Quando a depressão "é coisa de branco": saúde mental e os jovens guineenses na diáspora

June 5, 2026
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Cheikh Tcham, estudante guineense desaparecido no Porto | DR

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Cheikh Tcham tinha 23 anos, estudava em Castelo Branco e morava no Porto. A mãe, que reside em França, tinha viajado para Portugal para a queima das fitas do filho - o momento que marca, simbolicamente, a passagem da vida universitária para o mundo profissional. No dia 31 de maio, Cheikh desapareceu.


A notícia circulou nas redes sociais da comunidade guineense em Portugal, acompanhada de um pedido de informações sobre o seu paradeiro. Mas ao lado da preocupação com o jovem, emergiu outra conversa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. A que diz respeito à saúde mental dos jovens, sobretudo dos que emigram, estudam longe de casa, carregam o peso das expectativas da família e, muitas vezes, não têm a quem recorrer.


"Ultimamente tem-se deparado muito com isso, e levantou-se a questão sobre a depressão. Que muitas das vezes dizemos ser coisa de branco", escreveu uma utilizadora numa troca de mensagens que circulou online. A frase resume, com brutalidade, um tabu que atravessa gerações dentro das comunidades lusófonas africanas.


Na Guiné-Bissau, as raízes desse tabu têm também uma dimensão estrutural. O país conta com apenas um centro de saúde mental, o Centro Osvaldo Máximo Vieira, em Bissau - um edifício destruído durante o conflito armado de 1998 e que nunca foi totalmente recuperado. A perturbação mental é frequentemente lida através de um enquadramento religioso e cultural, e a pessoa que sofre enfrenta, muitas vezes, uma dupla estigmatização: a da própria condição e a da rejeição social que lhe está associada.


Quando estes jovens emigram para estudar, chegam a um país onde a língua é a mesma, mas os códigos são outros. O isolamento instala-se rapidamente. A Síndrome de Ulisses - descrita como um estado de stress múltiplo e crónico ligado à experiência migratória, marcado pela solidão, o sentimento de fracasso e o medo das instituições - atinge de forma desproporcionada os imigrantes africanos em Portugal.


A isso junta-se a pressão familiar. Estes jovens não chegam apenas para estudar - chegam para cumprir uma missão coletiva pois são, muitas vezes, a aposta da família, aqueles em quem foi investido o dinheiro que não sobrou para mais nada. E quando algo corre mal - uma dívida, uma nota, uma relação - o peso pode tornar-se insuportável, sem que haja espaço para o dizer em voz alta.


Um estudo da Universidade Nova de Lisboa realizado entre 2008 e 2009 identificou que 12,3% dos imigrantes africanos em Portugal reportam depressão. Para os técnicos de saúde mental que trabalham com estas comunidades, é o problema mental mais frequentemente diagnosticado nesta população - ligado à ansiedade e a um sofrimento que os próprios tendem a não reconhecer como doença. Reconhecê-la, aliás, implica confrontar uma narrativa que os acompanha desde a infância: a de que esse tipo de sofrimento não é "para nós".


A conversa que o caso de Cheikh Tcham gerou é a prova de que algo está a mudar - de que há, dentro das comunidades, vozes que querem nomear o que durante tanto tempo ficou sem nome. Mas nomear não chega. É preciso que existam recursos de apoio psicológico acessíveis e culturalmente informados, que as associações de estudantes estejam equipadas para identificar sinais de crise, e que as famílias aprendam que pedir ajuda não é fraqueza - é sobrevivência.


Cheikh Tcham ainda não foi encontrado. Quem tiver qualquer informação sobre o seu paradeiro pode contactar a família pelo número +245 955 214 437 (WhatsApp) ou informar as autoridades competentes.

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