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Quando Délcio Santos fala sobre jiu-jitsu, não se trata apenas de um desporto de combate repleto de movimentos técnicos e competições acirradas. Para este professor e empreendedor do Cacém (Sintra), faixa preta 2.º Dan e campeão nacional, a prática representa uma ferramenta poderosa de desenvolvimento pessoal que transcende o tatame e invade cada aspeto da sua vida: da relação familiar ao desempenho como gestor de negócios, passando pela sua trajetória como atleta competitivo.
A história de Délcio com o jiu-jitsu começou aos dezoito anos, mas apenas aos 23 anos é que realmente decidiu experimentar a modalidade. Esse momento, que poderia ter passado despercebido, revelou-se decisivo. "Adorei", conta com entusiasmo. O que verdadeiramente transformou a sua jornada, porém, foi o encontro com o seu mestre Leonardo Costa. "Assim que tive a primeira aula com ele, percebi que isto era realmente o que eu queria para a vida", recorda. Os valores que Costa transmitia na aula alinhavam-se perfeitamente com os que Délcio já carregava consigo, como o respeito, união, disciplina, família e responsabilidade.
Num mundo que frequentemente associa as artes marciais à violência e ao domínio sobre o adversário, Délcio oferece uma perspetiva radicalmente diferente. Embora as suas academias formem efetivamente campeões de competição - tendo-se ele próprio sagrado recentemente Campeão Nacional de Jiu-Jitsu, no dia 11 de abril de 2026 - com títulos nacionais e participações em campeonatos mundiais, o seu verdadeiro foco reside naquilo que designa como "campeões da vida".
"O jiu-jitsu é um desenvolvimento e uma ferramenta de desenvolvimento pessoal brutal", explica. Essa distinção transforma a forma como encaramos o papel de um instrutor. Para Délcio, o sucesso manifesta-se quando um antigo aluno chega até si e relata estar mais calmo, mais capaz de resolver problemas, com relacionamentos fortalecidos. Há casos que o tocam especialmente: alunos oriundos de contextos difíceis, com problemas relacionados com a justiça, que encontram no jiu-jitsu um ponto de viragem. Um desses jovens abraçou-o a chorar, três meses depois de começar, agradecido pela mudança radical que a prática havia operado na sua vida.
O impacto do jiu-jitsu na vida de Délcio não se limita à sua atividade profissional. Os amigos brincam que o transformou numa espécie de "Dalai Lama", considerando quem ele era antes. Como tantos homens da sua geração, Délcio tinha dificuldade em expressar afeto, em demonstrar amor verbalmente aos seus. Isso mudou significativamente. "A minha mulher e os meus filhos notaram essa diferença. Comecei a dizer muito mais que os amo", conta com simplicidade.
Segundo o atleta e treinador, essa mudança decorre de um princípio básico: quando está em frente a uma turma, tem de estar com o coração puro e aberto, tem de falar aquilo que verdadeiramente sente. Não é possível inventar, mentir ou ser outra pessoa que não se é. Essa autenticidade exigida pelo ensino do jiu-jitsu refletiu-se inevitavelmente na sua personalidade fora da academia.
“Comecei a chorar só porque sim. Porque eu queria ser bom pai, bom marido, bom atleta, bom gestor e foi um mix de emoções”
Délcio santos

Délcio Santos | ©BANTUMEN
Antes de consolidar as suas Academias de Artes Marciais Monster - especificamente a Monster Fight Academy Cacém e a Monster Fight Academy Mercês, enquadradas na Portugal Gold Team - Délcio e a sua mulher operavam uma loja de festas infantis.
A transição de professor para dono de uma academia revelou-se particularmente desafiadora. Inicialmente, quando o seu mestre saiu da organização, Délcio assumiu as aulas de forma temporária. Essa situação prolongou-se por anos até surgir uma oportunidade de lecionar numa sala alugada perto de sua casa, no Cacém. Com o incentivo do mestre Leonardo Costa, Délcio aceitou o desafio, começando uma aventura empresarial que se estenderia muito além daquele pequeno espaço.
O casal decidiu encerrar o negócio anterior para se dedicar plenamente à modalidade. Mais tarde, quando os donos do ginásio onde lecionavam mostraram interesse em vender o espaço, Délcio e a sua esposa tomaram a decisão de adquirir o estabelecimento. "Aí foi realmente um choque", recorda sobre a transição de ser apenas professor para ser simultaneamente gestor. Os desafios multiplicaram-se: gerir recursos financeiros, lidar com infraestruturas, manter a qualidade do ensino e, ainda assim, ser pai e marido. Houve momentos de profunda tensão emocional. Délcio relembra-se de estar a treinar e começar a chorar. ”Comecei a chorar só porque sim. Porque eu queria ser bom pai, bom marido, bom atleta, bom gestor e foi um mix de emoções”. Contudo, apesar de todas as dificuldades e da pressão que a si próprio impunha, não desistiu. Depois de dois anos, o casal conseguiu abrir uma segunda academia, e Délcio deixa aberta a possibilidade de uma terceira expansão.
Questionado sobre as piores partes do empreendedorismo, Délcio recusa enquadrar a questão em termos negativistas. As dificuldades existem, admite, mas integram-se num processo de crescimento. O maior desafio que identifica é a gestão do tempo entre as responsabilidades profissionais e familiares, um dilema que a maioria dos empreendedores compreenderá intimamente.
Porém, existe um elemento que torna a sua jornada notavelmente diferente de muitos empresários: a parceria com a sua mulher. Délcio é explícito sobre isto: não diz "eu" quando fala dos negócios, mas "nós". A sua esposa funciona como um alicerce, mantendo-o focado, recordando-lhe que todo o processo é de aprendizagem, erro, correção e perseverança. "Tem que ser feito", é a filosofia que ambos compartilham.
"É mais fácil a dois, sem dúvida alguma", afirma com convicção. Mesmo reconhecendo que existem dinâmicas emocionais a gerir entre ambos, Délcio considera que o apoio de uma pessoa verdadeiramente conectada ao propósito comum é insubstituível. Nem mesmo os pais, teoricamente obrigados a apoiar cem por cento, podem oferecer o que um parceiro alinhado oferece.
Nos momentos de reflexão, já na cama antes de adormecer, Délcio projeta o futuro. O seu objetivo é ser referência, não necessariamente através do sucesso económico das academias, mas como alguém que faz o bem, que transmite as mensagens corretas e que encoraja as pessoas a apoiarem-se umas às outras. "Considero-me um homem de sucesso", declara. Tem três filhos, uma mulher que o apoia, consegue estar presente nas suas vidas, ninguém fica sem comer e esses são os indicadores que para si realmente importam.
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