Marina Correia encontrou no longboard o caminho de uma campeã

April 23, 2026
Marina Correia longboard entrevista
Marina Correia, no Longboard Dancing & Freestyle World Championship | ©Beek Yane

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Nascida na Praia, filha de mãe cabo-verdiana e pai brasileiro, Marina Alyssa Correia ou simplesmente Marina Correia cresceu entre Cabo Verde e França, num percurso marcado desde cedo pela deslocação, pela adaptação e pela procura de pertença. Mudou-se para Nice aos 14 anos, numa fase sensível da adolescência, e foi nesse processo de transição entre geografias, códigos e referências distintas que começou a descobrir no movimento uma forma de se reencontrar.


Mais tarde, encontrou no longboard dance, uma vertente do skate em que equilíbrio, técnica e expressão corporal se fundem numa linguagem própria que vai além da prática desportiva. Começou aos 17 anos, sem ambição competitiva definida. Primeiro surgiu a liberdade, depois a disciplina e, mais tarde, um percurso internacional que a levou ao título mundial de 2020, ao segundo lugar em 2021 e, este ano, Marina Correia voltou a destacar-se ao vencer a prova feminina de G-Turn no Longboard Dancing & Freestyle World Championship, realizado a 4 e 5 de abril, em Eindhoven (Países Baixos).


Em 2022, foi nomeada embaixadora de Cabo Verde para os Jogos Olímpicos de Paris 2024 e integrou a Powerlist BANTUMEN 100. Hoje, entre a competição, a vida em Nice e a vontade de abrir espaço para outras mulheres no skate, continua a pensar o seu percurso para lá dos títulos. Em entrevista à BANTUMEN, fala sobre identidade, corpo, migração, liberdade e responsabilidade.

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Marina Correia longboard entrevista

©Jeoffrey The Creator

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©Jeoffrey The Creator

Mudaste-te de Cabo Verde para França aos 14 anos, numa fase em que ainda estavas a construir a tua identidade. De que forma essa travessia moldou quem és hoje?


Nascer em Cabo Verde e mudar-me para França aos 14 anos foi um choque cultural muito intenso. Passei 14 anos da minha vida na Praia, num ambiente, com uma língua e códigos que eram completamente meus. E, de repente, chego a um país onde tudo é diferente: a língua, as pessoas, a forma de comunicar. Tive de reaprender tudo, adaptar-me, quase reconstruir-me.


Durante algum tempo, senti que não fazia realmente parte daquele lugar. Mas, ao mesmo tempo, percebi que era ali que ia construir uma parte importante da minha vida. E isso obrigou-me a crescer mais rápido, a criar uma nova versão de mim. E aos 14 anos ainda estamos a formar a nossa identidade, por isso essa transição teve um impacto enorme em quem eu sou hoje.


Com o tempo, essa dualidade entre Cabo Verde e França deixou de ser um conflito e passou a ser uma força. Influenciou muito a forma como me relaciono com o corpo e com o movimento. Passei por muitas fases, e foi aí que o skate entrou. O longboard acabou por trazer à tona o melhor de mim, deu-me uma forma de me expressar sem palavras, apenas através do movimento. Mais do que um desporto, foi uma forma de me reencontrar, de criar o meu próprio espaço, sem precisar de escolher entre dois lugares. No fundo, foi no movimento que encontrei um lugar onde finalmente me senti inteira.


Começaste a praticar longboard aos 17 anos e, poucos anos depois, já estavas a afirmar-te num circuito internacional. O que é que encontraste nesta modalidade que não tinhas encontrado noutros lugares?


Quando comecei o longboard aos 17 anos, não estava à procura de competir nem de chegar a um nível internacional. Comecei mesmo por pura diversão. O que encontrei foi, acima de tudo, liberdade. É um universo onde não há regras fixas, nem um caminho imposto. Somos o nosso próprio coach, a nossa própria força e também os nossos próprios limites.


