Princezito, o nome por trás de “Lua”, do finaçon e de uma geração que reinventou Cabo Verde

April 23, 2026

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Nasceu em 1971, quatro anos antes da independência, na vila do Tarrafal, ilha de Santiago. O lugar exato era Monte Iria, e isso importa porque foi ali que Nha Bibinha Kabral viveu os seus últimos anos. A lendária cantadeira de finaçon passava pelo caminho diariamente, a comercializar, e o rapaz que viria a ser Princezito começou a imitá-la por fascínio puro, sem saber ainda que aquilo que aprendia tinha nome, história e o peso de séculos. No vocabulário do finaçon, chama-se rabenda ao ato de imitar, repetir. Era o início de tudo.


O finaçon é uma forma poética de improviso e declamação cantada, profundamente enraizada na cultura de Santiago. Na sua versão clássica, a cantadeira - sempre uma mulher - improvisa sobre temas do quotidiano, tecelando provérbios, ironias e conselhos numa linguagem que serve simultaneamente como entretenimento, como memória coletiva e como filosofia pública. Nha Bibinha Kabral era uma das suas grandes vozes. A tradição exigia domínio total da língua, da métrica e do contexto social e era, em sentido pleno, uma arte de palavra. Princezito absorveu-a como quem bebe antes de ter sede: "Aprendi também a manusear as palavras, ou neste caso, a balbuciar as palavras com ela."


Aprendeu a escrever aos seis anos, em português e em crioulo, e esta segunda língua não era, à época, uma escolha óbvia. Num Cabo Verde pós-colonial que ainda hesitava entre valorizar a língua e manter o prestígio da língua metropolitana, escrever em crioulo era quase um gesto político. O irmão mais velho, Mário Lúcio - poeta, músico, que viria a ser ministro da Cultura - já escrevia em crioulo quando poucos o faziam, e foi através dele que o mais novo descobriu que a língua dos ventos, das crianças e das histórias antigas também podia existir no papel, com a mesma dignidade de qualquer outra, que contava coisas que nenhuma outra língua contava da mesma forma.


Mário Lúcio foi, nesse sentido, a sua primeira biblioteca. Obrigou-o a ler livros, deu-lhe acesso ao mundo quando o mundo ainda estava longe. Com sete ou oito anos, Princezito já sabia que existia um regime chamado apartheid, que existia um homem chamado Nelson Mandela, que havia pirâmides e continentes e músicos que faziam coisas impossíveis. E havia também os poemas do irmão, que lia às escondidas, num gesto que apelida de “violar cadernos.” "Ao ler um poema, ficava extremamente enlouquecido. Porque ele dizia que a sereia saiu do mar com escamas  de peixe sobre os seios. Eu não sabia que se podia fazer tudo com poemas."

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Morabeza
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©Janeth Tavares

A música chegou pela mesma via, mas com instrumentos que as condições obrigavam a inventar. As guitarras eram construídas com latas de banha de porco e fios; o que funcionava como bateria era um conjunto de latas de azeite de tamanhos diferentes, cujos volumes distintos produziam tons diferentes. Não era exatamente um estúdio, mas era um laboratório e a criatividade que ali se exercitava, a capacidade de fazer som com o que havia à mão, acabaria por revelar-se uma das marcas do seu trabalho. "Crescemos num ambiente musical improvisado", recorda. A palavra improvisado não descreve apenas a precariedade dos meios; é a mesma palavra que define o coração do finaçon, a mesma que mais tarde definiria a sua forma de estar em palco e de entrar num estúdio com um rapper de vinte e poucos anos.


Cresceu também entre mulheres. Perdeu os pais cedo, e foi a avó, a tia-avó, as irmãs e as cunhadas que o criaram. Princezito fala disso como de uma forma específica de presença e a feminilidade que aprendeu com elas tornou-se a chave para compreender o mundo, para cultivar a paciência e a amabilidade que descreve como instrumentos tão úteis quanto qualquer guitarra. Não é acidental que tenha sido essa criança criada por mulheres a tornar-se o herdeiro de uma tradição que pertencia, por convenção e por história, quase exclusivamente às mulheres.


