Hélio Cristóvão entre a televisão e o digital: “Todos podem caminhar juntos”

September 15, 2026
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Hélio Cristóvão | ©Team Selecto Talks

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Hélio Cristóvão não quer escolher entre televisão e digital. Para o jornalista, apresentador e produtor de conteúdos angolano, a discussão sobre qual dos meios irá sobreviver ao outro parte de uma premissa errada. O futuro, acredita, será menos uma guerra entre plataformas e mais uma convivência entre formatos, linguagens e formas diferentes de chegar ao público. "Acredito piamente que todos estes formatos farão parte do mesmo ecossistema de comunicação, sem necessariamente competirem entre si", diz à BANTUMEN. "O que vai diferir, futuramente, serão sobretudo as plataformas e os formatos de distribuição. Todos podem caminhar juntos."


A afirmação chega num momento particular do seu percurso. Depois de passar pelo teatro, jornalismo digital, rádio e televisão, Hélio lança o Selecto Talks, um projeto próprio de entrevistas que procura reunir personalidades de diferentes áreas e aproximar dos jovens experiências, ideias, escolhas e percursos de figuras com relevância social e profissional em Angola. Mais do que acrescentar simplesmente outro programa ao currículo, porém, o formato responde também a uma questão de identidade. "É uma satisfação pessoal e profissional gigantesca, mas também é uma forma diferente de me posicionar no mercado", explica.


Durante uma parte importante da carreira, Hélio esteve associado ao jornalismo de entretenimento e à cobertura de celebridades. Esse trabalho ajudou a consolidar o seu nome, mas criou também uma imagem profissional da qual procura agora distanciar-se. "Eu venho de um jornalismo mais ligado ao entretenimento, cor-de-rosa, e o meu trabalho foi tão marcante nessa fase que, até hoje, muitas pessoas não perceberam que esse é um capítulo passado", afirma. "A dada altura, isso começou a incomodar-me, porque sentia que sou muito mais do que isso. Então, criei um formato diferente, com uma abordagem diferente e convidados diferentes, justamente para me posicionar de forma diferente."


A mudança de posicionamento não significa uma rutura com o percurso anterior. Pelo contrário: Hélio vê a passagem por diferentes meios como uma espécie de formação acumulada, em que cada plataforma lhe deu ferramentas distintas. "Hoje, vejo-me como um comunicador com muitas habilidades dentro do universo da comunicação social, justamente por ter passado por múltiplas plataformas", diz.

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©Team Selecto Talks

O jornalismo digital foi, segundo o próprio, a base. Foi nesse ambiente que aprendeu a redigir, pesquisar, fazer perguntas e procurar extrair o máximo de informação possível de uma fonte. A rádio apareceu de forma menos planeada, mas acabaria por tornar-se uma das suas maiores paixões. A liberdade do microfone, a ausência da pressão visual e a relação com os ouvintes deram-lhe outra forma de comunicar. "A energia, o dinamismo de falar ao microfone, a interação com os ouvintes e a despreocupação com o facto de 'estarmos a ser vistos' são viciantes, quase como uma descarga de dopamina", descreve.


A televisão, por sua vez, trouxe um nível diferente de disciplina. "É uma caixa completamente diferente. O rigor com o tempo é inegociável. O cuidado com a imagem e até com a saúde ganha uma importância acima do normal. Aqui, a magia é ainda mais surpreendente." É precisamente essa relação de fascínio com a televisão que torna as críticas que Hélio faz ao setor mais relevantes. O apresentador não fala a partir de fora; questiona uma indústria à qual pertence e que continua a considerar central na sua própria trajetória.


Num texto de opinião publicado recentemente, defendeu mais rigor, preparação, formação e cultura entre os profissionais de entretenimento televisivo em Angola. Questionado sobre o que precisa de mudar com maior urgência, não hesita: "A ideia de que qualquer pessoa pode fazer televisão. Parece que está fácil demais, e está, mas, ao mesmo tempo, a televisão está igualmente comprometida. Precisamos de apostar mais no conhecimento e valorizar quem realmente estuda, se prepara e se esforça para estar naquele lugar."


A crítica liga-se a outra preocupação recorrente no seu discurso: como entreter sem perder credibilidade. Para Hélio, a dificuldade está também na forma como o público foi habituado a compreender o entretenimento. "É muito difícil, porque a televisão habituou o público a associar o entretenimento à diversão, nem sempre com o mesmo cuidado com o rigor que se impõe quando estamos diante das câmaras para milhares de pessoas." Para encontrar esse equilíbrio, diz procurar referências em programas portugueses e brasileiros, observando modelos, linguagens e soluções que depois tenta adaptar ao contexto angolano.


É nesse ponto que o Selecto Talks ganha importância. O projeto não nasce apenas como mais um produto digital, mas como uma tentativa deliberada de alterar a perceção pública sobre o próprio Hélio. Se a televisão lhe deu reconhecimento e disciplina, o novo formato oferece-lhe a possibilidade de construir outro tipo de conversa, escolher convidados diferentes e aprofundar temas que não cabem necessariamente dentro das estruturas tradicionais da televisão.


