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No novo projeto de sete faixas, o artista luso-cabo-verdiano cruza a métrica da kizomba, com os ritmos das antilhas, como a melodia do cabo-zouk e os instrumentais de konpa. Além de propor uma nova designação musical, Rahiz quer construir uma ponte entre ilhas, diásporas e culturas que há muito comunicam através do ritmo.
Rahiz regressa ao formato que marcou os seus primeiros anos no hip-hop para apresentar uma nova direção artística. Lançada a 28 de julho, “Kizonpa Mixtape” reúne sete temas, cantados em português e crioulo cabo-verdiano, nos quais o artista procura aproximar a kizomba do konpa haitiano.
Com cerca de 29 minutos, o projeto inclui as faixas “Kizonpa”, “Filha do Kapeta”, “Só de Pensar”, “Dzêl”, “Gente Pobre”, “Ez Vida” e “Bo Manera”. O projeto está disponível nas plataformas digitais através da Black on Black Music.
O nome “Kizonpa” nasce da junção entre kizomba e konpa. Rahiz descreve a fórmula como uma combinação da métrica e do flow da kizomba com a componente melódica do cabo-zouk, colocada sobre instrumentais de konpa. O resultado não pretende apresentar uma fusão concluída ou definitivamente codificada. É, antes, o primeiro ensaio público de uma linguagem que o artista considera ainda em maturação. “A ideia da Kizonpa nem é tanto pelo género. É para unir estes povos que, de verdade, são os mesmos, mas não sabiam”, afirma Rahiz, ligando o projeto a uma visão mais ampla sobre Cabo Verde, Haiti, as Caraíbas e as respetivas diásporas.
Apesar de anteceder um álbum de estúdio já em preparação, Rahiz faz questão de classificar “Kizonpa” como uma mixtape. A escolha não é apenas terminológica. O artista quis recuperar a lógica das mixtapes de hip-hop: instrumentais selecionados fora do processo tradicional de composição de um álbum, maior liberdade de experimentação e uma produção deliberadamente menos polida. A seleção dos instrumentais ficou a cargo de Phat, amigo e colaborador de longa data, enquanto a produção executiva é assinada por Ekzahl. “Estou a fazer uma mixtape porque a sonoridade é um pouco suja. Alguns beats não têm a maior qualidade, mas não me importo. É uma introdução [para o que aí vem]”, explica. Esta opção permite-lhe apresentar a ideia antes de concluir o trabalho mais ambicioso que se seguirá, no qual participam músicos, compositores e produtores ligados à kizomba, ao konpa e a diferentes territórios da diáspora. Rahiz diz estar a desenvolver essa linguagem com um compositor e diretor artístico que considera pioneiro no cruzamento entre os dois universos musicais e que estará também envolvido na direção do próximo álbum.

A mudança de sonoridade não representa, para Rahiz, uma saída do hip-hop. O artista entende o género menos como uma fórmula musical fechada do que como uma atitude perante a criação, a autonomia e o empreendedorismo. “O hip-hop não é só quando estamos com o microfone na mão, em cima de instrumentais de boom bap. É uma atitude”, defende. Essa leitura ajuda a compreender o percurso de um artista que, ao longo dos anos, tem circulado entre o rap, a kizomba, o reggae, o afrobeat e as versões em crioulo cabo-verdiano de músicas originalmente interpretadas noutros idiomas. Também explica a recuperação do formato mixtape. Em vez de esperar pela conclusão do próximo álbum, Rahiz decidiu registar uma fase de experimentação que considera inseparável do momento cultural vivido pelas comunidades cabo-verdianas, haitianas e caribenhas.
O lançamento acontece, aliás, num período de crescente reconhecimento internacional do konpa, também conhecido como compas. Em 2025, a expressão musical e coreográfica haitiana foi inscrita pela UNESCO na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. A organização descreve-a como uma prática que reúne influências africanas, europeias e indígenas e que funciona como símbolo de resiliência e celebração da herança cultural do Haiti.
Filho de pais cabo-verdianos e nascido em Portugal, Rahiz coloca a experiência da diáspora no centro da proposta. A alternância entre português e crioulo não funciona apenas como recurso estético. Permite-lhe dirigir-se a públicos que cresceram entre referências culturais, línguas e geografias diferentes. Na sua leitura, o konpa, a kizomba e o cabo-zouk já convivem há décadas nas casas e festas das comunidades africanas e caribenhas. Muitas pessoas, argumenta, cresceram a ouvir estas sonoridades sem conhecerem necessariamente os seus nomes, origens ou fronteiras.
“Kizonpa Mixtape” procura tornar essa proximidade mais consciente. Não se limita a colocar uma voz de kizomba sobre ritmos antilhanos: tenta construir uma plataforma a partir da qual artistas de Cabo Verde, Angola, Portugal, Antilhas e das respetivas diásporas possam reconhecer elementos comuns e desenvolver novas colaborações. Rahiz associa essa missão cultural a uma preocupação mais ampla com o posicionamento da diáspora. Durante a conversa, defendeu que os cabo-verdianos residentes no estrangeiro podem contribuir para o país através da formação, da transferência de conhecimento e da criação de redes internacionais, sobretudo num momento de maior exposição turística e económica do arquipélago.
Apesar das implicações culturais e identitárias, Rahiz não quer que o discurso retire à mixtape a sua função mais imediata: fazer dançar. “A minha música, neste exato momento, é para fazer as pessoas sentirem-se bem”, resume. “Quero que voltem a sentir-se bem quando ouvem música, nomeadamente estes ritmos que nos põem a dançar.” “Kizonpa Mixtape” deve, por isso, ser entendida como ponto de partida. É um projeto de transição entre o passado do artista nas mixtapes de hip-hop e uma fase em que a música serve para aproximar territórios separados pela geografia, mas ligados pela migração, pela memória e pelo movimento dos corpos. Rahiz não apresenta ainda um género fechado. Apresenta uma hipótese: a de que Cabo Verde, Haiti e outras ilhas da diáspora atlântica podem encontrar na pista de dança uma linguagem comum.
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