Como não vinha de um ambiente estruturado no skate, construí tudo à minha maneira. E isso permitiu-me desenvolver algo muito pessoal, muito autêntico. No longboard, encontrei uma forma de expressão que nunca tinha encontrado noutros lugares. Algo que me permite comunicar sem palavras, só através do movimento.


Mas, mais do que isso, encontrei aquilo que me faz vibrar. Aquela sensação que me motiva todos os dias. Hoje, já faz parte da minha vida há mais de dez anos. E não é só um desporto, é um estilo de vida. Está presente na minha forma de pensar, de viver, de me mover. E quando fazemos parte desta comunidade, levamos sempre esse lado connosco. No fundo, o longboard não é apenas algo que eu faço, é algo que eu sou.


Entre o título mundial de 2020, o segundo lugar em 2021 e a vitória recente no Women G-Turn, em 2026, sentes que o teu percurso conta uma história de continuidade ou de reinvenção?


Quando olho para o meu percurso, vejo um pouco dos dois: continuidade e reinvenção.


Depois de 2021, houve uma viragem importante. Aprendi a lidar melhor com a pressão e a exigência da competição. Em 2022, por exemplo, consegui uma vitória no Hamburg Longboard Open, mesmo estando lesionada no tornozelo. Foi um momento forte, mas também um sinal de alerta. Percebi que precisava de abrandar e recentrar-me. Afastei-me um pouco das competições, porque sentia que tinha de trabalhar mais o meu lado mental. Havia uma certa fragilidade que eu precisava de entender e transformar.


Hoje, em 2026, sinto-me mais disciplinada, mais focada e mais alinhada. E esse regresso também foi muito impulsionado pelo apoio das pessoas à minha volta: amigos, família e toda a comunidade cabo-verdiana.


Por isso, vejo este momento não só como uma continuidade, mas também como o início de algo maior. Não é apenas sobre voltar a ganhar, é sobre saber quem eu sou enquanto atleta e até onde ainda posso ir.


Em 2022, foste nomeada embaixadora de Cabo Verde para os Jogos Olímpicos de Paris 2024. O que significou esse reconhecimento?


Ser nomeada embaixadora de Cabo Verde para os Jogos Olímpicos de Paris 2024 foi um momento muito especial e muito forte para mim. Senti-me valorizada e reconhecida, não só como atleta, mas também pela minha modalidade, que ainda não é muito conhecida.


Nessa altura, a minha carreira já estava a crescer a nível internacional, por isso esse papel teve um significado ainda maior. Também me fez perceber melhor certos desafios e responsabilidades: representar um país através do desporto, especialmente com a minha idade, é algo bastante excecional. Muda completamente a forma como encaras tudo.


Fiquei muito feliz, mas ao mesmo tempo muito consciente do que isso representava. E acho que, desde então, tenho tentado e continuo a tentar representar bem Cabo Verde em tudo o que faço, dentro e fora da competição.

Marina Correia longboard entrevista

©Beek Yane

A tua ligação a Cabo Verde surge muitas vezes como um eixo forte do teu percurso. Hoje, essa relação vive-se mais como memória, responsabilidade ou vontade concreta de construir alguma coisa para o país?


A minha relação com Cabo Verde é claramente identitária. Eu construí uma grande parte da minha identidade através do país, da forma como cresci aqui, das experiências que vivi e dos valores que absorvi. É um país que te dá muito a nível cultural e humano.


Ao mesmo tempo, quando vais para fora e tens contacto com outros contextos, desenvolves também uma abertura de espírito que te faz ver coisas que antes não vias. E isso acaba por reforçar ainda mais essa ligação. Hoje, sinto que é uma conexão muito, muito forte com Cabo Verde, que faz parte de mim em tudo o que faço.


Quanto à ideia de construir algo para o país, isso continua a estar nos meus planos. Mas, neste momento, estou muito focada nas competições e no meu percurso desportivo. E acredito que, para construir algo com impacto, também é preciso apoio, não se faz tudo sozinho.


