Capital Africana da Cultura. O teste cultural de Cabo Verde começa antes de 2028

June 2, 2026
Cabo Verde Capital Africana da Cultura
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Em 2028, Cabo Verde vai ter um ano inteiro para mostrar que cultura não é apenas palco, cartaz ou celebração oficial. É trabalho, circulação, memória, turismo, emprego, arquivo, formação e política pública. A escolha do arquipélago como Capital Africana da Cultura 2028 abre uma oportunidade rara: transformar uma distinção simbólica num processo com impacto real para artistas, comunidades, municípios e indústrias criativas.


A designação foi formalizada em Rabat, Marrocos, através da assinatura de um protocolo entre Khalid Tamer, diretor executivo das Capitais Africanas da Cultura, e Augusto Veiga, ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde. A iniciativa deverá decorrer entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro de 2028, colocando o país no centro de uma programação dedicada à cultura africana, ao intercâmbio artístico e à valorização do património cultural do continente.


O mais interessante, até agora, é que Cabo Verde não quer tratar esta escolha como um evento concentrado numa só cidade. “Queremos um programa coerente, criativo e com inovação, que possa transmitir a nossa cultura”, disse Augusto Veiga, ministro da Cultura e Indústrias Criativas do país, na altura do anúncio oficial. Segundo as informações avançadas, o programa deverá envolver várias ilhas e será estruturado em articulação com o comité internacional da iniciativa. A ideia é que o país funcione como território de encontro entre o continente africano e a diáspora, com participação do Estado, das autarquias e do sector não estatal, incluindo actores privados e culturais.


De acordo com a agência Inforpress, na prática, o que está confirmado é o arranque de um trabalho preparatório que inclui a criação de uma comissão executiva e a mobilização de curadores para diferentes áreas artísticas. O programa deverá assentar em pilares como herança histórica, memória colectiva, práticas culturais, juventude, apoio a novas gerações de artistas e promoção das indústrias criativas. 


Para Cabo Verde, o ganho pode ser maior do que a visibilidade internacional. O país tem uma cultura com forte circulação fora das ilhas, da música à literatura, da gastronomia às festas populares, da língua às práticas comunitárias. Mas essa presença global nem sempre se traduz em estruturas fortes dentro do próprio território. A Capital Africana da Cultura pode ajudar a inverter parte desse desequilíbrio, se for usada para reforçar infraestruturas, criar redes de circulação artística, apoiar criadores locais e dar continuidade a projectos depois de 2028.


O ministro Augusto Veiga tem defendido que a iniciativa deve servir para desenvolver a cultura e as indústrias criativas, reforçar o turismo cultural e colocar a cultura na dinâmica de desenvolvimento do país. A ambição anunciada passa também por deixar impacto nas políticas públicas, no sector artístico e na cooperação entre Cabo Verde, África e a diáspora.


Há aqui um ponto importante para um país arquipelágico: descentralizar não pode significar apenas levar atividades para fora da capital durante alguns dias. Se a programação chegar a várias ilhas com projectos pensados a partir dos próprios territórios, Cabo Verde pode usar 2028 para valorizar diferentes expressões culturais, envolver comunidades locais e evitar que a cultura seja vista apenas como produto para visitantes.


A dimensão turística também merece atenção. O turismo em Cabo Verde tem sido muitas vezes associado ao sol, à praia e ao lazer. A Capital Africana da Cultura pode ajudar a alargar essa imagem, dando mais espaço ao turismo cultural, à história, à criação contemporânea, aos arquivos vivos das comunidades, aos festivais, aos circuitos artísticos e às narrativas que existem para lá da paisagem.


Mas a distinção também traz perguntas. Ainda não foram tornados públicos detalhes como orçamento, calendário completo, nomes de artistas, programação por ilha, critérios de escolha dos projectos ou mecanismos directos de apoio aos criadores. Esses dados serão decisivos para perceber se 2028 será apenas um ano de eventos ou se pode deixar capacidade instalada no país.


A iniciativa das Capitais Africanas da Cultura foi criada para valorizar a cultura como parte do desenvolvimento sustentável, estimular políticas culturais locais e reforçar a circulação de artistas, ideias, conhecimento e competências no continente africano. Também assume como objetivo fortalecer os ecossistemas culturais e criativos, com atenção particular à criação de riqueza e emprego.


É nesse ponto que Cabo Verde terá o seu maior desafio. Receber a Capital Africana da Cultura é importante. Fazer com que ela beneficie artistas, técnicos, produtores, municípios, escolas, comunidades e jovens criadores será ainda mais importante.


Em 2028, o país terá uma plataforma continental. O que ficar depois desse ano dirá se Cabo Verde recebeu apenas um título ou se soube transformar a cultura numa ferramenta concreta de futuro.

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