Quando Cabo Verde se tornou independente em 1975, Princezito tinha quatro anos. Era demasiado novo para viver a euforia, mas tinha a idade certa para crescer dentro do que ela produziu. Os anos 80 encontraram-no num país que tentava perceber o que era, culturalmente, depois de cinco séculos de colonização. O batuku e o finaçon, tradições da ilha de Santiago que durante décadas a Igreja Católica e a administração portuguesa classificaram como "selvagens" e "imorais", chegando a proibir formalmente a sua prática, começavam a regressar ao centro como instrumentos de afirmação identitária. A geração que cresceu nos anos seguintes à independência fê-lo dentro de uma efervescência cultural que não tinha precedente recente.


Princezito não assistiu a esse processo, mas participou nele desde cedo. Ainda criança, cantou finaçon num acampamento da Organização dos Pioneiros Abel Djassi [pseudónimo de Amílcar Cabral] e causou espanto imediato: um menino a praticar uma forma reservada às mulheres mais velhas era, no mínimo, uma anomalia. Mas a ousadia foi aceite, porque o talento era inegável. Mais do que isso, havia técnica, tradição e capacidade de improviso.

Seguiu-se Cuba. Oito anos que foram, à superfície, um percurso académico - formou-se como técnico de laboratório, profissão que nunca exerceu - e que foram, em profundidade, uma transformação que ainda hoje ressoa no seu trabalho. "Aprendi a ser africano em Cuba", diz, e a frase exige, nas palavras do próprio, uma leitura que vai além do que é dito. Não se trata de uma afirmação essencialista sobre identidade racial, mas de algo mais preciso: em Cuba, Princezito encontrou uma versão de África que Santiago, pela sua história particular de insularidade e mestiçagem, nunca lhe havia dado acesso. Os orixás, o candomblé, as religiões de matrizes africanas, os mais de vinte tipos de tambores que conheceu, o patuá, uma língua de base iorubá, que sobreviveu intacta no Caribe quando há muito havia desaparecido das ilhas atlânticas. "Vais a Santiago de Cuba e, se te fecharem os olhos e te largarem lá, vais pensar que estás num país de África."

O que mais o marcou foi a percussão. Cabo Verde sempre teve uma relação frágil com o ritmo percussivo, o batuku usa almofadas de couro; os instrumentos de percussão africana nunca se enraizaram da mesma forma que, por exemplo, no Brasil ou no Caribe. Em Cuba, essa ausência tornou-se visível. A riqueza percussiva que encontrou ali - a precisão rítmica, a sobreposição de linhas, o modo como o tambor carrega significado cultural e espiritual - preencheu uma lacuna que ele nem sabia que tinha e integrou-se definitivamente no seu universo sonoro. Voltou a Cabo Verde com mais camadas, mais referências, mais perguntas e um novo entendimento de onde a música de Santiago podia ir quando empurrada nessa direção.

O regresso aconteceu no final dos anos 90. A 26 de fevereiro de 1999, Carlos Alberto Sousa Mendes subiu ao palco do Centre Culturel Français da Praia para o seu primeiro concerto profissional. É essa a data que ele próprio elege como marco inicial e não por acaso: é o momento em que o artista formado pela tradição, moldado por Cuba e refinado pela leitura e pela escrita, decide apresentar-se publicamente como tal.

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©Janeth Tavares

Pouco depois, integrou o projeto coletivo Ayan!, uma compilação que reuniu Tcheka, Vadú e o grupo Djingo com o objetivo de reinterpretar a música de Santiago numa nova roupagem, mais afro, mais jazzística, sem trair o terreiro de onde havia saído. A produção contou com Ângelo Andrade, o guitarrista Paulo Ribeiro, o baixista Kisó Oliveira e o músico brasileiro Ricardo Deus. Era uma proposta deliberada: fazer música cabo-verdiana com personalidade própria, com cunho identitário, sem repetir os padrões já existentes. Nessa compilação, Princezito apresentou "Lua" pela primeira vez, canção que havia nascido de um momento de dor e que, com os anos, se tornaria um dos pontos mais altos da sua obra e da música cabo-verdiana contemporânea.


