, muitas vezes, como uma limitação do imaginário. “Não tem a ver com a tua conta. Tem a ver com o teu gosto, com o teu estilo, com aspirações.”


A roupa entra nesse mesmo lugar de afirmação. Safari prefere falar de roupa, mais do que de moda, porque a entende como apresentação, cuidado e primeira impressão. “A roupa é um modo de expressão. É o modo como tu te vais apresentar.” A relação com a imagem vem de casa, já que a mãe era costureira. Mas, no seu caso, a roupa acompanha a música, o momento em que se encontra e a forma como se posiciona. Se antes arriscava mais nas cores, no cabelo e numa energia mais expansiva, hoje sente-se numa fase mais simples, mais clean e mais adulta, alinhada com a procura de um novo nível para o som que tem vindo a construir.


É o posicionamento de alguém que olha para a roupa, para a música e para as artes como espaços de liberdade, mas sabe que, para corpos negros, essa liberdade é muitas vezes interpretada e julgada. Por isso, fala também de estratégia: saber entrar em determinados espaços, comunicar e adaptar a imagem sem perder a identidade. As suas referências passam por Martine Rose, Fela Kuti, Miles Davis e pelo street, numa mistura entre África, diáspora, punk e música.


Um dos momentos mais fortes da conversa surge quando recorda que só teve a possibilidade de viver legalmente em Portugal aos 30 anos, episódio que o leva a uma leitura muito além de um detalhe burocrático. Para o artista, foi uma experiência que deixou marcas na forma de estar no mundo e na relação com a liberdade, com a circulação e com a confiança. Hoje, aos 32 anos, viaja, trabalha, sobe a palcos e atravessa fronteiras, mas reconhece que certas ansiedades não desaparecem apenas porque a situação se regularizou. “Para mim, o problema de vida foi ter um documento”, afirma e é a partir desse lugar, entre o que já conseguiu desbloquear e aquilo que a vida lhe ensinou a temer, que pensa sobre o futuro e quer que aquilo que para a sua geração chegou tarde, ou pareceu impossível, se torne normal para quem vem depois.

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“O nosso primeiro passaporte é mesmo a nossa cor”

Safari

Safari entrevista

Safari | ©BANTUMEN

Ao ser questionado se se sente definido pelo que cria, pelo lugar que ocupa na sociedade ou pela sua condição racial, Safari não separa a trajetória artística da experiência de ser homem negro na Europa nem tão pouco escolhe apenas uma dimensão: tudo faz parte de um processo, ainda que o ponto de partida seja inevitável: “Claramente começo como homem negro. O nosso primeiro passaporte é mesmo a nossa cor.”


Essa consciência, no entanto, não aparece como prisão. Safari reconhece o peso da cor, mas recusa que ela seja o único horizonte possível. Acredita que pode ser mais do que aquilo que o mundo projeta sobre si, incluindo “simplesmente um empreendedor”. O risco, diz, está em transformar a experiência negra num filtro absoluto, capaz de limitar a imaginação antes mesmo de o mundo fazê-lo “Há algumas pessoas que vão sempre por aquele bloqueio de ‘sou negro, as coisas vão ser difíceis’. Não. Está difícil para todos. Ninguém é herói. É uma questão de sabermos bem o que é que nós queremos”, afirma. Não é uma negação das barreiras estruturais, que reconhece, mas prefere não partir delas como destino. O que lhe interessa é perceber até que ponto certas limitações também foram ensinadas, repetidas e interiorizadas ao longo do tempo. Há portas que continuam fechadas, mas há também caminhos que muitas vezes nem chegam a ser tentados porque alguém fez parecer, cedo demais, que não eram possíveis.


Para o instrumentista, ser afro-europeu hoje é viver uma experiência ambígua, num tempo em que as identidades negras estão mais visíveis, mas também mais observadas e nem sempre reconhecidas na sua complexidade. Por vezes, sente que existe a impressão de que a negritude está “na moda”, embora haja algo que, na sua opinião, não se fabrica nem se imita. “Quem é negro sabe. A nossa energia é nossa mesmo. Nós não forçamos. Não é algo que se finge.


Ainda assim, o artista não descreve a sua vida como impossível nem dramatiza artificialmente a sua presença. Reconhece que houve lugares onde nunca se imaginou. “Vim de onde eu venho. Há coisas que nós não imaginávamos para nós. Não é um cenário possível, ainda mais como negro.” A resposta que encontrou para esse espanto foi não limitar a própria capacidade. Como diz, “na minha cabeça, o truque é ser criança.” Talvez por isso insista que ainda falta contar muita coisa sobre a presença negra em Portugal e na Europa. “Vai parecer assustador, mas eu quase digo que, se calhar, 80% eu acho que não estamos a falar. Estamos a contar a nossa história aos poucos.


Tal como alguns jovens afrodescendentes que crescem moldados pela dinâmica de estar sem verdadeiramente pertencer, assume que houve um momento em que tentou mudar a sua forma de estar para se tornar mais “palpável” para uma determinada comunidade ou indústria, mas percebeu que isso o afastava de si próprio. “Eu tenho que ser eu mesmo. Não tenho que ter medo de ser africano, não tenho que ter medo de ser eu mesmo.” Ainda assim, ser fiel a si não significa ficar parado. Para Safari, identidade significa saber de onde se vem e, ao mesmo tempo, crescer, melhorar e mudar.

