Filipe Perna expõe em Luanda as cidades e memórias que atravessam a sua pintura

September 14, 2026
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Entre a Lisboa onde cresceu e a Angola onde vive desde 2013, Filipe Perna desenvolve uma pintura em que a memória urbana se cruza com a experiência pessoal e a exploração dos materiais. É esse percurso que chega à Galeria Tamar Golan, na Ilha de Luanda, com “Um Ano de Corpo e Alma: A Arte como Testemunho”, cuja inauguração está anunciada para 16 de setembro, às 19h00. A exposição propõe olhar para a criação artística como uma forma de trabalhar aquilo que fica das relações, dos lugares e das mudanças que atravessam uma vida. 


Nascido em Lisboa, em 1982, o artista cresceu entre Alvalade e a Avenida de Roma. Segundo a biografia disponibilizada pela organização, a música, o skate, a escrita e a cultura urbana lisboeta dos anos 1990 participaram na formação do seu universo visual. Mais tarde, as passagens por Portugal, Turquia e Angola alargaram esse contacto com diferentes contextos culturais. A fixação em território angolano constitui, nessa apresentação biográfica, uma etapa central do desenvolvimento da sua prática, aproximando referências europeias e africanas numa investigação sobre identidade, território e transformação.


Essa relação entre experiência e pintura passa também pela construção física das obras. A utilização de cor, textura e relevo, descrita nos materiais de apresentação, acompanha o recurso a elementos não convencionais, entre os quais espumas reutilizadas. A superfície ganha, assim, uma dimensão que aproxima pintura e escultura. A biografia associa este trabalho à abstração e ao fragmento arquitetónico, situando a cidade tanto no campo das referências do artista como nas possibilidades de organização das composições. 


A folha de sala reúne 16 obras, maioritariamente em acrílico sobre tela, a par de trabalhos de técnica mista. Os títulos fazem surgir dois campos recorrentes: a vida interior, em peças como “A Face Interior”, “A Sombra da Alma” e “Depois do Olhar”; e os espaços construídos ou habitados, presentes em “Cidade em Construção”, “Fragmentos de uma Cidade” e “Quintal da Tia”. As datas indicadas vão de 2023 a 2026, pelo que o conjunto documentado ultrapassa os doze meses sugeridos pelo nome da exposição.


No texto que acompanha a mostra, o professor e escritor Hélder Simbad encontra na memória uma ligação entre essas diferentes obras. “Cada tela guarda uma relação entre o sujeito e o mundo, entre aquilo que fomos e aquilo em que nos tornamos”, escreve. A leitura proposta associa o quintal à experiência familiar, a janela à possibilidade de abertura e a cidade aos processos de transformação. São pistas interpretativas que aproximam os trabalhos sem os reduzir a uma única narrativa biográfica. 


Num segundo ensaio, “Entre o Corpo e a Matéria”, Simbad desloca a atenção das emoções do autor para aquilo que a obra constrói através das suas técnicas, formas e relações. Ao abordar “Cidade em Construção”, sugere uma aproximação à experiência de Luanda, embora ressalve que a pintura não precisa de representar literalmente a capital angolana para permitir essa leitura. A ligação à cidade surge, portanto, como uma interpretação do ensaísta, sustentada na ideia de um espaço em permanente transformação. O mesmo raciocínio atravessa a sua abordagem de “Quintal da Tia”, entendida como uma reorganização pictórica da experiência de um lugar vivido. 


A exposição é acolhida pela Galeria Tamar Golan, integrada na Fundação Arte e Cultura. A instituição desenvolve atividade em Angola desde 2006 e mantém na Ilha de Luanda um centro com iniciativas de formação e programação cultural. Em setembro, a agenda anunciada reúne artes visuais, teatro, música, poesia e dança, colocando a apresentação de obras num contexto mais amplo de contacto entre criação artística e públicos. 


“Um Ano de Corpo e Alma: A Arte como Testemunho” pode ser visitada até 6 de outubro, com entrada gratuita, segundo a organização. A galeria fica no Centro Cultural da Fundação Arte e Cultura, junto à Escola 1205, na Ilha de Luanda. Para quem percorre estas obras, os títulos e o percurso do artista oferecem pontos de entrada numa questão que atravessa a exposição: de que forma os lugares e as experiências continuam presentes quando se tornam pintura? 

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