King Cizzy transforma mudança, paternidade e identidade em “O Verão Onde Tudo Mudou”

August 3, 2026
King Cizzy álbum de estúdio O Verão Onde Tudo Mudou
DR

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King Cizzy lançou, a 31 de julho, O Verão Onde Tudo Mudou, o terceiro álbum de estúdio da sua carreira. São 14 faixas em que o artista moçambicano se aproxima de forma mais assumida do Afrobeats e apresenta um trabalho atravessado por amor, ambição, vulnerabilidade, espiritualidade, paternidade e identidade africana. Depois de mais de uma década a construir o seu percurso entre o hip hop e outras sonoridades, Cizzy chega a este novo projeto interessado em mostrar a evolução musical, mas também as mudanças pessoais que passaram a influenciar aquilo que escreve.


Nascido em Maputo, King Cizzy começou a escrever e a atuar em 2009. Em 2015, lançou o primeiro EP, "CDTSYCAO", mas foi sobretudo a partir de Junior, álbum de estreia editado em 2018, que começou a ganhar maior visibilidade. Seguiram-se o EP "Barulho", em 2019, e "Escolhido", em 2021, projeto que viria a receber uma versão Deluxe no ano seguinte. Ao longo desse período, o rapper foi experimentando uma aproximação gradual a sonoridades africanas e a uma escrita mais melódica, sem abandonar a base hip hop que marcou os primeiros anos da carreira.


A transformação já era evidente em 2021, quando apresentou “Loko”, single de antecipação de Escolhido. Na altura, King Cizzy explicava que atravessava um período de transição e procurava encontrar uma versão mais versátil e melódica de si próprio. A utilização de sonoridades africanas aparecia então como uma forma de se aproximar das suas origens e, ao mesmo tempo, combinar as referências norte-americanas que o acompanharam desde cedo com uma identidade musical construída a partir de Moçambique.


Um ano mais tarde, numa entrevista à BANTUMEN por ocasião de Escolhido Deluxe, essa procura continuava presente. O artista falava de um crescimento que considerava evidente, mas apresentava-se ainda como alguém em processo de aprendizagem. Ao mencionar Lil Wayne, 50 Cent e Kanye West como algumas das suas referências, dizia observar a versatilidade e a ética de trabalho desses artistas e tentar transportar essa energia para a própria música, “mas acrescentando a minha identidade”.


É precisamente essa identidade que ganha agora maior espaço em O Verão Onde Tudo Mudou. Se anteriormente King Cizzy parecia concentrado em mostrar capacidade de adaptação, evolução técnica e versatilidade, o novo álbum surge num momento em que a preocupação passa também pelo que pretende construir a longo prazo. A mudança está ligada ao crescimento artístico, mas também à forma como acontecimentos da vida pessoal, sobretudo a paternidade, alteraram a sua relação com o sucesso, o futuro e a responsabilidade. “Este álbum marca o momento em que deixei de fazer música para provar alguma coisa e comecei a fazer música para deixar uma marca. É um retrato de quem me tornei, das minhas responsabilidades, das minhas raízes e do homem que continuo a construir”, explica King Cizzy sobre o projeto.


A paternidade aparece pela primeira vez de forma tão assumida no seu trabalho e ajuda a explicar parte dessa mudança de perspetiva. Tornar-se pai levou-o a pensar o amor, a ambição e o legado a partir de outro lugar. Em O Verão Onde Tudo Mudou, essas questões não aparecem necessariamente separadas em canções com uma função específica, mas atravessam o álbum e ajudam a compor o retrato de um artista que começa a relacionar aquilo que pretende alcançar profissionalmente com o tipo de homem que quer ser fora da música.


Essa preocupação com identidade também passa pela relação entre Moçambique e a herança guineense do artista. King Cizzy tem procurado construir uma linguagem que não trate a origem africana como elemento acessório de um projeto pensado para o mercado internacional. Pelo contrário, parte dessas referências para pensar de que forma a sua música pode circular fora do continente mantendo uma leitura própria sobre aquilo que significa ser um jovem africano.


As influências que o próprio artista identifica ajudam a compreender esse percurso. Ao falar sobre os discos que considera fundamentais para a sua formação, escolheu Views, de Drake, Graduation, de Kanye West, e Made in Lagos, de Wizkid. Para King Cizzy, esses trabalhos concentram elementos que ajudaram a construir a sua visão criativa enquanto artista de hip hop e enquanto homem africano.


Antes do álbum, King Cizzy já tinha dado algumas pistas sobre a direção que pretendia seguir. Em março deste ano, lançou o EP antes de tudo mudar., composto por cinco temas - “fala bem”, “jogadora”, “10:00”, “caro” e “garden park freestyle” -, num projeto que funcionou como introdução ao novo ciclo.


Em O Verão Onde Tudo Mudou, essa mudança ganha também uma dimensão coletiva. Ao longo das 14 faixas, King Cizzy reúne Milli3, Nicko Journey, Melony, Melanie Anais, Stefania Leonel, Denilson LA, Kong e Djimetta. As participações ajudam a alargar o universo do projeto sem retirar o foco da narrativa pessoal que o artista pretende construir, enquanto a produção procura combinar referências africanas com uma abordagem contemporânea ao Afrobeats.


A direção executiva ficou a cargo de OTTO, produtor moçambicano radicado em Barcelona, e do holandês Ian Harrison. A presença de diferentes geografias dentro da equipa acompanha uma ambição que King Cizzy já vinha manifestando ao longo da carreira: fazer música a partir de Moçambique com capacidade de chegar a públicos noutros países, em vez de alterar a própria identidade para tentar encaixar num modelo internacional.


A ligação à Guiné-Bissau, tal como a relação com Moçambique, ajuda a perceber que a dimensão internacional imaginada por King Cizzy não significa necessariamente afastamento das origens. O movimento que procura fazer é outro: construir um projeto africano suficientemente sólido para poder circular em diferentes espaços. É também por isso que O Verão Onde Tudo Mudou chega num momento particularmente interessante para a música produzida no continente, quando artistas africanos ocupam cada vez mais palcos, tabelas de vendas e circuitos internacionais sem precisarem de esconder os códigos culturais que sustentam os seus trabalhos.


Quando, em 2022, dizia à BANTUMEN que acreditava estar “num bom caminho”, King Cizzy falava sobretudo de evolução artística e do trabalho necessário para melhorar enquanto compositor. Quatro anos depois, o percurso ganhou outras dimensões. O artista continua a querer chegar mais longe, mas a paternidade, a relação com as suas raízes e uma maior consciência sobre aquilo que pretende deixar através da música passaram a fazer parte dessa ambição.


É desse lugar que nasce O Verão Onde Tudo Mudou: como o terceiro álbum de King Cizzy e também como o retrato de uma fase em que carreira e vida pessoal começaram a ser pensadas dentro da mesma ideia de futuro.


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