Essa liberdade está, para ele, diretamente ligada às possibilidades do digital. A televisão trabalha com grelhas, tempos fechados e estruturas editoriais mais rígidas; um podcast ou uma entrevista para YouTube pode respirar de outra forma. "O digital permite-nos extrair mais de cada convidado de uma forma menos formal, menos posturada", afirma. Ainda assim, não vê esta mudança como uma rutura irreversível entre meios. Pelo contrário, acredita que a própria televisão está a aprender com aquilo que acontece no digital e que essa adaptação será cada vez mais evidente.


No Selecto Talks, a seleção dos convidados procura igualmente afastar-se da lógica exclusiva da notoriedade. Para Hélio, uma personalidade relevante deve ser uma "referência real", alguém com capacidade de influenciar positivamente, ainda que dentro de um nicho, e que reúna conhecimento, inteligência e impacto. "A notoriedade não é um critério que pese tanto na escolha dos convidados. Interessa-me muito mais aquilo que a pessoa tem para acrescentar à conversa e ao público."

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©Team Selecto Talks

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©Team Selecto Talks

Essa definição ajuda também a compreender a ambição editorial do projeto. O objetivo assumido é criar conversas que possam inspirar e transmitir conhecimento aos jovens, mas Hélio rejeita a ideia de que isso obrigue a transformar cada episódio numa sucessão de histórias de sucesso. Para evitar esse risco, diz que tudo começa antes da gravação, na preparação. "Basta fazer bem o trabalho de casa, que é pensar exatamente no que o público que nos acompanha vai ganhar com aquela conversa." A base, acrescenta, está no conhecimento, nas experiências dos convidados e, sobretudo, nas ideias que estes conseguem partilhar.


A liberdade do digital, no entanto, também traz novas condicionantes. Uma conversa pode durar uma hora, mas a sua circulação depende muitas vezes de excertos de poucos segundos, títulos, miniaturas e momentos capazes de competir pela atenção nas redes sociais. O algoritmo passa, assim, a fazer parte do processo editorial, não apenas depois da publicação, mas potencialmente desde a preparação da própria entrevista.


Hélio não vê isso necessariamente como um problema. Pelo contrário, acredita que pode ser uma vantagem quando usado com critério. "Isto faz com que otimizemos o tempo e façamos as perguntas certas e estratégicas, já pensando nos excertos que poderão ter maior alcance." A afirmação revela uma transformação importante na forma como se pensa uma entrevista no ambiente digital: a conversa completa continua a ser o produto principal, mas algumas perguntas podem ser construídas também tendo em conta a forma como determinados momentos circularão fora do episódio integral.


Para Hélio, a fronteira está na integridade do conteúdo. "A base é respeitar as narrativas que se pretendem transmitir, sem alterar ou manipular as ideias dos convidados." É uma distinção importante num ambiente em que a procura por alcance pode facilmente favorecer cortes descontextualizados, frases de impacto e conflitos amplificados. No seu entendimento, pensar estrategicamente a circulação de um conteúdo não deve significar distorcer aquilo que foi efetivamente dito.


É também por isso que Hélio rejeita a ideia de que televisão, podcast, YouTube e redes sociais tenham necessariamente de disputar a mesma audiência como concorrentes diretos. A transformação que antecipa é outra: formatos diferentes a circular num ecossistema comum, cada um com a sua linguagem, duração e forma de distribuição. "Todos podem caminhar juntos", insiste.


Essa visão de convergência ajuda a explicar a forma como olha para o futuro do Selecto Talks. O projeto pode ter começado como um espaço digital de entrevistas, mas Hélio não o imagina necessariamente preso para sempre à mesma apresentação ou à mesma plataforma. "Olho para o Selecto Talks com uma visão de futuro", afirma.


É nesse contexto que menciona também as limitações que identifica no mercado angolano. "Infelizmente, em Angola, existem muitas restrições até para fazer entretenimento, quanto mais para criar espaços de conversas mais maduras e necessárias." Hélio não especifica, nas respostas enviadas à BANTUMEN, a natureza dessas restrições, mas deixa claro que pensa o projeto para lá da configuração atual. "Acredito que o Selecto Talks possa, no futuro, mudar de 'capas', mas mantendo sempre a sua génese."


Essa génese parece estar menos presa a uma plataforma do que à ideia de conversa. Depois de experimentar linguagens tão diferentes como o teatro, o jornalismo digital, a rádio e a televisão, Hélio parece interessado em combinar aprendizagens de todas elas: a pesquisa do jornalismo, o dinamismo da rádio, o rigor da televisão e a liberdade de distribuição do digital. “Acho que o formato do Selecto Talks é, por si só, transversal a qualquer mercado”, diz. “O que o torna interessante é a forma como a conversa é conduzida”, remata.

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