“Cicatrizes”, de Juju Rombe, mostra a luta contra o cancro e o que se enfrenta fora dos hospitais

October 26, 2026
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A 31 de outubro, último dia do Outubro Rosa, o mês dedicado à sensibilização para o cancro da mama, estreia em Maputo “Cicatrizes”, o filme que Juju Rombe escreveu e realizou. A atriz, que vive há sete anos com a doença, propõe-se mostrar o drama de quem vive e convive com o cancro e desfazer os preconceitos que ainda envolvem o diagnóstico e o tratamento.


Na capital moçambicana, muitos conhecem Joanett Rombe como Góia, a personagem que interpretou em “A Demissão do Sô Ministro”, peça da Companhia de Teatro Gungu, grupo cujos textos são escritos pelo dramaturgo Gilberto Mendes. O papel tornou-a ainda mais popular, e Juju arranca sorrisos por onde passa.


Entrou nas artes com o objetivo de ser atriz. Quando percebeu que precisava de aprofundar os seus conhecimentos, foi aprender encenação. Seguiu-se a televisão, onde conduz “Sextou com a Juju”, um talk show da STV que já vai na terceira temporada, e, mais tarde, a escrita de “Índico”, uma novela disponível na plataforma StvPlay. Foi ainda durante a escrita da novela que surgiu a vontade de fazer um filme. Cada mudança nasceu de uma inquietação e da necessidade de encontrar outras formas de expressão. “Eu sou curiosa e estou em constante aprendizado”, afirma.


Juju fez este percurso num meio que, na sua perspetiva, continua a colocar obstáculos significativos às mulheres. Os preconceitos começam muitas vezes em casa e nas relações conjugais e prolongam-se na sociedade, que associa a mulher artista a estereótipos incompatíveis com o casamento e a vida familiar. “Dificilmente um homem aceita, em paz, que a esposa seja artista”, lamenta. Muitas mulheres, diz, acabam obrigadas a escolher entre a carreira e o casamento, e conhece colegas que interromperam o seu percurso por causa de conflitos familiares ligados à profissão. Para a atriz, esta realidade revela falta de reconhecimento e de respeito pelo trabalho das mulheres no setor, e toca o direito de cada uma à autonomia, à realização pessoal e a uma identidade que vá além do que se espera de uma esposa ou de uma mãe. A mudança, defende, depende também delas. “Acredito que nós mesmas temos de lutar e mudar essa forma de pensar. Ninguém fará por nós.”


Foi já com a carreira lançada que, há sete anos, recebeu o diagnóstico de cancro da mama. O tratamento tem uma duração prevista de dez anos e encontra-se agora no sétimo. Depois disso, terá de manter o acompanhamento médico e fazer exames periódicos. Um dos momentos mais dolorosos chegou depois da cirurgia, quando se viu ao espelho pela primeira vez. “Foi um drama”, resume. A alteração no corpo abriu um processo de adaptação que lhe exigiu força emocional e que atravessou com a família por perto. “Tenho a melhor família do mundo. Acolheram-me muito bem e, em nenhum momento, me senti estranha. Lutam comigo desde o primeiro minuto”, conta. Na fé encontrou outra forma de dar sentido ao que estava a viver. “Deus agiu na minha vida e fez-me encarar a doença como uma grande guerreira. Transformou a minha dor em esperança para outras mulheres.”


Juju fundou a Renascer, associação dedicada à luta contra o cancro da mama, e foi sob o nome “Renascer com a Juju” que, a 1 de outubro de 2022, organizou com o apoio do Millennium bim um desfile com cerca de 15 mulheres com a doença. Na altura, falava do receio de muitas mulheres em retirar a mama, por temerem a rejeição, o abandono e o estigma. O mesmo banco promoveu um webinar do Outubro Rosa em que partilhou o seu testemunho, ao lado de um médico do Hospital Central de Maputo que apresentou o panorama da doença no país.


Em outubro do ano passado, numa sessão de sensibilização promovida pelo Microbanco Sólido, em Maputo, apontou a falta de acesso ao tratamento como aquilo que leva as pessoas a morrer de cancro e contou que a Renascer pedira apoio a várias empresas para instalar centros de tratamento próximos das comunidades. Na mesma ocasião, um enfermeiro do serviço de oncologia do Hospital Central de Maputo indicou que a unidade regista oito casos de cancro da mama por dia, num país onde, segundo dados divulgados pelas autoridades em edições anteriores da campanha, este é o segundo cancro mais frequente entre as mulheres e a maioria dos casos é detetada numa fase avançada, com reduzidas possibilidades de cura.


“Entre as consequências do cancro, existem alterações que representam grandes desafios para a família, empregadores e todo o meio social à volta da pessoa em tratamento. Este filme surge da necessidade de mostrar o outro lado da doença e chamar a atenção de toda a sociedade para ajudar na superação deste drama, que cada vez mais afeta muitas pessoas no nosso país”, explica.


O outro lado de que fala começa na forma como a sociedade reage. Para Juju, o medo do olhar dos outros, o preconceito e a falta de informação levam muitas pessoas a esconder a doença e a evitar falar do que estão a viver, e o diagnóstico não pode continuar a ser motivo de vergonha, isolamento ou discriminação. “Temos de falar de cancro como se estivéssemos a falar de febres. Ninguém deve ter medo do diagnóstico. Com este filme, pretendo sensibilizar a sociedade para a doença, explicar como apoiar quem recebe o diagnóstico e alertar para atitudes que, mesmo sem intenção de magoar, podem aumentar o sofrimento de quem está em tratamento”, defende.


Reconhece que o acesso à medicação e aos cuidados de saúde é fundamental, mas entende que o apoio emocional e psicossocial merece a mesma atenção. Fora dos hospitais e das consultas, o acolhimento, a escuta e a presença de quem está próximo ajudam a atravessar um período particularmente difícil e incluem o respeito pelo direito de cada mulher a viver o tratamento sem abdicar de si própria. “Viver com cancro não deve significar perder o direito à feminilidade, à intimidade, à autoestima ou à dignidade. Também não deve obrigar ninguém a corresponder às expectativas sociais sobre a aparência de uma mulher”, diz.


Depois da estreia em Maputo, Juju Rombe quer levar “Cicatrizes” a todas as capitais provinciais de Moçambique e, numa fase seguinte, aos restantes Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

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