“Não posso viver só no que acredito. Tenho que experimentar coisas. Tenho que acreditar que existe mais do que eu sei”

Safari

Essa rigidez, que reconhece em gerações anteriores, não precisa de ser repetida. “Os nossos kotas são assim mas nós não temos a necessidade de ser assim.” A sua geração não viveu a mesma realidade dos pais e aquilo que hoje parece normal, como a presença de jovens negros em certos espaços de Lisboa, nem sempre foi vivido dessa forma por quem veio antes. Recorda uma conversa com a mãe sobre a comunidade negra no Bairro Alto nos anos 90, cuja presença era pouco visível, e reconhece essa distância entre os tempos: “Para nós hoje em dia é normal.”


A diferença não apaga a história, mas obriga a reescrevê-la. Para Safari, a presença negra em Portugal não cabe numa só narrativa. A Apelação tem uma realidade, a Linha de Sintra tem outra e cada território carrega experiências próprias, com pontos de encontro, mas também com especificidades que precisam de ser respeitadas.


Quando sobe a um palco ou entra num espaço institucional, sabe que há uma comunidade projetada sobre si, mas entende que a primeira responsabilidade é consigo próprio. “Primeiramente, levo-me a mim, porque eu não posso falhar.” Só depois vem a representação coletiva. O seu trabalho, diz, representa uma comunidade, mas também um conjunto mais amplo de pertenças: o bairro, os amigos, os ideais, a comunidade PALOP e tudo aquilo que o atravessa. “É um conjunto. É um misto de várias coisas.”


Safari não quer viver apenas preso ao que já conhece e para chegar mais longe acredita que precisa não só de olhar para aquilo que aprendeu, mas também de aceitar que há mais para descobrir. "Não posso viver só no que acredito. Tenho que experimentar coisas. Tenho que acreditar que existe mais do que eu sei."


Na música, observa o crescimento do afro house com entusiasmo e cautela simultânea, sentindo que a nível internacional há portas abertas enquanto em Portugal a percepção é bem mais dividida, e apesar de existirem propulsores do género há muito tempo, considera que o país apenas descobriu o afro house nos últimos anos, deixando o estilo ainda "um pouco nos cantos" a nível nacional.


Segundo Safari, esse crescimento não depende apenas dos artistas, mas sim de uma indústria capaz de reconhecer, estruturar e acompanhar o movimento de forma a distinguir o lado artístico do lado do negócio, sendo que a falta de organização abre espaço para que outros cheguem, capitalizem e contem a história como se fossem donos de um percurso que começou muito antes. Essa possibilidade o incomoda, embora não o prenda à frustração, pois sabe que os géneros evoluem e são constantemente reinterpretados e disputados, e o que realmente o preocupa é perceber como é que outros conseguem construir narrativas tão bem feitas que, apesar de nem sempre refletirem a realidade, acabam por se tornar realidade. "É isso que assusta muita gente: as pessoas verem que não têm capacidade de dar uma narrativa e verem uma narrativa bem construída, que às vezes, se calhar, não é a realidade, tornar-se realidade."


A abertura que muitos pediam traz consigo novas possibilidades, mas também novas responsabilidades, pois "vamos ter mais gente a perceber, mas vamos ter mais pessoas a contar a história", e apesar de ser atravessado por várias camadas sociais, identitárias e políticas, Safari continua a colocar a música no centro de tudo porque sente que é ali que tudo começou para ele. "A minha vida toda foi assim. Sou rato de estúdio", confessa o artista, revelando como essa relação profunda com a música também molda a responsabilidade que sente perante os mais jovens, sabendo que pode ser visto como referência estética e simbólica, ainda que nem sempre se sinta completamente confortável com esse lugar.


O cuidado passa por tentar transmitir uma noção do que é certo e errado num trabalho contínuo que nunca fica totalmente resolvido, especialmente porque foi no Centro Comunitário da Apelação que descobriu a possibilidade de ser artista, e hoje quer contribuir para que outros percam receios e consigam imaginar caminhos diferentes. "Sou artista porque dentro do meu bairro, na altura, houve projetos que me ajudaram a descobrir isso dentro de mim", diz com convicção, refletindo sobre como deseja estar mais próximo dos jovens, tal como outros estiveram para ele.


Quando olha para o Safari do início, a frase que escolhe é simples mas reveladora: "Tudo é possível", não porque sempre tivesse sabido que chegaria aqui, mas precisamente porque não sabia e havia outras urgências e preocupações que pareciam bem mais importantes na altura. Consegue hoje reconhecer a distância percorrida e dizer que está feliz com a pessoa em que se tornou, mesmo sabendo que o mundo pode ser melhor ainda que continue perigoso, ruidoso e cheio de opiniões, e fala como artista, mas também como homem negro, pai, filho de sonhadores e alguém vindo de um lugar onde muitas histórias ainda não foram contadas, acreditando que com o tempo haverá mais espaço para falar, trabalhar e existir de forma mais normalizada.

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