“SATURN”, de Kael, é um álbum sobre queda, identidade e reconstrução

June 5, 2026

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Kael chega a SATURN depois de uma longa relação com a música, mas também depois de um período de silêncio enquanto artista em nome próprio. Conhecido anteriormente como King Reapa, o músico, compositor, produtor e engenheiro de som apresenta agora o seu primeiro álbum de estúdio sob uma nova identidade artística, num projeto que reúne 16 faixas e fecha o ciclo iniciado com os singles “Rise”, “Pray For Me” e “Peace Of Mind”.


O álbum chega esta sexta-feira, 5 de junho, às plataformas digitais, e afirma-se como um corpo de trabalho conceptual, construído em torno de uma travessia entre colapso, confronto interior, vulnerabilidade e reconstrução. Ao longo do disco, Kael trabalha temas como identidade, dúvida, amor-próprio e aceitação. Em entrevista à BANTUMEN, Kael explica que SATURN é uma forma de organizar experiências, dores, aprendizagens e perguntas que nem sempre encontram espaço nas conversas mais próximas.“A música é sobre mensagem, sobre passar o testamento daquilo que foi a vida. É sobre debruçarmo-nos sobre assuntos sobre os quais talvez não temos coragem de nos debruçar com os nossos amigos, com os nossos familiares”, afirma Kael.


Nascido em Faro, em 1989, Micael Fernando Cardoso Nascimento Lopes construiu parte significativa do seu percurso entre diferentes geografias. Passou por Portugal, Angola e Moçambique, lugares que atravessam a sua forma de pensar som, identidade e pertença. Em Angola, cofundou com Luzingo o duo de produção Matumbeats e integrou o coletivo Reais Camaradas. Em 2018, fundou os Red Room Studios e a editora Crown Ent. Entre 2021 e 2022, em Moçambique, trabalhou como sound designer em mais de 50 filmes asiáticos e assinou a banda sonora original da série “A Infiltrada”.


Essa experiência acumulada, entre produção, escrita, engenharia de som e criação, chega agora a um álbum em que Kael não se limita a mostrar domínio técnico. Em SATURN, o artista coloca-se no centro da própria narrativa.“O álbum em si, no seu core, é direcionado para pessoas como eu e tu”, explica. “Há aqui uma certa cena na sociedade em que acho que todas as outras etnias, raças, tons de pele, culturas têm uma cultura masculina muito presente. E, com isso, têm uma base para se comparar e para chegar. E nós nem sempre temos isso.”

Kael SATURN álbum

©BANTUMEN

É a partir dessa ausência, ou dessa instabilidade, que o disco também se constrói. Kael fala de uma experiência marcada pela necessidade de aprender com a vida, de se reconstruir sem modelos sempre disponíveis e de criar linguagem onde muitas vezes houve silêncio.“Este álbum foi feito porque eu passei por certas cenas, tive que aprender com a vida. Como isso vai ser interpretado, como eles vão ver-me, não é uma coisa que me dê medo. Não me dá receio algum, porque acho que isso vai chegar a quem tem que chegar.”, diz.


Entre as faixas que ajudam a desenhar esta viagem, “Rise” surge como ponto de partida, “Moonflower” mergulha na incerteza e na procura de identidade, “Saturn”, que dá nome ao álbum, coloca diferentes versões do artista frente a frente, e “Little Things” representa a chegada a um lugar de cuidado consigo próprio. Para Kael, esta última é uma das músicas mais importantes do projeto, também pela carga emocional e pelas participações que reúne.


Quando pensa nas faixas que melhor apresentariam o álbum ao mundo, Kael escolhe “Mind”, “SOS” e “Little Things”. A primeira, explica, funciona como cartão de visita do projeto e como ponto de partida, mesmo sendo a última faixa do disco. Já “SOS” é descrita pelo artista como a música mais comercial que alguma vez fez, sem que isso diminua o entusiasmo com que fala dela. Em “Little Things”, destaca a importância emocional da faixa, a sonoridade e as participações de Libra e Broken, artista do Reino Unido.


A lista de faixas de SATURN inclui ainda colaborações de Luzingo, Kenny Caetano, Mirza Launchad e Weskley De Oliveira. A produção é maioritariamente assinada por Luzingo, com contributos de A1, She The Rookie e Niiko, cruzando hip hop, soul e trap com influências dos anos 80. Apesar da diversidade sonora, Kael pensou o disco como uma sequência contínua, feita para ser atravessada do início ao fim. Para o artista, o álbum ganha outra dimensão quando escutado mais do que uma vez. “Para as pessoas que vão ouvir o álbum, é uma viagem. E, se tirarem tempo para ouvir mais do que uma vez, vão poder tirar muito sumo dali. Muitas boas vibes. Vão curtir, vão dançar. Se prestarem muita atenção, vão chorar."


Apesar de ser o primeiro álbum de estúdio sob o nome Kael, o projeto nasce de uma maturidade artística construída ao longo de anos. A novidade, para o artista, não está apenas no lançamento, mas também na forma como este processo foi vivido. Habituado a trabalhar sozinho, Kael encontrou nesta fase uma equipa disposta a organizar, amplificar e proteger a sua visão, sem a descaracterizar. “Quando estás habituado a fazer tudo sozinho, és tu e as tuas ideias, mas tu rapidamente te fartas das tuas ideias. Quando estás com outras pessoas, quando as ideias não ligam, tu já ficas frustrado: ‘esse pessoal não está a entender-me’. Mas é uma cena de encontrar o equilíbrio, porque eu estou habituado a trabalhar sozinho. Então, é confiar.”


Essa confiança, diz, tem sido uma aprendizagem e admite que o trabalho em equipa também implica discussões, discordâncias e ajustes, mas encara esse processo como parte natural da construção coletiva. O mais importante, defende, é chegar a um consenso e conseguir fazer acontecer. Depois desta experiência, acredita que voltar a trabalhar sozinho será difícil, precisamente porque uma equipa permite dividir responsabilidades e criar espaço para que possa concentrar-se mais na dimensão artística, sem ter de assumir “tudo e mais alguma coisa”.


Mas lançar música em 2026 implica também enfrentar um mercado marcado pelas redes sociais, pelos algoritmos e pela pressão para transformar arte em conteúdo. Para Kael, esta relação é uma das tensões mais difíceis de gerir. “A associação das redes sociais e da arte é tóxica”, afirma. O artista reconhece a importância das plataformas digitais, mas questiona a forma como condicionam o comportamento de quem cria e de quem consome. 


O artista reconhece a importância das plataformas digitais na divulgação de música, mas questiona a forma como condicionam quem cria e quem consome. Para Kael, as redes podem servir de montra, mas não substituem o contacto direto com o público, nos concertos, nos eventos e nos encontros fora do ambiente digital.


Para terminar a conversa, Kael volta ao lugar de onde SATURN parece nascer: a necessidade de dizer sem pedir licença para ser entendido por todos. O álbum chega depois de anos de trabalho, silêncio, deslocações e recomeços, mas não carrega a ansiedade de agradar ao algoritmo ou de caber numa fórmula de consumo rápido.“Não me dá receio algum, porque acho que isso vai chegar a quem tem que chegar”, afirma.

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