"Lua" é também a história de uma generosidade involuntária. Mayra Andrade tinha 16 anos quando ouviu a canção e quis cantá-la. Princezito disse que sim sem hesitar e a jovem levou-a ao festival da Francofonia no Canadá, onde ganhou a medalha de ouro. Entretanto, Lura gravaria-a em DVD e a canção passou a pertencer, de alguma forma, a essas duas vozes. "É como se ela [Mayra Andrade] tivesse emprestado asas à minha caneta. É como se ela tivesse dito: valeu a pena o teu esforço", explica o artista recordando o momento.


A constelação de artistas a que ele pertenceu nesse período ficaria conhecida como Geração Pantera - Tcheka, Vadú, Orlando Pantera, Djingo e ele. Não foi um movimento organizado em torno de um manifesto; foi uma convergência de trajetórias em torno de um impulso partilhado. O batuku, até então uma tradição oral e feminina do interior de Santiago que a migração havia trazido para as cidades, precisava de uma nova linguagem para palcos contemporâneos. Esses artistas encontraram-na, cada um à sua maneira, transpondo os padrões rítmicos do terreiro para a guitarra, a percussão de estúdio, os arranjos com influências jazzísticas e afro. Orlando Pantera - considerado por muitos o principal catalisador desta renovação - morreu prematuramente em 2001, sem ter gravado um álbum a solo. Ficou o trabalho dos outros para provar o que ele havia começado. Vadú viria também a falecer num trágico acidente de carro, nove anos mais tarde.


Em 2008, Princezito lançou Spiga, o seu primeiro disco a solo, e com ele o documento mais completo da sua proposta artística. O álbum é uma investigação sobre as várias vertentes do batuku - aborda a melopeia, a melodia cantada extraída de histórias, contos e provérbios populares; e o finaçon, a declamação improvisada que pratica desde menino. A produção foi de Hernani Almeida, com edição pela Harmonia. Os temas - "Pilonkan", "Bakandesa", "Tamara", "Batuku Azul", "Tarafal na Biku", "Mar", "Lua", "Fala Fula", "Rifugiadu di guerra", "Txoru Kantadu" - formam um percurso coerente pela memória musical de Santiago, sem cair em arqueologia ou em nostalgia. Treze anos depois do lançamento, um portal cabo-verdiano escreveria sobre ele com uma frase em crioulo que resume o que qualquer análise demoraria a dizer: ka ta kansa, ka ta da fastiu di ripiti. Não cansa. Não enjoa de repetir.


O público, em geral, olha para Princezito como um artista da tradição, como o homem do batuku, do finaçon, do Santiago mais antigo. E está certo, até certo ponto. O que não sabe, porque nunca perguntou, é o que existe por baixo dessa superfície. Se alguém perguntasse qual é o seu género musical preferido, a resposta seria: flamenco. Ouve música eletrónica de forma assídua. Tem referências que vão da África do Sul a Cuba, de Angola à Etiópia. Quando tenta cantar flamenco, percebe que está a deslizar para o funaná - porque o corpo tem memória, e a memória dele é cabo-verdiana -, mas isso não o impede de escutar, de absorver, de deixar que outras tradições entrem na sua. "O público pensa que sabe tudo de ti. Ou então que tu só sabes aquilo que contas, aquilo que canta, aquilo que dizes."


A identidade artística que se constrói à volta de um músico é sempre uma versão simplificada do músico real, é a versão que cabe num cartaz, numa legenda, num parágrafo de apresentação. Princezito é demasiado curioso, demasiado irrequieto, para caber inteiramente em qualquer etiqueta. Ele que descobriu as pirâmides aos sete anos lendo os cadernos do irmão, que aprendeu percussão afro-cubana em Havana, que admite passar quatro horas a tentar perceber o porquê de uma nota inesperada num piano, é também um explorador que usa a tradição como bússola, não como gaiola.


