Citrus, o beatmaker que virou rapper para completar os próprios beats

June 6, 2026
citrus sinagoga ep entrevista
©BANTUMEN/Wilds Gomes

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O nome veio de uma fábrica nos Países Baixos. Trabalhava com frutas cítricas - laranjas, limões - e a zona onde passava os dias chamava-se Citrus. Não sabia. Quando descobriu, achou que era um bom nome. Pensou primeiro numa marca de roupa com símbolo de laranja. Acabou por ficar com outra coisa.


Perseus Beatz, como era conhecido inicialmente, chegou ao rap pelo caminho mais longo. Fazia beats, mandava para amigos e o que recebia de volta nunca era o que sentia que as produções pediam. Havia sempre os mesmos resultados, algo que ficava aquém, que não chegava onde ele queria. Antes de alguma vez pensar em cantar, já escrevia: poesias, pensamentos, o que lhe vinha à mente. Um dia decidiu tentar. "Se calhar o que eu procuro está em mim mesmo", percebeu.


Como beatmaker, o processo depende de para quem produz. Quando é para si, a letra vem primeiro: estrutura o que pensa, e só depois tenta transpor essa emoção para a melodia, para que não haja incoerência entre o que escreve e o que soa. As suas letras tendem para o social e o introspectivo, o que o puxa naturalmente para o piano, para progressões de acordes mais melancólicas. Quando produz para outros, lê o mercado e lê a pessoa, avalia quem vai cantar, que estética serve e que referências fazem sentido.


É precisamente contra a lógica do mercado que orienta boa parte do seu trabalho. No contexto angolano, diz, os beats têm quase sempre a mesma estética: a estética brasileira, trap espaçado, melodias de guitarra que já circularam demasiadas vezes, o mesmo padrão repetido. Para sair disso, vai buscar o que está fora do óbvio: melodias que podem parecer estranhas à primeira, corais antigos, horas no YouTube à procura de corais ciganos que possa samplear e transformar. Não é uma postura estética por princípio; é uma resposta ao que sente que falta.

"Não havia necessidade de estar a tentar parecer perfeito num mundo de imperfeições"

Citrus

citrus sinagoga ep entrevista

©BANTUMEN

Foi desse pensamento que nasceu Citrus Land, o selo que leva o seu nome, por sugestão de um amigo que lhe disse para pegar no nome e fazer algo com ele. Até então nunca tinha parado para pensar nisso. E entretanto os amigos foram chamando: citrus, sítios, títulos. O nome foi ficando.

Como rapper, o que procura é diferente do que procura como produtor, mas complementa-o. As músicas estão cada vez mais curtas, cada vez mais centradas num único assunto repetido em palavras diferentes. O que quer fazer é outra coisa: que quem ouve sinta que o artista disse algo que o próprio ouvinte nunca conseguiria dizer, mas que reconhece como seu ao ouvi-lo.


Sinagoga, EP lançado recentemente, é o primeiro disco em que aparece dos dois lados, a produzir e a rappar. O título vem de uma analogia que foi crescendo ao longo de anos e de cidades. Saiu de Angola, do Lobito, e chegou primeiro a Castelo Branco, "das zonas mais frias de Portugal", diz, num contraste que sentiu no corpo depois de vir do litoral. Foi ali que começou a moldar-se aquilo que o EP viria a ser, há seis anos. Depois veio Aveiro, um meio-termo entre o frio e o calor, entre o que ainda estava a construir e o que já entendia de si. Depois Viana do Castelo, onde percebeu "o que precisava ser e não aquilo que queria ser". Cada cidade deixou uma marca diferente no disco, mesmo que na altura quisesse fugir de cada uma delas. "Difícil, mas necessário", resume.


A sinagoga do título é uma analogia ao mundo em que vivemos. A referência parte da trajetória de Jesus a contrariar os fariseus, a pregar no dia errado, a dizer o que era considerado profano, a mostrar que o que prendia as pessoas já estava ultrapassado. Citrus pega nessa analogia e aplica-a aos contextos sociais, políticos e psicológicos do presente: as estruturas que nos fecham, as propostas que aparecem para encurtar o caminho. O diabo que prometeu coisas, que prometeu que com a música se chega a certos lugares e que pode ser o diabo, ou podem ser as pessoas à volta. Uma das faixas do EP fala exactamente disso: "O diabo falou comigo, mas eu fingi que não ouvi. Fingi que não ouvi, mas eu ouvi."


As seis faixas movem-se entre essa dimensão alegórica e a experiência concreta da imigração e os desafios que viveu ao chegar a Portugal, os que ouviu de outros. Expor foi o momento mais difícil do processo. Não porque o material fosse demasiado pesado, mas porque era demasiado seu: coisas que as pessoas à sua volta nunca tinham visto nele. Houve partes de letras que cortou. Nem tudo era autobiográfico, mas grande parte era, e o receio de ser reduzido àquilo que escreveu pesou.

O medo maior nunca foi o ouvinte desconhecido, mas quem já o conhecia de antes, quem ia ouvir e perceber que aquilo era cru, que ele estava a expor abertamente os próprios traumas, os próprios medos, os fracassos e os erros cometidos ao longo do caminho. Foi ao perceber que a sinagoga, no fundo, somos todos e que nenhum de nós chega isento de erros, que deixou fluir. "Não havia necessidade de estar a tentar parecer perfeito num mundo de imperfeições."


É precisamente essa imperfeição partilhada que define o que procura como rapper. Não quer fazer música centrada num único assunto repetido em palavras diferentes, até porque o que sente que domina cada vez mais o que se consome. Quer que quem ouve sinta, nas suas palavras, "que ele disse algo que eu nunca conseguiria dizer, mas ouvir por meio dele." É essa a distinção que tenta guardar.

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