Com ajuda, seja do governo, da comunidade cabo-verdiana e das pessoas certas, acredito que é possível criar algo bonito através do desporto, especialmente para os jovens. A juventude é, para mim, o mais precioso que uma sociedade tem. A educação é como ouro, tem valor em qualquer lugar e é ela que constrói tudo.


Nos últimos anos, o teu percurso também passou por abrir espaço para outras mulheres dentro do longboard. Quando é que percebeste que o teu caminho podia ser também esse?


Em relação às mulheres no longboard, acho que, de forma inconsciente, comecei a criar algo que vai muito além de mim e da minha individualidade. Ao ser eu própria, ao fazer os meus vídeos e ao falar sobre certos temas, acabei por abrir e até criar espaços dedicados às mulheres.


Em Nice, por exemplo, onde vivo, organizo sessões de skate só entre mulheres para as motivar a ocupar o espaço público, para que se sintam menos julgadas e mais legítimas naquilo que fazem. Dou mesmo muita importância a isso.


Acho que nunca foi uma decisão consciente nem um objetivo definido desde o início. Foi algo que foi surgindo com o tempo, com a minha evolução e também com o impacto que comecei a ter. E quando isso acontece, vêm muitas coisas ao mesmo tempo, boas e menos boas. Mas isto, sem dúvida, é uma das melhores coisas que me podia ter acontecido.


Inspirar outras mulheres a começarem a andar de skate é algo que me deixa muito orgulhosa, porque, para mim, este é um dos melhores desportos que existem, pela liberdade, pela forma como te desafia e pela confiança que te dá.


A tua trajetória é muitas vezes lida através dos marcos mais visíveis, os títulos, as campanhas, os convites. O que é que ainda falta perceber sobre ti enquanto atleta?


Acho que muitas vezes a minha trajetória é vista através dos marcos mais visíveis, os títulos, as distinções, as campanhas, os convites. Mas há muito mais por trás disso que nem sempre aparece.


O que ainda falta perceber sobre mim, enquanto atleta, é que tudo isso é resultado de um processo muito humano, com fases de dúvida, de cansaço, de reconstrução e de crescimento interno. Não é só performance ou resultados. Há um lado mental e emocional muito forte que acompanha tudo o que acontece fora.


O que é que esta nova vitória abre em ti, não apenas em termos de ambição competitiva, mas também na forma como queres continuar a ocupar espaço?


Esta vitória no Women G-Turn chega numa fase em que já tenho um percurso construído e algum reconhecimento, e isso muda a forma como eu própria vivo o momento. Não sinto que seja um ponto de chegada, mas sim uma continuação.


O que este novo momento abre em mim é sobretudo mais consciência. Consciência do impacto que tenho, da responsabilidade que isso traz, mas também da liberdade de continuar a evoluir sem me prender apenas à imagem exterior. Em termos de ambição competitiva, claro que quero continuar a crescer e a competir ao mais alto nível. Mas, para além disso, sinto cada vez mais vontade de ocupar espaço de forma mais completa, não só como atleta que vence, mas como alguém que inspira, que constrói e que contribui para algo maior do que o resultado em si.


Cada vitória também abre portas para outras pessoas. Para pessoas que têm sonhos, para pessoas que em algum momento duvidaram de si, para pessoas que estão prestes a desistir. Eu vejo cada vitória não como algo individual, mas como algo coletivo. E isso é ainda mais pessoal para mim quando penso na minha comunidade. Sei que há muitas pessoas que me acompanham: crianças, raparigas, rapazes, e até adultos que se identificam comigo e que se motivam com o meu percurso. Isso tem um peso muito grande para mim.


No fundo, cada vitória também é para eles. É uma forma de lhes dar força, de lhes mostrar que é possível, e de continuar a inspirar pessoas que, de alguma forma, se veem em mim ou no meu caminho.

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