É essa abertura que explica a aproximação às novas gerações, com especial destaque para "Sima Bo", tema gravado com MC Acondize e que apresenta Princezito num registo que os seus fãs menos atentos não esperavam: o rap. Mas para ele, a surpresa é de quem não conhece o finaçon. A forma poética que aprendeu com Nha Bibinha Kabral no Tarrafal partilha com o rap muito mais do que a superfície sugere: o improviso, o ritmo como estrutura, a palavra como instrumento de comentário social, a capacidade de nomear o presente enquanto ele ainda acontece. Para quem passou a infância a improvisar em terreiros, um estúdio com um jovem rapper é apenas outro terreiro, com outras frequências.


O encontro, conta, aconteceu há cerca de três anos. O que chamou a atenção de Princezito não foi o talento técnico do rapper - isso verificou-se depois -, mas a postura: "É um jovem muito tranquilo, reservado, educado e com objetivos bem definidos." É a linguagem de quem reconhece num artista mais novo a seriedade que sempre exigiu de si próprio. E a teoria que usa para justificar o encontro é, ao mesmo tempo, a teoria que sustenta toda a sua visão da música: "A nota que o MC Acondize faz é a mesma nota que eu faço. Já estamos unidos por isso, porque partilhamos as mesmas frequências." Recorda que as gerações são continuações e que um homem que cresceu com o finaçon de Nha Bibinha Kabral e um jovem que cresceu com o rap do mundo digital podem beber do mesmo mar, ainda que em pontos diferentes da costa.


Sobre o estado da cultura em Cabo Verde - e sobre o que falta -, Princezito faz um diagnóstico sobre a divisão de funções nunca ter sido estabelecida com seriedade. Pede-se ao artista que seja simultaneamente criador, produtor, gestor, agente, contabilista e embaixador da própria obra. Que grave discos, que pague impostos, que se organize em associações, que negoceie contratos, que apareça às horas certas nos sítios certos. O problema desta exigência é que os artistas não têm treino nem vocação para a maior parte dessas funções e forçá-los a exercê-las é retirar-lhes o que têm de mais valioso: a atenção disponível para criar. "O artista não está talhado para fazer certas coisas." A comparação que faz é simples e certeira: o político não faz outra coisa, faz política. Se tentar fazer outra coisa, não faz bem nenhuma das duas. O mesmo princípio aplica-se ao artista e enquanto não existir uma estrutura de suporte que separe a criação da gestão, Cabo Verde continuará a perder, em burocracia e em cansaço, energia que podia estar a ser investida em obra.


Quando descobre uma nota inesperada ao piano, Princezito pode passar quatro horas a tentar perceber o porquê. Quatro horas num único som, num mundo que a tudo impõe velocidade e que penaliza quem demora, é quase um ato de resistência, mas é também a descrição do que significa fazer música a partir de uma tradição que sempre valorizou a escuta demorada e o respeito pelo som como portador de significado. O finaçon improvisa-se a partir de um corpo de conhecimento acumulado ao longo de anos, décadas, gerações. A nota nova que descobrir hoje é filha de todas as notas que ouviu antes.


"As descobertas são infinitas", diz. Ele que começou por imitar uma velha cantadeira num caminho de terra do Tarrafal, que tocou guitarras feitas de latas de banha de porco, que aprendeu a ser africano em Havana, que voltou para ajudar a reinventar o batuku em Santiago, que escreveu "Lua" num momento de dor e a viu partir para palcos onde ele próprio ainda não havia estado. Carlos Alberto Sousa Mendes é, nas próprias palavras, um “príncipe do nada” e é exatamente por isso que  recusa qualquer riqueza que não caiba num palco ou numa folha de papel.

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